Gestor da Vinland Capital analisa mercado de crédito privado
Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital, em entrevista sobre reabertura de fundos

Após meses de spreads comprimidos, o mercado de crédito privado brasileiro voltou a oferecer janelas de oportunidade que há muito não se viam. A Vinland Capital, gestora especializada no segmento, decidiu reabrir todos os seus fundos de crédito para novas captações, movimento interpretado como o maior sinal de confiança em preço e risco desde o fechamento ocorrido ao longo de 2024. Segundo Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da casa, a relação entre retorno esperado e risco embutido nos papéis voltou a fazer sentido após uma abertura expressiva dos spreads.

O movimento reflete uma melhora significativa nos prêmios de risco: os spreads se abriram mais de 120 pontos-base em relação ao pico de outubro do ano passado, o equivalente a 1,2 ponto percentual ao ano embutido nos preços dos papéis. Para Gil, reabrir os fundos é a forma mais direta de comunicar ao mercado que a equipe está confiante na relação preço-risco atual, contrastando com a postura adotada em 2024, quando a gestora fechou os fundos de infraestrutura em junho e o de previdência em dezembro para proteger cotistas antigos da diluição provocada por prêmios excessivamente baixos.

A decisão estratégica da Vinland

A reabertura não é um movimento isolado. Ela ocorre em um contexto em que os retornos dos fundos incentivados — aqueles com isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas — atingiram patamares que, segundo Gil, não são encontrados no mercado tributado convencional. Em alguns casos, o retorno equivalente bruto chega a CDI mais 3 a 4 pontos percentuais, um nível que o gestor classifica como ‘raro’ para o momento atual do ciclo de crédito.

A decisão de fechar os fundos no ano passado, na visão de Gil, protegeu investidores de entrarem em um momento desfavorável. ‘Eu, pelo menos, evitei que alguns clientes entrassem nos fundos no momento que eu achava que os próximos 12 meses não seriam tão legais’, disse. Agora, com os spreads em patamar mais atrativo, a Vinland entende que o risco e o retorno voltaram a fazer sentido, e a sinalização via reabertura é clara.

O novo cenário de spreads

A abertura de 120 pontos-base nos spreads representa mais do que um simples ajuste de preço. Para gestores de crédito, cada ponto-base importa na construção de carteiras com duration e risco adequados. Esse movimento deixa para trás o ambiente de prêmios comprimidos que dominou boa parte de 2024 e início de 2025, quando a demanda por ativos de renda fixa pressionava os yields para baixo.

Na prática, o investidor que entra nos fundos da Vinland agora está comprando papéis com maior compensação pelo risco de crédito. Gil destaca que os fundos incentivados, com isenção fiscal, oferecem um retorno líquido ainda mais atraente quando comparado a alternativas tributadas. Para a gestora, o momento é de recomposição de posições com cautela, aproveitando a reprecificação ocorrida nos últimos meses.

Monitoramento e análise interna

Por trás da decisão de reabertura, há uma estrutura robusta de análise de crédito. Gil comanda uma equipe de dez pessoas que acompanha cerca de mil emissões de aproximadamente 150 grupos econômicos, incluindo centenas de empresas aprovadas internamente e suas subsidiárias. A rotina diária envolve atribuir preços de compra e venda a cada um desses papéis, gerando informação contínua sobre o mercado.

‘A gente tenta dar preço para tudo porque preço é informação’, explicou Gil. ‘Você coloca lá um preço de compra e um de venda, você vai ser questionado — alguém vai te tomar o papel ou bater numa plataforma. É informação para mim.’ Essa metodologia permite à Vinland identificar distorções de precificação e agir rapidamente.

A análise por setor se apoia em dois indicadores centrais: o nível de margem operacional e a volatilidade histórica dessas margens ao longo dos ciclos econômicos. Setores com margens estreitas e instáveis, como o varejo, exigem estruturas financeiras mais conservadoras para que as empresas entrem no portfólio. ‘Um setor mais arriscado vai me exigir um nível de exigência maior no crédito’, resumiu Gil.

Infraestrutura: o perfil de risco mudou

No segmento de infraestrutura — carro-chefe dos fundos com isenção fiscal — a Vinland observa uma mudança estrutural que passou despercebida por muitos investidores. Mudanças nas regras ampliaram o universo de empresas aptas a emitir esses papéis, incorporando áreas como telecomunicações, petróleo e gás e agronegócio. Essas atividades têm um perfil de risco diferente das concessões de energia elétrica e saneamento que dominavam o segmento há dez anos.

‘O perfil de risco que você pode, em teoria, ter no mundo de infra hoje não é o mesmo de dez anos atrás’, advertiu Gil. Um setor que concentra atenção especial da equipe é o de fibra óptica. Após anos de expansão acelerada, a infraestrutura chegou a um ponto de saturação em diversas cidades, com múltiplas operadoras disputando os mesmos endereços. ‘Tem cidade que tem dois rolos de fibra passando na mesma casa’, ilustrou o gestor, destacando que a disputa agora migrou para a retenção dos clientes de maior valor, pressionando as margens.

O timing da reabertura

A decisão de reabrir os fundos agora, após um período de fechamento em 2024, sinaliza que a Vinland enxerga uma janela de oportunidade. Para Gil, o momento é de retorno mais raro no crédito privado, dado que os spreads se abriram de forma significativa sem que houvesse deterioração proporcional na qualidade dos emissores. A gestora aposta que o ciclo de crédito seguirá benigno, mas com prêmios mais justos.

Com a reabertura, a Vinland espera atrair novos investidores que ficaram de fora dos fundos no período de spreads comprimidos. A mensagem é clara: a gestora voltou a ver valor no mercado de crédito privado brasileiro, e a reabertura dos fundos é a ferramenta mais direta para comunicar essa convicção ao mercado.