A proposta de elevar para 32% a proporção de etanol anidro na gasolina comum, em discussão no governo federal, gerou forte reação da indústria automotiva. Técnicos do setor apontam que o aumento da mistura pode acelerar processos corrosivos em componentes metálicos e plásticos do sistema de combustível, especialmente em veículos mais antigos. O alerta foi emitido por especialistas da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) e da Flacht Motorsport & Classic Center, que destacaram riscos de falhas em bombas de combustível e bicos injetores.

Mecanismo de corrosão e componentes críticos

O etanol anidro, mesmo após desidratação nas usinas, tende a reabsorver umidade do ambiente. Quando a água se combina com o álcool, a condutividade elétrica do combustível aumenta, criando condições favoráveis à corrosão eletroquímica. Esse fenômeno ataca peças metálicas e plásticas do sistema de injeção, conforme explicou Rogério Gonçalves, da AEA. Segundo ele, os danos podem variar desde falhas de funcionamento até a inutilização total de componentes como bomba de combustível e injetores.

Fábio Rhoden, da Flacht Motorsport & Classic Center, complementou que a oxidação e o travamento dessas peças são agravados pela ação corrosiva do álcool. A bomba de combustível e os bicos injetores foram citados como os pontos mais vulneráveis, especialmente em veículos que não dispõem de sistemas eletrônicos de compensação.

Veículos antigos como principais afetados

Modelos com 20 a 30 anos de fabricação estão entre os mais expostos aos efeitos da nova mistura. Carros carburados ou com injeção eletrônica simples não possuem Unidade de Controle Eletrônico (ECU) capaz de ajustar automaticamente a relação ar-combustível para queimar o excesso de etanol. Rhoden destacou que, sem esse ajuste fino, o motor opera em condições inadequadas, elevando o risco de corrosão e desgaste prematuro.

A diferença no poder calorífico entre os combustíveis também impacta o rendimento. Enquanto o etanol hidratado fornece cerca de 6.300 kcal por quilograma, a gasolina A entrega aproximadamente 10.400 kcal/kg. Essa disparidade energética explica as variações de consumo observadas quando se altera a proporção de álcool na mistura, afetando diretamente a eficiência dos motores.

Anfavea e Sindipeças cobram testes prévios

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) manifestaram-se conjuntamente pela realização de estudos técnicos antes da implementação da medida. Igor Calvet, representante da Anfavea, afirmou que a entidade defende que o aumento da mistura seja precedido de testes oficiais em laboratório, com dinamômetro e ambiente controlado, para assegurar que não haverá prejuízos aos consumidores.

Calvet reforçou que a preocupação central é garantir a tranquilidade dos motoristas quanto à durabilidade e ao desempenho dos veículos. Os ensaios de consumo atualmente realizados seguem protocolos padronizados, mas a Anfavea entende que a nova composição exige avaliações específicas para validar a compatibilidade com a frota circulante. Você pode acompanhar os principais desdobramentos e as notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.