A guerra corporativa por talentos mudou de fronteira. Remuneração e cargo deixaram de ser fatores decisivos para executivos que avaliam oportunidades profissionais. Um estudo global da Page Executive divulgado em 2026 revela que confiança na liderança, transparência em processos e bem-estar no ambiente de trabalho superam o salário como pilares de atração e retenção. A pesquisa Executive Compensation & Talent Trends 2026, que ouviu líderes latino-americanos, aponta que 94% dos executivos permanecem abertos a novas ofertas mesmo quando satisfeitos com a remuneração atual – sinal de que o pacote financeiro não garante vínculo duradouro.

Apenas 59% dos entrevistados classificaram a remuneração competitiva como principal fator de satisfação, mas o dado mais impactante surge na disposição para trocar de emprego: seis em cada dez declaram contentamento com o salário, enquanto quase a totalidade mantém o radar ligado para propostas externas. Para os analistas, o achado comprova que o mercado de trabalho passou por uma inflexão estratégica. O salário ainda abre portas, mas deixou de ser o argumento final de convencimento.

O novo tripé da retenção executiva

Quando questionados sobre os atributos mais valorizados em uma organização, os executivos colocam no topo da lista o alinhamento de valores e a confiança na liderança, seguidos por oportunidades de desenvolvimento, bem-estar e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A estrutura de remuneração transparente e justa também ganha destaque. O levantamento mostra que a cultura organizacional é o ativo que os profissionais mais temem perder ao trocar de empresa – superando receios ligados a salário e perspectivas de carreira.

Esse movimento é corroborado por outra pesquisa da Michael Page, na qual 71% dos profissionais colocam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional como prioridade, percentual ligeiramente superior aos 70% que citam a remuneração. Para 54%, a cultura organizacional influencia diretamente a decisão de permanecer, enquanto 26% mencionam o bem-estar como fator relevante na escolha do empregador. Os números indicam que o crescimento profissional deixou de ser medido exclusivamente por promoções e aumentos salariais.

Transparência salarial ganha protagonismo global

A edição europeia do estudo da Page Executive adiciona outra camada à discussão. Embora 43% dos executivos ainda considerem o salário a informação mais importante em um anúncio de vaga, 40% acreditam que maior transparência salarial facilitaria a contratação de talentos pelas empresas. Miguel Portillo, diretor-geral da Page Executive na Espanha, avalia que a transparência está sendo impulsionada tanto por regulamentações quanto por novas expectativas dos candidatos. Os executivos esperam clareza não apenas sobre valores, mas também sobre os critérios que orientam promoções e a progressão de carreira.

Na prática, a demanda por transparência reflete uma mudança mais profunda: os profissionais querem compreender as regras do jogo antes de ingressar em uma organização. A vaga continua sendo a mesma, mas o candidato mudou. As empresas que insistem em comunicar apenas salário e cargo perdem competitividade diante de concorrentes que conseguem demonstrar confiança, clareza e compromisso com o bem-estar.

Cultura organizacional como ativo estratégico

O estudo da Page Executive reforça que os executivos não permanecem em empresas apenas por pacotes financeiros mais elevados. Ambientes que oferecem desenvolvimento profissional, liderança confiável e equilíbrio entre vida pessoal e profissional determinam o nível de engajamento. A remuneração estabelece a base, mas clareza, confiança e bem-estar definem a permanência. Para as companhias, isso significa que a disputa por talentos agora é travada em um terreno onde a experiência cotidiana do profissional pós-contratação vale mais do que qualquer promessa inicial.

Os números da pesquisa confirmam que a estratégia de employer branding precisa ser repensada. Oferecer salário competitivo e cargo atraente já não é suficiente. As organizações que se destacam são aquelas capazes de construir uma cultura onde desenvolvimento e qualidade de vida não são discursos, mas práticas incorporadas ao dia a dia. O novo trio que atrai profissionais – confiança, transparência e bem-estar – substitui o antigo composto por salário, cargo e status, e exige das lideranças uma postura mais autêntica e assertiva na gestão de pessoas.