A Natura (NATU3) divulgou na manhã desta terça-feira os números preliminares não auditados do segundo trimestre de 2026, revelando uma receita líquida consolidada entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões, o que representa uma retração de 9% a 10% na comparação anual. Apesar do desempenho aquém das expectativas do mercado, as ações da companhia reagiram com forte alta, figurando entre os maiores ganhos do Ibovespa, com valorização superior a 5% nos primeiros negócios do dia. Por volta das 11h57, os papéis subiam 3,35%, cotados a R$ 8,33. O movimento positivo foi atribuído por analistas à indicação de expansão da margem EBITDA reportada no período, um sinal de que a gestão da empresa está conseguindo conter custos e melhorar a eficiência operacional, mesmo em meio a um cenário de receita pressionada.
Desafios operacionais e impacto na receita
A companhia listou uma série de fatores que prejudicaram o faturamento no trimestre. No Brasil, a operação enfrentou dificuldades logísticas, como a falta de produtos durante a estabilização do novo sistema integrado de planejamento, além dos efeitos da migração para a plataforma SAP e da realocação da produção após o fechamento da fábrica de Interlagos. O canal de venda por relacionamento registrou redução significativa de volume, e mudanças nas políticas comerciais e de preços entre os diferentes canais de distribuição também contribuíram para a queda. A transição do modelo de franquias e os efeitos tributários temporários relacionados ao ICMS-ST em São Paulo completam o quadro de fatores que comprimiram a receita.
Para o mercado, parte desses problemas já estava precificada, mas a magnitude da contração surpreendeu negativamente. O Morgan Stanley, por exemplo, projetava receita de R$ 5,6 bilhões, enquanto o consenso de mercado apontava para R$ 5,5 bilhões. O ponto médio do intervalo divulgado pela Natura ficou cerca de 9% abaixo da estimativa do banco e 7% inferior à expectativa média dos analistas, configurando um número decepcionante. A XP Investimentos também reduziu suas projeções, afirmando que acreditava em uma queda de 6% na receita consolidada, ante a retração de 9% a 10% indicada pela companhia.
Margem EBITDA como âncora do otimismo
Apesar da receita mais fraca, a Natura afirmou esperar uma melhora na margem EBITDA reportada em relação ao primeiro trimestre, quando o indicador ficou em 7,3%. Esse ponto foi o principal motor da alta do papel, na avaliação de especialistas. Marcos Bassani, professor e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, destacou que a projeção de expansão da margem decorre de menores despesas com rescisões e ganhos de eficiência do novo modelo operacional. A empresa não detalhou a magnitude do avanço, mas tanto o Morgan Stanley quanto o consenso já esperavam uma alta expressiva. O banco previa um incremento de 4,9 pontos percentuais ante o trimestre anterior, enquanto o mercado projetava avanço de 6,4 pontos percentuais. Contudo, com a receita mais baixa do que o esperado, os analistas do Morgan Stanley veem risco de que suas estimativas de margem para o segundo trimestre precisem ser revisadas para baixo.
A XP também reconheceu a sinalização positiva de rentabilidade, mas manteve viés negativo para o curto prazo. Os analistas consideram provável uma nova rodada de cortes nas estimativas de resultados da companhia, dado que o desempenho do segundo trimestre ficou aquém do já pessimista cenário esperado. A deterioração do canal de venda direta, que já havia sido alvo de alertas recentes, se confirmou como um ponto de pressão adicional sobre a receita.
Perspectivas e riscos para o segundo semestre
A administração da Natura não sinalizou mudanças no compromisso de expandir a margem EBITDA reportada ao longo de 2026, tomando como base os 14,1% registrados em 2025. No entanto, considerando a fraqueza das vendas observada no Brasil até agora, o Morgan Stanley avalia que há riscos para o cumprimento dessa meta de expansão. O banco reconhece os avanços nos esforços de simplificação da estrutura operacional, mas afirma que os números preliminares reforçam preocupações sobre a limitada visibilidade da execução do negócio. Por isso, mantêm recomendação equivalente a desempenho em linha com o mercado (Equal Weight).
Para o investidor, o movimento de alta desta terça-feira sugere que o mercado está disposto a dar crédito às iniciativas de eficiência da empresa, mesmo com a receita pressionada. O desafio agora será mostrar que a melhora de margem é sustentável e capaz de compensar a perda de faturamento. Acompanhe as análises e desdobramentos desse case em nossa seção de investimentos.





