Fundos de special situations superam private equity no Brasil
Fundos de special situations superam private equity no Brasil em junho de 2026

Os fundos especializados em empresas com dificuldades financeiras passaram a concentrar, pela primeira vez, mais recursos disponíveis para investimento do que os veículos tradicionais de private equity no Brasil. Segundo o Monitor do Mercado, um levantamento da Spectra mostra que as estratégias de special situations acumulavam R$ 17,4 bilhões em junho de 2026, contra R$ 14,6 bilhões dos fundos de private equity.

A inversão ocorre em meio ao aumento do custo do crédito, à restrição de financiamento e ao crescimento dos casos de inadimplência e recuperação judicial. Mesmo com a Selic reduzida do pico de 15% para os atuais 14%, o custo de financiamento das empresas segue elevado.

Inadimplência e recuperações pressionam empresas

O ambiente de crédito apertado aparece nos dados da Serasa Experian. Em maio de 2026, cerca de 9 milhões de CNPJs estavam negativados, com volume total de dívidas de R$ 229,9 bilhões, ambos em patamar recorde. Em média, cada empresa inadimplente acumulava quase sete dívidas em atraso, combinando juros elevados, crédito mais restrito e dificuldade de recomposição de caixa.

A pressão também se refletiu nos pedidos de recuperação judicial. Em 2025, 2.466 empresas entraram nesse regime no país, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian. O total de empresas envolvidas cresceu 12,9% em relação a 2024.

Nesse contexto, uma empresa pode continuar operacionalmente viável e, ainda assim, enfrentar dificuldades para financiar suas atividades ou manter uma estrutura de capital sustentável. É nesse ponto que os fundos de special situations enxergam oportunidades. A estratégia busca ativos cujo valor foi pressionado pelo estresse financeiro e que podem passar por recuperação mediante reorganização da estrutura de capital.

Custo do crédito livre chega a 25,2% ao ano

Um dos fatores que explicam a mudança é o custo do crédito empresarial. Em fevereiro de 2021, quando a Selic estava em 2% ao ano, a taxa média do crédito livre para empresas era de 13,8%. Em maio de 2026, esse custo chegou a 25,2% ao ano, enquanto a Selic estava em 14%.

O crédito livre corresponde aos financiamentos cujas condições são definidas pelas instituições financeiras, sem as regras específicas das linhas direcionadas. Para Victor Mariz Taveira, economista e CEO da Acrux Capital, a diferença altera a viabilidade econômica de projetos de expansão, aquisições e investimentos.

O efeito também alcança capital de giro, estoque, antecipação de recebíveis, financiamento de fornecedores e refinanciamento de dívidas. Com o dinheiro mais caro, uma parcela maior do caixa das companhias pode ser destinada ao pagamento de juros em vez de financiar investimentos.

Gestoras de special situations se multiplicam

De acordo com a Spectra, o número de gestoras com estratégias voltadas a situações especiais passou de cinco em 2015 para 57 em 2026. A expansão acompanha a maior oferta de empresas e ativos que precisam de soluções financeiras, criando oportunidades de aquisição e reestruturação.

Para Mariz Taveira, a inversão entre as duas classes de fundos mostra uma mudança na natureza das oportunidades disponíveis aos investidores. Hoje, há mais dinheiro preparado para explorar situações de estresse do que disponível para investir em empresas promissoras.

O CEO da Acrux Capital ressalta que isso não significa que o capital destinado ao crescimento tenha desaparecido. O movimento indica, porém, que uma parcela maior dos investidores passou a buscar retorno na recuperação e na reestruturação de empresas.

Dívida cara pode transformar liquidez em problema de solvência

O custo elevado do dinheiro também aumenta o risco de deterioração financeira ao longo do tempo. Uma dívida de R$ 100 submetida a juros de 25% ao ano chegaria a aproximadamente R$ 156 após dois anos e R$ 195 após três anos, caso não houvesse amortização.

Esse processo ajuda a explicar a diferença entre liquidez e solvência. Um problema de liquidez ocorre quando a empresa tem dificuldade para cumprir compromissos de curto prazo. Já um problema de solvência envolve uma estrutura de dívida que pode se tornar incompatível com a capacidade de geração de caixa.

Segundo Mariz Taveira, uma empresa pode manter um negócio operacionalmente saudável, mas enfrentar dificuldades caso o custo financeiro avance mais rapidamente que sua capacidade de gerar caixa. Nesse cenário, operações de reestruturação podem deixar de ser apenas uma alternativa de financiamento e passar a integrar a estratégia de sobrevivência financeira da companhia.

Capital disponível muda de direção

A combinação de juros elevados e maior risco empresarial também influencia a escolha dos investidores. Com a taxa livre de risco próxima de 14% ao ano, projetos empresariais passam a competir com alternativas de menor risco e maior liquidez, o que pode favorecer títulos públicos, estruturas de crédito com garantias e operações relacionadas a ativos estressados.

Na avaliação do economista e CEO da Acrux Capital, esse processo pode levar o capital a sair de investimentos associados ao crescimento e migrar para operações de crédito e recuperação. O ponto central não é a existência dos fundos de special situations, mas a quantidade de situações de estresse financeiro que passou a ser produzida pela economia.

A trajetória fiscal também influencia o cenário. Déficits persistentes aumentam a necessidade de financiamento do governo e podem elevar o prêmio exigido pelos investidores, pressionando os juros de prazo mais longo. A consequência chega à economia real por meio do custo de capital das empresas.

A inversão observada pela Spectra pode representar o amadurecimento de uma classe de ativos. Ao mesmo tempo, reflete um ambiente no qual empresas encontram mais dificuldades para financiar expansão, investimento e capital de giro. O dinheiro continua disponível, mas uma parcela maior dele está sendo preparada para reestruturar empresas, em vez de financiar exclusivamente novos ciclos de expansão.