Ministro Wellington Dias em entrevista sobre estratégia eleitoral
Ministro Wellington Dias durante entrevista sobre planejamento eleitoral para 2026

A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 será marcada por uma articulação focada no centro político, com palanques estaduais que buscam garantir governabilidade em um eventual novo mandato. A declaração é do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, que atuará na coordenação da campanha no Nordeste. Em entrevista, Dias apontou que o principal erro do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples no Congresso, e defendeu uma reorganização regional das alianças para 2026.

Erro do terceiro mandato: falta de maioria simples

Segundo Wellington Dias, a obsessão por obter dois terços na Câmara e no Senado durante o terceiro mandato foi um equívoco que impediu o governo de construir uma base sólida. Ele lembrou que, em 2022, a chapa de Lula saiu das urnas com 39 senadores e 242 deputados federais. No entanto, faltou cuidado na relação com esses aliados, o que impediu alcançar os 41 senadores e 257 deputados necessários para aprovar a maioria das matérias no Legislativo. ‘Um líder do tamanho do presidente Lula não pode, num segundo mandato, não ter isso’, afirmou Dias, defendendo que uma maioria simples é suficiente para 95% das votações.

O ministro destacou que a falta de sintonia com partidos aliados foi um dos principais entraves. Ele criticou a postura de parlamentares que se diziam governo em Brasília, mas atuavam como oposição nos estados. Para corrigir essa distorção, a campanha está organizando palanques estaduais que refletem a realidade local. Em estados como Maranhão, Paraíba e Pernambuco, por exemplo, haverá mais de um palanque, com lideranças de diferentes espectros apoiando a reeleição.

Palanques estaduais como estratégia de governabilidade

A estratégia central da campanha é a construção de palanques estaduais que unam centro e esquerda, mas com predominância do centro em grande parte dos estados. Dias citou casos como Rio de Janeiro, Amazonas e Pará, onde o centro é apoiado pela esquerda. Já na Bahia, Piauí e Ceará, a esquerda lidera com apoio do centro. Essa abordagem descentralizada visa valorizar os parlamentares locais, transformando-os em protagonistas das políticas governamentais. ‘É no estado e em cada município que as coisas acontecem’, disse o ministro.

Essa organização por estados também deve resolver a falta de clareza sobre quem é governo e quem é oposição, que prejudicou a comunicação do governo. Dias afirmou que a eleição agora vai definir ‘qual é o time do governo’. A ideia é que, com palanques bem definidos, o governo consiga construir a maioria simples no Congresso a partir de alianças regionais, em vez de tentar impor uma unidade nacional que se mostrou inviável.

Relação com o Congresso e retomada de diálogo

Outro ponto abordado foi a relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Dias defendeu a possibilidade de reconciliação entre Lula e Alcolumbre, lembrando que ambos têm compromisso com o Brasil e que, apesar de tensões, já houve entendimentos anteriores. O ministro também apoiou a prerrogativa de Lula de reenviar o nome de Jorge Messias para o STF, afirmando que é possível alcançar os votos necessários por meio de diálogo com Alcolumbre e os senadores.

Essa articulação é crucial para o governo, que precisa de uma maioria simples no Congresso para aprovar matérias. Dias criticou a falta de cuidado com aliados no início do mandato e defendeu que, para 2026, a prioridade é construir essa maioria por meio dos palanques estaduais, valorizando os parlamentares que se comprometem com o projeto de governo.

Impacto eleitoral do escândalo Master e classificação do PCC

A campanha também terá de lidar com os desdobramentos do escândalo Master, que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio. Dias classificou a atuação de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas como uma tentativa de ‘abafar o escândalo do Master’. Ele criticou a medida como ‘irresponsável e antipatriota’, apontando riscos de prejuízo econômico para o Brasil. ‘Quem tem que se explicar são eles’, disse, referindo-se aos adversários políticos.

O ministro rechaçou a acusação de que o governo Lula defende bandidos, lembrando que foi o governo petista que mais atingiu o crime organizado, com prisões de grandes criminosos. Sobre a possibilidade de reversão da decisão dos EUA, Dias afirmou que o Brasil continuará apostando em tratados internacionais e na soberania nacional.

Bolsa Família e perspectivas para 2027

Por fim, Dias descartou qualquer aumento no valor do Bolsa Família para 2026. A discussão sobre o Orçamento de 2027 será feita após as eleições, em outubro ou novembro, ‘fora de qualquer discussão política’, em caráter técnico. A decisão caberá ao presidente Lula.

Em resumo, a estratégia de palanques estaduais e a busca pelo centro político são as principais apostas da campanha de Lula para 2026, com foco em construir governabilidade e evitar os erros do terceiro mandato. O mercado financeiro deve acompanhar de perto as movimentações políticas, especialmente no que tange à composição do Congresso e à relação com os Estados Unidos.