A Chery pediu ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a proteção do desenho da picape Himla, em registro divulgado na última terça-feira (8). O modelo foi exibido ao público brasileiro no Salão do Automóvel de 2025 como um estudo em avaliação, e o pedido agora coloca a fabricante chinesa no radar de um segmento hoje dominado por Toyota Hilux, Ford Ranger e Chevrolet S10 — sem, no entanto, significar lançamento confirmado no país.
O registro foi apresentado em nome da Chery Commercial Vehicle, divisão do grupo dedicada a veículos comerciais. Trata-se de uma proteção de desenho industrial, instrumento que blinda a forma do veículo no território nacional, mas que não equivale a homologação para venda nem compromete a empresa com datas, versões ou preços. Nem a Caoa Chery nem a Omoda & Jaecoo anunciaram o modelo para o Brasil.
O que o registro efetivamente indica
O pedido no INPI garante proteção ao desenho da carroceria, mas não funciona como uma homologação para venda. Na prática, o movimento sinaliza que o projeto entrou no radar da fabricante para o mercado nacional: a Himla deixou de ser apenas uma atração de salão para ganhar uma camada jurídica de proteção industrial.
Quando a picape foi mostrada no Salão do Automóvel de 2025, o grupo CAOA e a operação Chery não confirmavam sua chegada ao país e a tratavam como um modelo em estudos, usado para medir a receptividade do público. O registro muda o estágio do projeto, mas não resolve as questões centrais: se a picape vem, quando vem, com qual motorização e a que preço.
Do projeto KP11 à Himla
A picape deriva do projeto conhecido internamente como KP11, revelado pela Chery em 2024. O conceito original trazia um protótipo azul, com pneus de uso misto, acessórios para fora de estrada e inscrição da fabricante em letras grandes na grade. A versão de rua apareceu no Salão de Xangai de 2025 e passou a ser chamada de Himla nos mercados internacionais. Na China, a mesma picape integra a linha da Rely sob o nome R08.
A Chery chegou a considerar uma versão do projeto para a Jaecoo antes de adotar a Himla como nome para os mercados internacionais. A caminhonete já faz parte da linha da fabricante no Chile, o que amplia sua presença na América Latina e serve como referência de porte, motorização e equipamento para a eventual versão brasileira.
Porte de Hilux, Ranger e S10
As dimensões colocam a Himla no coração do segmento médio. Segundo dados divulgados pela Chery no Chile, o modelo mede 5,33 metros de comprimento, 1,92 m de largura, 1,86 m de altura e 3,23 m de entre-eixos. A Toyota Hilux tem cerca de 5,32 m de comprimento, enquanto Ford Ranger e Chevrolet S10 também passam dos 5,30 m.
Dependendo da configuração, a caçamba pode receber até uma tonelada de carga — capacidade que atende tanto ao uso profissional quanto ao público que procura uma picape para viagens e lazer.
O desenho registrado no Brasil mostra uma dianteira dominada por uma grade ampla, com o nome Chery aplicado em grandes letras, e faróis distribuídos em diferentes níveis. Nas laterais, chamam atenção a cabine dupla, as caixas de roda marcadas e a divisão bem definida entre cabine e caçamba. Atrás, as lanternas são verticais e ocupam as extremidades da carroceria, solução comum entre as picapes médias.
No interior, a central multimídia ocupa uma área de destaque no painel, com comandos concentrados na tela, e o console central usa uma alavanca de câmbio compacta, tipo joystick. A solução se aproxima da adotada nos SUVs recentes da Chery e segue uma tendência que ganhou força no segmento com a BYD Shark.
Diesel, elétrico e extensor de autonomia
A Himla foi concebida como um projeto multi-energia. Na configuração a diesel, a proposta é um motor 2.3 turbodiesel de aproximadamente 163 cv e 42,8 kgfm de torque — potência abaixo da média do segmento. O conjunto pode ser associado à tração 4×2 ou 4×4 e a câmbios manual de seis marchas ou automático de oito velocidades. A linha internacional da Chery também inclui uma opção 2.4 a gasolina.
Na versão elétrica, há dois níveis de desempenho. A configuração de entrada usa um motor único e tração traseira, com 150 kW (201 cv) e 35,7 kgfm, e acelera de 0 a 100 km/h em 8,8 segundos. A versão AWD combina dois motores, entrega 300 kW (402 cv) e 55 kgfm e reduz a mesma prova para 5,0 segundos. As baterias disponíveis têm 66,54 kWh ou 88 kWh, e a maior permite percorrer até 510 km pelo ciclo chinês CLTC, método mais otimista que o utilizado pelo Inmetro no Brasil.
O projeto também foi concebido para receber versões híbridas plug-in e elétricas com extensor de autonomia, combinação antecipada pela Chery quando revelou a KP11.
O que ainda falta para virar rival de Hilux e Ranger
O registro no INPI resolve apenas uma parte da equação. Para entrar efetivamente no mercado, a Chery ainda precisa confirmar a comercialização e definir versões, motorização, equipamentos e estratégia de preços. Também não está definido se a Himla seria vendida pela operação da Chery administrada pela CAOA ou por outra estrutura do grupo.
A operação brasileira da Chery está fatiada: a marca de mesmo nome é gerida pela CAOA, enquanto iCAUR, Omoda & Jaecoo e as futuras Exeed e Lepas estão nas mãos da matriz chinesa. A própria divisão que apresentou o registro, a Chery Commercial Vehicle, é dedicada a veículos comerciais, o que acrescenta uma camada de indefinição sobre o canal de venda.
Se o projeto avançar, a Chery terá pela frente um mercado em que Toyota Hilux, Ford Ranger, Chevrolet S10, Mitsubishi Triton e outras picapes médias já disputam consumidores, além da concorrência que se forma no campo da eletrificação. O registro no INPI, nesse contexto, funciona como um passo intermediário: mais concreto do que a exibição de salão, mas ainda distante da confirmação de venda, homologação ou início de produção.





