As delegacias especializadas no acolhimento de mulheres em situação de violência contabilizaram 782.474 procedimentos ao longo de 2025, número que evidencia a capilaridade e a procura crescente por esses canais de denúncia e proteção em todo o território nacional. O levantamento oficial, divulgado na sexta-feira (7) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, consolida dados de 530 das 585 unidades existentes no país, incluindo as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) e demais estruturas congêneres.
Por trás do volume total de registros, o estudo revela que 329.451 vítimas buscaram ajuda nessas unidades ao menos uma vez no período. O dado é especialmente relevante por demonstrar que muitas mulheres retornam mais de uma vez para dar continuidade a procedimentos, renovar pedidos de proteção ou relatar novos episódios de agressão — um indicativo de que o ciclo de violência frequentemente exige acompanhamento prolongado.
Panorama dos 20 anos da Lei Maria da Penha
O diagnóstico integra as ações institucionais que marcam as duas décadas da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006. Ao reunir informações de 530 unidades espalhadas pelo país, o documento traça um retrato detalhado da atuação policial no enfrentamento à violência doméstica e familiar, com dados que vão do perfil das ocorrências à efetividade das medidas protetivas.
A evolução da rede de atendimento é um dos pontos centrais do levantamento. A primeira delegacia especializada do Brasil foi instalada em 1985, no centro da capital paulista, e já naquele mesmo ano outras 19 unidades foram abertas. Atualmente, a estrutura nacional conta com 585 unidades, operadas por cerca de 6.200 profissionais — delegados, agentes, escrivães, psicólogos e assistentes sociais — treinados para seguir protocolos específicos de escuta e acolhimento.
Tipos de violência mais registrados e alta em perseguição
Entre as ocorrências que chegaram às unidades especializadas em 2025, a ameaça lidera o ranking, com 148.544 registros. Na sequência aparecem lesão corporal (99.473 casos) e injúria (88.739 ocorrências). Os números reforçam um padrão histórico: a violência contra a mulher no Brasil manifesta-se de forma escalonada, com frequência começando por agressões verbais e ameaças antes de evoluir para agressões físicas graves.
O levantamento também chama atenção para o crescimento expressivo de duas modalidades específicas. A perseguição, tipificada como crime de stalking, saltou para 52.855 atendimentos, uma alta de 44,3% na comparação com o levantamento anterior, cujo ano-base era 2023. Já os casos de violência psicológica somaram 23.911 registros, um avanço de 49,7% no mesmo período. A elevação pode estar associada tanto ao aumento real desses crimes quanto à maior disposição das vítimas em formalizar denúncias após mudanças legislativas.
Concentração regional e liderança de São Paulo
A análise geográfica dos atendimentos revela forte concentração no Sudeste. A região respondeu por 125.769 vítimas atendidas, o equivalente a 47,8% do total nacional. Em seguida vêm Nordeste, com 53.067 vítimas (20,2%), Centro-Oeste, com 43.662 (16,6%), Sul, com 21.087 (8,0%), e Norte, com 19.712 vítimas (7,5%). A distribuição acompanha a densidade populacional, mas também reflete diferenças na estrutura de atendimento disponível em cada estado.
No recorte por unidade federativa, São Paulo desponta como o estado com o maior número de vítimas acolhidas: 84.103 mulheres passaram pelas unidades especializadas paulistas ao longo de 2025. O resultado é influenciado tanto pela população expressiva do estado quanto pela maior capilaridade da rede de delegacias da mulher e equipamentos similares.
Medidas protetivas e descumprimento
O estudo também dimensiona a operação do sistema de proteção emergencial. Ao todo, as unidades especializadas solicitaram 302.626 medidas protetivas de urgência no período, das quais 118.672 foram concedidas pela Justiça — uma taxa de aprovação de 74,2%. Essas medidas são instrumentos legais criados pela Lei Maria da Penha que determinam, entre outras providências, o afastamento do agressor do lar e a proibição de aproximação e contato com a vítima.
Um dado preocupante do levantamento, no entanto, é que 38.214 dessas medidas concedidas foram descumpridas pelos agressores. O número acende um alerta para a necessidade de mecanismos eficientes de monitoramento e fiscalização, já que o descumprimento de medida protetiva é um dos principais fatores de risco para a evolução de casos de violência doméstica para feminicídio.
Desafios estruturais da rede de atendimento
A despeito dos avanços institucionais acumulados em quatro décadas, o diagnóstico aponta gargalos significativos na infraestrutura das unidades. O principal deles é o horário de funcionamento: 80% das delegacias especializadas não operam 24 horas por dia, o que limita o acolhimento de vítimas em horários noturnos e finais de semana, quando historicamente se concentram muitos episódios de violência doméstica.
Carências materiais e de pessoal também foram relatadas de forma expressiva. A insuficiência de recursos para investigação foi mencionada por 57% das unidades, enquanto 46% relataram falta de viaturas e 40% apontaram escassez de equipamentos de menor potencial ofensivo. O cenário sugere que, embora a rede tenha evoluído em alcance e especialização, a efetividade do atendimento ainda esbarra em limitações operacionais que exigem investimento contínuo e priorização orçamentária.
O conjunto de dados do 10º Diagnóstico Nacional das Unidades de Polícia Civil Especializadas no Atendimento às Mulheres não apenas dimensiona o problema, mas serve como ferramenta de gestão para que estados e governo federal aprimorem políticas públicas voltadas à prevenção da violência de gênero e à proteção das vítimas.





