O presidente executivo da Strategy, Michael Saylor, e o CEO da Blockstream, Adam Back, manifestaram posição contrária ao BIP-110, proposta de fork temporário que visa restringir transações não monetárias na blockchain do Bitcoin. A iniciativa, apresentada em dezembro de 2025 pelo desenvolvedor pseudônimo Dathon Ohm com apoio de Luke Dashjr, tem como alvo as inscrições Ordinals, classificadas por seus defensores como spam que compromete a finalidade original da rede como sistema de dinheiro ponto a ponto. O debate ocorre em meio a uma queda acentuada na atividade de Ordinals, com menos de 10 mil inscrições diárias no último mês, ante pico de 400 mil em agosto de 2023, segundo dados da Dune Analytics.
Apesar do baixo volume atual, a controvérsia em torno do BIP-110 é considerada uma das mais acirradas no nível de protocolo desde as Guerras do Tamanho do Bloco, entre 2015 e 2017, quando a comunidade discutiu riscos de divisão da rede para aumentar o limite de blocos. Com apenas 1% dos blocos compatíveis com a proposta no último período de votação (blocos 955.584 a 957.599), a ativação do BIP-110 permanece distante, exigindo apoio de 55% dos nós validadores.
Os argumentos de Saylor e Back
Saylor classificou a proposta como arriscada, afirmando que “existem 110 coisas mais perigosas para o Bitcoin do que spam” e que o BIP-110 poderia invalidar transações comuns na rede. Em sua análise, um fork para combater dados arbitrários traria mais prejuízos do que benefícios à credibilidade do sistema. Já Back ofereceu uma crítica fundamentada nos princípios cypherpunk do Bitcoin, descrevendo a medida como uma tentativa de policiar o comportamento alheio. Para ele, a descentralização da rede implica que ninguém pode impor suas opiniões sobre o uso legítimo do espaço de blocos, e qualquer restrição desse tipo fere a natureza permissível e resistente à censura da criptomoeda.
Ambos os executivos reconhecem que as inscrições Ordinals podem ser consideradas spam, mas defendem que soluções coercitivas via mudança no protocolo são inadequadas. A postura contrasta com a de desenvolvedores como Luke Dashjr, que enxergam no inchaço causado pelos Ordinals uma ameaça séria à saúde da rede, justificando uma intervenção imediata.
O que propõe o BIP-110
O BIP-110 foi desenhado como um fork temporário com validade de um ano, impondo limites a transações que incluam dados não financeiros, como imagens e textos associados aos Ordinals. Seus defensores argumentam que a medida não provocaria uma divisão permanente da blockchain, pois o mecanismo é transitório e não invalida transações com pagamento de taxas a longo prazo. A proposta surgiu em resposta ao crescimento explosivo dos Ordinals em 2023, quando o volume de inscrições chegou a sobrecarregar a rede, elevando taxas e congestionando blocos.
No entanto, a baixa adesão entre os nós validadores indica resistência significativa. Mesmo com o apoio de figuras influentes como Dashjr, fundador do protocolo Ocean, a proposta não conseguiu tração suficiente para ser ativada. O período de votação mais recente mostrou que apenas 1% dos blocos estavam em conformidade com o BIP-110, evidenciando o ceticismo da comunidade de mineração e operadores de nós.
Atividade dos Ordinals e o momento do debate
O timing do debate é peculiar: enquanto a controvérsia se intensifica, a atividade dos Ordinals está em níveis historicamente baixos. Dados da Dune Analytics revelam que o número de inscrições diárias caiu para menos de 10 mil no último mês, uma redução drástica em relação ao pico de 400 mil registrado em agosto de 2023. Esse cenário levanta questionamentos sobre a real urgência da proposta, já que o suposto spam perdeu força naturalmente, seja por mudanças no comportamento dos usuários ou por ajustes nas taxas de transação.
Para analistas do setor, a queda na atividade dos Ordinals pode estar relacionada ao amadurecimento do ecossistema Bitcoin, que passou a priorizar transações financeiras tradicionais. Ainda assim, o debate sobre o BIP-110 reacende discussões fundamentais sobre a governança do protocolo e os limites da descentralização. Enquanto Saylor e Back defendem a não intervenção, os proponentes alertam para o risco de que novos picos de dados arbitrários voltem a comprometer a eficiência da rede.
Implicações para a rede e o ecossistema
A oposição de figuras de peso como Saylor e Back adiciona uma camada de complexidade ao futuro do BIP-110. Ambos possuem influência significativa sobre investidores e desenvolvedores, e seus posicionamentos podem orientar a decisão de nós validadores ainda indecisos. O CEO da Strategy, que recentemente afirmou que o Bitcoin não precisa de rendimento no estilo Ethereum, mantém uma visão conservadora sobre mudanças no protocolo, priorizando a estabilidade e a segurança da rede.
Enquanto isso, o ecossistema Bitcoin segue operando sem a implementação do BIP-110, e a dinâmica de taxas continua sendo moldada pela oferta e demanda natural do mercado. Para saber mais sobre as tendências do Bitcoin, acesse Bitcoin. A comunidade aguarda os próximos períodos de votação para ver se a proposta ganhará força ou se será definitivamente arquivada, em mais um capítulo da evolução do ativo digital mais valioso do mundo.





