Plenário do Senado Federal em Brasília com cadeiras vazias
Plenário do Senado Federal, palco de recorde de trocas partidárias que elevam a instabilidade política

A volatilidade partidária no Senado atingiu níveis recordes nos últimos oito anos, com 86 trocas de legenda registradas entre fevereiro de 2019 e abril de 2026, segundo levantamento do cientista político Murilo Medeiros (UnB). O movimento, que inclui 37 migrações apenas na atual Legislatura, acendeu alertas no Palácio do Planalto e no mercado financeiro, que monitora de perto a capacidade do Executivo de formar maiorias para aprovar reformas estruturantes. A instabilidade se reflete na dificuldade do governo Lula em aprovar pautas sensíveis, como a indicação de ministros ao STF e a rejeição de vetos presidenciais.

O recorde de trocas partidárias na Casa, historicamente mais estável que a Câmara, expõe um cenário de fragmentação política que pressiona a governabilidade. Dados mostram que o fenômeno se acelerou nas últimas legislaturas, com média de 11 senadores mudando de partido por ano, ante 8 trocas entre 2011 e 2015 e 35 nos quatro anos seguintes. O número atual de 86 é o dobro das 43 registradas no período anterior, indicando uma tendência de rompimento dos vínculos partidários tradicionais.

Impacto na governabilidade

A instabilidade já provocou derrotas expressivas para o governo, como a rejeição da indicação do ministro Jorge Messias ao STF, articulada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O Planalto avalia retomar a indicação, mas a relação com Alcolumbre segue tensa, após Lula ter criticado senadores publicamente. Outro revés foi a aprovação da lei que reduz penas dos envolvidos nos atos golpistas, beneficiando Jair Bolsonaro, com veto posterior derrubado pelo Congresso.

A perda de controle no Senado também se manifestou na rejeição da indicação de Igor Roque para a Defensoria Pública da União, ainda no primeiro ano de governo. Esses eventos demonstram que, sem uma base sólida, o Executivo enfrenta obstáculos crescentes para implementar sua agenda legislativa, o que eleva o prêmio de risco nos ativos locais e exige análise cuidadosa de estratégias de investimentos.

Estratégias da oposição

Diante da fragilidade governista, a oposição, liderada por Jair Bolsonaro, mesmo em prisão domiciliar, traçou uma ofensiva para ocupar cadeiras no Senado. A Casa é estratégica para pautas como impeachment de ministros do STF, bandeira central do bolsonarismo. O ex-presidente deve elaborar uma lista de candidatos com seu aval, mirando as eleições de 2026.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, articula alianças, com Sergio Moro (PL) como candidato ao governo do Paraná. O movimento partidário de Flávio, que trocou de sigla três vezes desde 2018, ilustra a fluidez das legendas. Outros senadores, como Carlos Viana (PSD-MG), que já passou por seis partidos, justificam as mudanças por coerência ideológica, mas o resultado é uma maior imprevisibilidade no apoio ao governo.

A dimensão do fenômeno

O levantamento de Murilo Medeiros mostra que as trocas partidárias no Senado saltaram de 43 nos oito anos anteriores (2011-2019) para 86 no período recente (2019-2026). Entre os exemplos notáveis estão Styvenson Valentim (Podemos-RN), que alternou entre três partidos, e Jorge Kajuru (PSB-GO), com quatro mudanças. A senadora Eliziane Gama filiou-se ao PT após deixar o PSD, enquanto Rodrigo Pacheco (PSB-MG) trocou o União Brasil pelo PSD e depois pelo PSB.

Essa volatilidade ocorre enquanto o STF discute a extensão da regra de fidelidade partidária para cargos majoritários. Atualmente, senadores podem trocar de partido sem risco de perda do mandato, o que amplia a liberdade de migração. A Corte pautou o julgamento em março, mas adiou a decisão, mantendo o status quo que favorece a instabilidade.

Perspectivas para o mercado

O cenário de incerteza política no Senado tende a se intensificar com a aproximação das eleições de 2026, quando a disputa por cadeiras ganha contornos mais acirrados. Para investidores, a falta de previsibilidade legislativa dificulta a precificação de ativos ligados a reformas econômicas, como a tributária. A busca por partidos com maior capilaridade estadual e acesso a recursos eleitorais deve manter as trocas em ritmo elevado, pressionando a governabilidade futura.

Analistas recomendam acompanhar de perto as articulações no Congresso e os desdobramentos do julgamento no STF sobre fidelidade partidária, que pode redefinir as regras do jogo. Enquanto isso, a volatilidade senatorial segue como um fator de risco a ser incorporado nas estratégias de alocação, com impacto direto na percepção de risco fiscal e político do Brasil.