Boletim Focus e gráficos de mercado
Boletim Focus do Banco Central é divulgado semanalmente e serve de referência para expectativas do mercado

A agenda econômica desta segunda-feira (8) traz poucos indicadores, mas o noticiário geopolítico domina as atenções dos investidores. No Brasil, o destaque é a divulgação do Boletim Focus pelo Banco Central, às 8h30, que atualiza as expectativas do mercado sobre inflação, juros e crescimento. Paralelamente, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, concede entrevista ao portal UOL a partir das 11h, podendo sinalizar os rumos da política fiscal. No cenário externo, uma nova escalada das tensões entre Irã e Israel, com o lançamento de mísseis balísticos no domingo (7), eleva o risco geopolítico e pressiona os mercados globais.

O Ibovespa acumulou a oitava semana consecutiva de queda na sexta-feira (5), um feito inédito em sua história. O índice recuou 0,77%, fechando a 169.019,12 pontos, abaixo dos 170 mil pontos pela primeira vez desde janeiro de 2026. A pressão veio dos dados fortes do mercado de trabalho norte-americano, que elevaram as apostas em alta de juros pelo Federal Reserve. Com a nova crise no Oriente Médio, o apetite por ativos de risco deve continuar reduzido, afetando especialmente commodities como o petróleo e os mercados emergentes.

Boletim Focus e entrevista de Durigan no radar

O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo BC, reúne as projeções de cerca de 100 instituições financeiras. Nesta edição, o mercado acompanhará as estimativas para o IPCA, a Selic e o PIB. Na semana anterior, o Focus indicava expectativa de inflação em 5,8% para 2026 e Selic em 14,75% ao ano. Qualquer alteração significativa pode influenciar as taxas de juros futuros e o câmbio. A entrevista de Durigan, por sua vez, ocorre em meio a debates sobre o arcabouço fiscal e as metas de resultado primário. O ministro deve reforçar o compromisso com a sustentabilidade da dívida, mas sem descartar medidas para estimular a economia.

Além disso, o governo anunciou que, a partir desta segunda-feira, empresas exportadoras e fornecedores com impacto igual ou superior a 1% no faturamento bruto devido às tarifas dos EUA ou aos conflitos no Oriente Médio poderão solicitar linhas de crédito. Anteriormente, o limite era de 5%. A medida busca aliviar os efeitos das tensões comerciais e geopolíticas sobre o setor produtivo, especialmente os mais expostos ao mercado externo.

Oriente Médio: Irã ataca Israel e petróleo dispara

No domingo, o Irã lançou dois mísseis balísticos contra Israel, os primeiros desde o cessar-fogo de 8 de abril. O sistema de defesa aéreo israelense interceptou os projéteis, sem vítimas ou danos materiais. O episódio, no entanto, fragiliza a trégua e aumenta a volatilidade nos mercados de energia. O petróleo Brent abriu em alta de mais de 3% nesta segunda, superando US$ 98 por barril. Para o Brasil, como exportador líquido de petróleo, a elevação dos preços pode beneficiar a arrecadação, mas também pressiona a inflação e os custos de insumos.

Analistas avaliam que, embora o ataque não tenha causado danos, o risco de uma escalada maior permanece. O Irã sinalizou que a ação foi uma retaliação a bombardeios israelenses em Beirute. Qualquer novo incidente pode levar a interrupções no fornecimento de petróleo do Golfo Pérsico, com impactos diretos sobre as cadeias globais de suprimento e o preço dos combustíveis. Investidores monitoram também a reação dos Estados Unidos, que classificaram recentemente as facções brasileiras Comando Vermelho e PCC como terroristas, mas não há indicativos de intervenção militar no Oriente Médio.

Ibovespa acumula oito semanas de perdas e pressiona ativos

O Ibovespa fechou a 169.019,12 pontos na sexta, com mínima de 168.909,87 e máxima de 170.457,37. A sequência de oito semanas no vermelho é um recorde negativo, refletindo o ambiente de juros altos nos EUA, aversão ao risco e incertezas fiscais domésticas. Entre os fatores que contribuíram, estão os dados do payroll americano, que mostraram criação de 280 mil vagas em maio, acima do esperado, reforçando a narrativa de que o Fed pode elevar os juros na reunião de outubro. O chair do Fed, Kevin Warsh, tem sinalizado cautela, mas as expectativas do mercado já precificam uma alta de 0,25 ponto percentual.

O mercado de câmbio também sente os efeitos: o dólar à vista encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,72, com alta de 0,9% na semana. A combinação de juros americanos elevados e tensões geopolíticas fortalece a moeda americana e pressiona o real. Para as ações brasileiras, o cenário é desafiador, especialmente para setores cíclicos como varejo e construção. A expectativa é de que o Ibovespa teste o suporte dos 168 mil pontos, caso o noticiário geopolítico não traga alívio.

Outros destaques: dívida chinesa, facções e energia

No âmbito corporativo, o Brasil planeja emitir títulos soberanos em iuanes (panda bonds) durante uma delegação a Xangai e Pequim no fim de junho. A emissão, inédita no mercado chinês, visa diversificar as fontes de financiamento e reduzir a dependência do dólar. Em abril, o país já havia captado 5 bilhões de euros em títulos em moeda europeia. A medida faz parte de uma estratégia do Tesouro Nacional para ampliar a presença em mercados internacionais de dívida, com emissões em diferentes moedas.

Na área de energia, a Aneel pautou para terça-feira (9) a segunda etapa da homologação do leilão de reserva de capacidade realizado em março. O certame definiu contratos para os anos de 2027 a 2031. O relator, diretor Fernando Mosna, votou favoravelmente à formalização dos resultados, mas 10 usinas vencedoras foram inabilitadas por não cumprirem requisitos de qualificação econômico-financeira. O episódio gerou dúvidas sobre a segurança do suprimento elétrico no médio prazo, especialmente diante do crescimento da demanda por energia.

Por fim, os Estados Unidos oficializaram a classificação das facções Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, medida publicada no Diário Oficial americano na sexta. O governo brasileiro vê a decisão com preocupação, pois poderia permitir operações militares americanas em território nacional. O episódio adiciona mais um elemento de incerteza nas relações bilaterais, embora sem impacto direto imediato sobre os mercados.