Bilhões de dólares em ativos digitais estão expostos a hackers porque usuários de criptomoedas continuam priorizando altos rendimentos em vez de proteção. Os protocolos de seguro descentralizado, que nasceram com grandes ambições durante o boom de 2020, perderam relevância enquanto o setor que prometiam cobrir seguiu evoluindo — e atacando.

A promessa do seguro descentralizado

Em 2020, durante o auge do DeFi, surgiram dezenas de protocolos de seguro cripto. A proposta era simples: usuários pagariam prêmios para proteger seus fundos contra hacks, exploits e falhas de contratos inteligentes.

Nexus Mutual, InsurAce e outros players chegaram ao mercado com ambições de se tornar a camada de proteção do ecossistema descentralizado. O timing parecia perfeito. Hackers já drenavam centenas de milhões por ano de protocolos vulneráveis.

Volume de cobertura nunca acompanhou o TVL

O problema estrutural era evidente desde o início. O valor total bloqueado em DeFi cresceu para dezenas de bilhões, mas o volume coberto por seguros nunca ultrapassou uma fração mínima desse montante.

Estimativas do setor indicam que menos de 2% dos ativos em DeFi tinham qualquer forma de cobertura em seu pico. A maioria dos usuários simplesmente ignorou a opção de seguro.

Rendimento venceu a prudência

A dinâmica é direta. Um protocolo DeFi oferecendo 40% ao ano de rendimento compete com um seguro cobrando 5% de prêmio anual. Para o usuário médio, o cálculo favorece o risco.

Pools de liquidez, farms de yield e estratégias alavancadas dominaram a atenção e o capital. Pagar por proteção reduzia o retorno líquido — e isso era suficiente para afastar a demanda.

Hackers evoluíram mais rápido que as apólices

Os ataques também ficaram mais sofisticados. Flash loans, manipulação de oráculos e exploits em bridges passaram a dominar os vetores de ataque. Muitos contratos de seguro não cobriam essas modalidades, seja por design ou por omissão na redação das apólices.

Quando os usuários mais precisaram acionar cobertura, frequentemente descobriam que o tipo específico de hack sofrido não estava incluído na apólice. Disputas sobre elegibilidade de sinistros minaram a confiança no setor.

Colapso do modelo de negócio

Com baixa demanda e sinistros complexos, os protocolos de seguro enfrentaram crise de sustentabilidade. Sem prêmios suficientes para capitalizar reservas, a capacidade de pagamento ficou comprometida.

Vários protocolos encerraram operações ou reduziram drasticamente a cobertura disponível. Os que sobreviveram operam em nicho, longe da escala necessária para proteger o ecossistema cripto de forma significativa.

Bilhões seguem sem proteção

O resultado em 2026 é um mercado DeFi com trilhões em TVL acumulado historicamente e uma camada de seguro praticamente irrelevante. Chainalysis e outras firmas de análise documentam perdas anuais em bilhões por exploits e hacks.

A assimetria é estrutural. Os incentivos de rendimento superam consistentemente os incentivos de proteção, e nenhum mecanismo de mercado emergiu para reverter essa dinâmica.

O que resta do setor

Nexus Mutual segue ativo mas com escala limitada. Protocolos como Sherlock migraram para um modelo híbrido, combinando auditoria de segurança com cobertura financeira para atrair projetos em vez de usuários individuais.

A tese de mercado mudou. Em vez de vender seguro diretamente ao usuário final, alguns protocolos passaram a oferecer cobertura como serviço B2B para projetos DeFi que querem sinalizar segurança aos seus próprios usuários.

Concentração de risco permanece alta

Bridges entre blockchains seguem sendo o maior vetor de risco não coberto. Em 2022, ataques a bridges sozinhos superaram US$ 2 bilhões em perdas. Nenhum protocolo de seguro tinha capacidade para cobrir eventos dessa magnitude.

A concentração de capital em poucos protocolos DeFi amplifica o risco sistêmico. Um único exploit em um protocolo de grande porte pode drenar mais valor do que toda a capacidade de cobertura disponível no mercado de seguros cripto combinada.