Em uma cerimônia histórica realizada nesta sexta-feira em Cali, no sudoeste da Colômbia, o advogado de direita Abelardo De La Espriella, de 48 anos, tomou posse como presidente do país sob um esquema de segurança que mobilizou mais de 11 mil militares e incluiu, pela primeira vez, a realização do juramento fora de Bogotá. Diante do Congresso, o novo mandatário comprometeu-se a cumprir a Constituição e as leis colombianas, iniciando um mandato que promete reordenar o equilíbrio de forças políticas na América Latina e reorientar a agenda econômica da quarta maior economia da região.

O evento, que contou com 10 presidentes e chefes de Estado e delegações dos Estados Unidos, ocorre em um ambiente de tensão devido ao risco de ataques de grupos armados ilegais. Para investidores, a posse sela uma guinada à direita que já se refletia nas bolsas e no apetite por risco, com expectativas de uma abordagem mais linha-dura no combate ao narcotráfico e na recuperação de setores como hidrocarbonetos e mineração.

Guinada à direita e o novo tabuleiro político regional

De La Espriella venceu no segundo turno de 21 de junho o candidato de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo ex-presidente Gustavo Petro. Com o resultado, a Colômbia se junta a Argentina, Bolívia, Costa Rica, Chile, Equador, Panamá e Peru na lista de países latino-americanos que recentemente elegeram líderes conservadores, acelerando um movimento de reconfiguração ideológica que os mercados observam com atenção. A eleição foi percebida por fundos globais como um divisor de águas para a região.

O novo presidente, apelidado de “El Tigre” e autodeclarado outsider, constrói sua narrativa em torno da restauração da ordem e da autoridade. Em seu discurso na base militar do Batalhão de Pichincha, ele afirmou que o país encerra um longo capítulo de resignação e iniciou uma transformação profunda, com restauração da ordem, da autoridade e da liberdade. A retórica dura ganha relevância em um contexto de conflito armado interno que já deixou cerca de meio milhão de mortos em seis décadas.

Linha dura contra o crime e impacto fiscal

A agenda de segurança apresentada por De La Espriella inclui o fortalecimento das Forças Armadas e a construção de megaprisões, além de uma política de erradicação de cultivos ilícitos via pulverização aérea com herbicidas que, segundo ele, não prejudicam a saúde humana nem o meio ambiente. Em pronunciamento às tropas, o mandatário deu um ultimato a gangues e narcoterroristas: ou se submetem ao Estado de Direito ou enfrentam a resposta determinada das forças de segurança. Ele declarou que as opções de negociação de paz foram “completamente esgotadas”.

A sinalização de força, no entanto, tem custo fiscal. A construção de megaprisões e o aumento do efetivo militar exigirão espaço no orçamento, em um momento em que a Colômbia precisa sanear finanças públicas e reduzir a pobreza. O trade-off entre segurança e ajuste fiscal é um dos pontos que analistas locais e estrangeiros já classificam como o maior teste do novo governo. A adesão ao programa “Escudo das Américas”, idealizado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, é vista como uma forma de atrair apoio internacional para a repressão ao narcotráfico.

Agenda liberal: enxugamento do Estado e hidrocarbonetos

No campo econômico, De La Espriella planeja reduzir impostos, diminuir o tamanho do Estado em até 40% e relançar o setor de mineração e energia com a retomada da assinatura de contratos de exploração de hidrocarbonetos. A proposta de corte de gastos e desregulamentação é bem recebida por agentes do mercado, mas esbarra em uma realidade fiscal delicada. Para especialistas em políticas públicas, a eficiência do plano dependerá da capacidade do governo de aprovar reformas estruturais em um Congresso sem maioria clara.

A retomada da exploração de petróleo e gás é estratégica para a balança de pagamentos e para a arrecadação. A Colômbia, que vinha reduzindo a atividade no setor nos últimos anos, agora acena com uma nova rodada de contratos, sinalizando aos investidores que o país volta a ser competitivo na atração de capital para infraestrutura energética. A articulação com Washington, por meio do programa de segurança, também é vista como catalisadora de investimentos em setores estratégicos, especialmente para quem acompanha a evolução da macroeconomia regional.

A combinação de agenda liberal e linha dura na segurança pode ser monitorada via indicadores de risco-país e movimentos de fluxo de capital estrangeiro. A gestão do déficit público, o controle da inflação e a manutenção do grau de investimento são itens que estarão no radar de fundos de renda fixa e variável que miram o país. A expectativa dos investidores é que a agenda de reformas avance a partir do próximo ano, quando o novo governo já terá o orçamento de 2027 no Congresso.

Governabilidade: o desafio de transformar votos em reformas

Apesar da vitória no segundo turno, De La Espriella terá de formar uma coalizão para aprovar as reformas desejadas. No Congresso dividido, nenhuma legenda detém maioria, e a esquerda desponta como principal força parlamentar. Isso significa que o governo precisará negociar para viabilizar as medidas fiscais, a reforma trabalhista e as mudanças no setor energético. A fragmentação partidária é um risco significativo para a velocidade da implementação da agenda econômica.

Além da pauta econômica, o novo presidente terá de responder a demandas urgentes nas áreas de saúde, educação e emprego. A quarta maior economia da América Latina enfrenta uma combinação de alta informalidade, déficit habitacional e violência urbana que pressiona as contas públicas. Os primeiros cem dias de gestão serão observados tanto por eleitores quanto por agências de classificação de risco, que buscam sinais de compromisso com a sustentabilidade fiscal.

A movimentação no campo político colombiano é acompanhada de perto pelos mercados emergentes, uma vez que o país é um dos principais exportadores de commodities da região. Alterações na política de segurança e na regulação do setor de hidrocarbonetos têm efeito direto sobre as cotações de empresas listadas e sobre a percepção de risco soberano. O desfecho do primeiro grande embate legislativo, que deve girar em torno do orçamento, será o primeiro teste real da governabilidade do novo presidente. economia.