
O churrasco da Copa do Mundo, tradição enraizada no Brasil, sofre uma transformação profunda em 2026. O encarecimento da carne bovina, impulsionado por exportações recordes e oferta interna apertada, força as famílias a substituir a picanha por frango e linguiça. Dados da Worldpanel by Numerator indicam que, nesta edição do torneio, as proteínas de frango e suína devem superar a carne bovina na grelha dos brasileiros, sinalizando uma mudança estrutural no consumo alimentar do país.
Substituição de proteínas e custo-benefício
César Visini, professor de 29 anos de Praia Grande, exemplifica o movimento: ‘É mais econômico’, afirma, ao trocar a carne bovina por frango e linguiça para o encontro familiar. Ele relata que os açougues reduzem a qualidade dos cortes para manter os preços, fenômeno que tem se tornado frequente.
A pressão sobre o orçamento das famílias é evidente. Em São Paulo, o preço da picanha saltou de 81 reais para mais de 90 reais por quilo entre 2025 e março de 2026, segundo o Instituto de Economia Agrícola. No atacado, os preços atingiram recorde histórico da série do Cepea, da USP, com alta de até 11% nos cortes nobres em 12 meses, conforme dados do IBGE de maio.
A substituição não é pontual. Nos três primeiros meses de 2026, a fatia do orçamento destinada a proteínas já caiu, com a carne bovina liderando a redução, segundo Daniela Jakobovski, gerente de contas da Worldpanel.
Endividamento das famílias e cenário macroeconômico
O recorde de 82% das famílias brasileiras com dívidas em aberto, segundo a CNC, amplifica o impacto da alta da carne. Thiago Durões, vendedor de Brasília, relata que reduziu o consumo de carne bovina de duas para uma vez por semana, migrando para cortes mais baratos ou outras proteínas. O endividamento elevado torna qualquer aumento de preço insustentável para a baixa renda.
O governo Lula, às vésperas das eleições de outubro, enfrenta o desafio de reverter esse cenário. A promessa de campanha de mais churrasco e cerveja contrasta com a realidade de um consumidor que precisa escolher entre proteínas mais baratas. O recente programa de renegociação de dívidas tenta aliviar a pressão, mas a inflação persistente, amplificada pelo conflito no Oriente Médio e alta do petróleo, mantém os custos elevados.
O setor de carnes também aponta outros fatores. A Abiec e a Abaas pediram recentemente ao governo medidas para limitar gastos em plataformas de apostas, que segundo elas desviam recursos das famílias. O churrasco encarecido torna-se um termômetro político-econômico sensível às vésperas da eleição.
Impacto setorial e perspectivas para frigoríficos
As empresas do setor, como a MBRF Global Foods (MBRF3), patrocinadora da seleção, apostam em um portfólio democrático com opções acessíveis. Luiz Franco, diretor de marketing, afirma que a empresa oferece desde cortes nobres a hambúrgueres e nuggets de frango. No entanto, a guerra no Irã elevou custos de embalagens e frete, e os reajustes não compensam totalmente, segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA.
O Ministério da Fazenda, em boletim de maio, alertou que o choque nos preços internacionais do petróleo pressiona insumos industriais e transporte, podendo prolongar a trajetória de inflação ao longo de 2026. No varejo, restaurantes como o Olinda Bar e Restaurante, em Brasília, veem clientes substituindo a carne de sol por saladas Caesar, demonstrando a capilaridade do fenômeno.
As exportações brasileiras de carne bovina atingem níveis recordes, reduzindo a oferta interna. A forte demanda externa, combinada com a oferta global apertada, mantém os preços elevados. Para as famílias de baixa renda, a saída tem sido o frango, que oferece melhor custo-benefício, mas mesmo essa proteína enfrenta pressão de custos, com o conflito no Oriente Médio impactando fertilizantes e rações.





