A escalada da retórica entre Brasília e Washington entrou em novo patamar nesta sexta-feira, 7. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, como “bolsonarista” e “anti latino-americano”, elevando o tom justamente quando a agenda comercial bilateral enfrenta o risco concreto de uma sobretaxa de 25% sobre as exportações brasileiras. O ataque ocorreu durante visita do petista ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, interior de São Paulo, e acendeu alerta em setores que dependem de previsibilidade nas relações com o principal parceiro comercial do país.

Na visão de agentes do mercado, a declaração de Lula mina o clima de negociação que ele próprio tentava preservar após o encontro com o presidente Donald Trump na Casa Branca, em maio. Naquela ocasião, o chefe do Executivo brasileiro entregou um pacote de dados sobre comércio bilateral, combate ao crime organizado e terras raras, na tentativa de arrefecer a crise que culminou na ameaça tarifária. Agora, a equipe de Lula segue aguardando uma resposta oficial de Washington, mantendo contato semanal com a Casa Branca para tentar destravar reuniões técnicas de alto nível.

O mal-estar na relação com Washington

A leitura de Lula é que Rubio age, na prática, em sentido contrário ao que foi tratado com Trump. Durante a reunião de maio, o brasileiro afirmou ter alinhado com o republicano uma diretriz de cooperação, mas as ações do secretário de Estado teriam seguido caminho oposto. O presidente não escondeu a frustração: para ele, Rubio é um “latino-americano frustrado”, alguém que não demonstra apreço pelo Brasil nem pela região.

Do ponto de vista diplomático, o diagnóstico de Brasília é que a interlocução direta com Trump possa contornar o que o Planalto enxerga como uma barreira intransponível no Departamento de Estado. A prática de ligações semanais, confirmada por Lula, indica um esforço de manter o canal aberto com a Casa Branca, mesmo diante da resistência do entorno do secretário. O mercado, por sua vez, lê o episódio como um acirramento da disputa por influência dentro do governo americano.

O desmatamento como munição comercial

A visita ao Inpe não foi aleatória. Lula acompanhou a divulgação dos dados oficiais de desflorestamento para rebater o argumento usado pelos Estados Unidos para justificar a tarifa de 25%: a suposta falta de compromisso do Brasil com a preservação da Amazônia. O presidente contestou a narrativa americana, lembrando que Trump chegou a declarar, em discurso na ONU, que não acredita na questão climática — o que, na avaliação do petista, enfraquece a tese de que os americanos teriam moral para impor cobranças ambientais ao Brasil.

Para os setores exportadores, a tarifa de 25% não é uma abstração. Ela atingiria diretamente a competitividade de cadeias produtivas que embarcam para os Estados Unidos, de proteínas a manufaturados. O governo brasileiro tenta, então, reposicionar o debate: em vez de aceitar o enquadramento ambiental, passou a denunciar o que avalia ser um protecionismo disfarçado. O uso dos dados do Inpe é uma peça dessa estratégia, mostrando que a agenda verde brasileira não pode ser reduzida a uma cláusula de barreira comercial.

Terras raras e o jogo das contrapartidas

A entrega de documentos sobre terras raras a Trump, em maio, é um dos ativos mais valiosos na mesa de negociação. O Brasil detém reservas estratégicas desses minerais, essenciais para transição energética, indústria de defesa e semicondutores. Ao colocar esse tema no radar, Lula tenta demonstrar que a economia brasileira é complementar à americana, e não uma ameaça, como sugerem os defensores da tarifa.

No ambiente de investimentos, a permanência do impasse eleva a probabilidade de oscilações fortes no câmbio e nos contratos de juros futuros. Investidores acompanham com lupa cada movimento do governo americano, buscando sinais de que a negociação possa avançar. O cenário central, por ora, é de cautela: enquanto não houver um cronograma claro para retomada do diálogo, o mercado tende a exigir prêmios de risco maiores para operar com ativos brasileiros.

Os próximos passos da agenda bilateral

Não há prazo definido para uma resposta de Washington. A equipe de Lula segue com o telefone ligado para a Casa Branca, tentando transformar o contato semanal em algo mais concreto. A reação americana até aqui é ambígua: Trump mantém um discurso de abertura, enquanto Rubio é visto como a linha de contenção. O ataque direto do presidente brasileiro tende a expor essa divisão no gabinete americano e pressionar Trump a se posicionar.

Enquanto isso, os exportadores brasileiros permanecem em estado de alerta. A suspensão temporária da tarifa, nos bastidores, é considerada o desfecho mais plausível para evitar uma guerra comercial total. Mas o tom de Lula nesta sexta-feira mostra que o Planalto não vai se calar diante do que considera uma hostilidade gratuita. Para o mercado, a palavra final será da economia: se o acordo não vier, o impacto no fluxo de comércio e nos fluxos de capitais será sentido em cadeia.