
Durante 2024, o trader Caio Scotte enfrentou o que classificou como uma das fases mais duras da trajetória no mercado: foram 77 pregões convivendo com um drawdown até a curva voltar a reagir. Em participação no episódio 84 do GainDelas, programa do canal GainCast, ele detalhou como a pressão acumulada deixou de ser apenas financeira e passou a atingir a confiança no próprio operacional. A demora na recuperação fez com que a dúvida sobre a validade da estratégia se tornasse constante, e Scotte passou a questionar se o que executava ainda funcionava diante de um histórico recente que deixara de oferecer respostas positivas. A saída, segundo o trader, veio do trabalho anterior: testes, operações e registros acumulados ao longo do tempo serviram de referência para sustentar a decisão de continuar. O relato indica que a superação do período não dependeu de uma virada imediata no pregão seguinte, mas de uma confiança construída fora do momento de estresse, lastro que permitiu atravessar a fase sem abandonar o método.
Unidade de risco muda a leitura dos resultados
Scotte também apresentou números que ilustram a diferença entre olhar a performance por recortes curtos e por janelas mais amplas. No mês, a conta mostrava 17,98R negativos; no acumulado do ano, o dashboard indicava aproximadamente 420R positivos. A comparação evidencia como um período de semanas pode distorcer a avaliação de uma estratégia.
No vocabulário do trading, R representa uma unidade de risco definida antes da entrada, permitindo comparar operações sem depender apenas do valor monetário. Uma perda de 1R equivale ao risco previsto para a operação, e os ganhos seguem a mesma referência. Com essa padronização, o trader passou a enxergar a curva para além do saldo recente.
Scotte afirmou que não avalia mais o desempenho semanal ou mensal como veredito sobre a estratégia. A leitura de longo prazo, no entanto, não significa ignorar resultados negativos nem supor que qualquer método voltará a funcionar. A recomendação é manter o acompanhamento dos números sem transformar uma janela curta em justificativa para mudar regras testadas sob pressão, porque a urgência de recuperar rápido pode levar a decisões piores.
Diário de trade como âncora nos dias de pressão
Outro pilar do processo de Scotte é o registro sistemático das operações. Ele mantém uma planilha convertida em dashboard, com entradas, saídas, riscos e resultados, para confrontar a execução com o plano original. Quando a confiança diminui, o histórico de documentação oferece evidências mais concretas do que a sequência recente de trades.
O trader defende a prática como indispensável para conhecer os próprios números e reconhecer falhas de execução. Em vez de avaliar o dia apenas pelo saldo, a revisão permite identificar operações indevidas ou riscos diferentes dos previstos. Um resultado positivo não encobre uma execução ruim, e um stop corretamente aplicado continua fazendo parte do método.
Scotte também passou a operar com exposição pública em suas transmissões no YouTube, no projeto Diário do Trade. Até o episódio, a iniciativa acumulava 37 pregões documentados, com compras, vendas, ganhos e perdas. A exposição, segundo ele, adiciona responsabilidade à execução e funciona como apoio em períodos de pressão, tanto que afirma que nunca mais voltaria a operar sozinho.
Evidência de vantagem separa disciplina de esperança
A passagem pelo período de estresse também serviu para delimitar quando faz sentido insistir no método. Scotte sustenta que suportar um drawdown não implica repetir cegamente uma estratégia: é preciso encontrar evidências de vantagem e conhecer o comportamento esperado de perdas e ganhos antes de continuar.
Sem essa base, permanecer operando deixa de ser disciplina e se transforma em esperança. Na avaliação do trader, o critério central é a existência de vantagem matemática no modelo; se houver, a execução deve seguir; se não houver, não há razão para manter a operação. A distinção reforça a tese de que método e processo precisam ser validados por dados, não pela emoção do momento.
A experiência relatada no GainDelas, portanto, une gestão de risco, registro e visão de longo prazo como respostas para períodos em que o mercado não devolve resultados imediatos. Para Scotte, a recuperação da curva dependeu menos de sorte e mais da combinação entre documentação, unidade de risco e confiança construída antes da crise.





