O NTSB, órgão americano que investiga acidentes de transporte, apontou o acionamento inadvertido do botão de decolagem/arremetida (TOGA) como causa provável do tail strike registrado por um Boeing 787-9 da ANA All Nippon Airways durante o pouso em Houston. A conclusão consta do relatório final divulgado em 9 de setembro de 2026, que encerra a apuração sobre o episódio ocorrido em 27 de fevereiro do mesmo ano.

O voo NH-114 foi operado pela aeronave de matrícula JA873A, que decolou de Tóquio-Haneda rumo ao Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston, com 197 passageiros e 12 tripulantes a bordo. O toque na pista 26L aconteceu às 7h53 no horário local, equivalentes a 13h52 UTC. A cauda da aeronave entrou em contato com o pavimento, mas o jato deixou a pista sem outros incidentes e seguiu para o pátio por meios próprios.

Como a tripulação conduziu a aproximação

No momento da chegada a Houston, a visibilidade estava comprometida pela neblina. Diante desse cenário, os pilotos optaram por executar uma aproximação e pouso de Categoria III, com apoio do sistema automático de pouso do 787. O comandante atuava como piloto em comando, enquanto o primeiro oficial fazia a função de monitoramento dos sistemas.

Segundo os relatos colhidos na investigação, a aproximação transcorreu sem anormalidades. No toque, o comandante confirmou que os manetes de empuxo estavam em marcha lenta total e viu os spoilers se abrirem. Foi ao mover as mãos para acionar os reversores de empuxo que ele notou o nariz do avião subir de forma inesperada. O primeiro oficial, atento ao indicador de modo de voo, verbalizou que o sistema havia entrado no modo TOGA.

O que os dados de voo mostraram

Os gravadores indicaram que o botão TOGA foi pressionado cerca de meio segundo depois de as rodas principais tocarem a pista. Com isso, os modos de arfagem do piloto automático e de aceleração automática migraram para TOGA. Ainda nesse modo, o piloto automático comandou o profundor e o estabilizador horizontal para buscar uma atitude de retomada de voo, elevando a arfagem de 3,5 graus para 7,4 graus em apenas dois segundos.

A coluna de controle foi empurrada para frente cerca de cinco segundos depois da entrada no modo TOGA. Mais dois segundos e a força aplicada à coluna chegou ao pico de 40 libras, o que desconectou o piloto automático. Nesse instante, a atitude de arfagem da aeronave alcançou 7,8 graus, patamar suficiente para o contato da cauda com a pista, com um pico posterior de 7,9 graus.

Os dados também mostraram que o próprio sistema do avião havia acionado o recurso de proteção contra tail strike, que passou a comandar uma diminuição da deflexão do profundor. A autoridade limitada desse mecanismo, porém, não conseguiu conter o aumento da atitude de arfagem que terminou no impacto. Ao deixar a pista, o comandante viu no sistema do avião a mensagem de colisão de cauda, e a inspeção posterior confirmou danos substanciais à parte inferior da fuselagem.

Conclusão da investigação

A apuração não encontrou evidência de falha no piloto automático. Os investigadores concluíram que o comandante provavelmente pressionou o botão TOGA sem intenção no momento em que esticou a mão para alcançar os reversores de empuxo, logo após o toque. Tanto ele quanto o primeiro oficial afirmaram não se recordar de ter acionado o comando, e a lembrança da tripulação foi de que o nariz subiu para cerca de 7,5 graus.

A fabricante do 787 informou que as condições capazes de inibir a ativação do TOGA ainda não estavam satisfeitas quando o botão foi pressionado, o que permitiu a transição dos modos automáticos. A tripulação só percebeu a mudança de modo quando o nariz já estava em elevação, e essa detecção tardia impediu a aplicação de correções a tempo de evitar o tail strike.

Danos, classificação e implicações

O caso foi classificado como acidente tanto pelo NTSB quanto pelo Japan Transport Safety Board (JTSB). Os danos à fuselagem exigiram reparos na aeronave, mas ninguém entre os 197 passageiros e os 12 tripulantes ficou ferido.

O TOGA fica ao lado dos controles de potência. Ao ser acionado, ele muda o modo do sistema de voo para arremetida, o que eleva a potência e altera a trajetória do avião. Pressioná-lo depois que as rodas já tocaram a pista cria uma situação crítica, porque a aeronave tenta ganhar altitude enquanto parte dela ainda está em contato com o solo, combinação que favorece um impacto como o registrado em Houston.

O episódio reforça que as tripulações precisam acompanhar com atenção não só os parâmetros do voo, mas igualmente a situação dos modos automáticos, inclusive em pousos automáticos com visibilidade reduzida. A investigação aponta que a falta de consciência sobre a ativação do TOGA foi determinante para o desfecho.