
Em meio a um cenário de tensão tarifária, o governo brasileiro se prepara para uma videoconferência de alto nível com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, prevista para ocorrer ainda nesta semana. O encontro, que contará com a participação dos ministros Marcio Elias Rosa (Indústria e Comércio) e Mauro Vieira (Relações Exteriores), insere-se no grupo de trabalho criado após a reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca, em 7 de maio. O objetivo central é discutir as recentes propostas de tarifas que podem impactar profundamente as exportações brasileiras para o mercado americano.
Contexto das investigações da seção 301
Na semana passada, os Estados Unidos divulgaram dois relatórios conclusivos baseados na Seção 301 da Lei de Comércio. O primeiro, anunciado na terça-feira, sugere a imposição de uma tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, sob a alegação de práticas comerciais desleais — incluindo o uso do Pix, questões de propriedade intelectual, decisões judiciais e desmatamento. O documento classifica tais práticas como ‘irrazoáveis’ e afirma que elas oneram ou restringem o comércio dos EUA com o Brasil.
No dia seguinte, um segundo relatório propôs uma tarifa de até 12,5% sobre produtos originários de 60 países, incluindo o Brasil, por supostas falhas no combate ao trabalho forçado. Washington argumenta que o país não impede a entrada de produtos que desrespeitam essas regras, apontando irregularidades em setores específicos. Especialistas em comércio exterior interpretam o movimento como uma tentativa de Trump de reconstruir seu ‘muro tarifário’ após a Suprema Corte dos EUA ter derrubado, em fevereiro, as taxas de importação anunciadas em 2025.
Estratégia brasileira diante das tarifas duplas
Integrantes do governo brasileiro avaliam que será mais fácil reverter, por meio de negociações diretas, a eventual taxação de 25% sobre produtos brasileiros do que a alíquota de 12,5% relacionada ao trabalho forçado. O raciocínio é que esta última atinge também países alinhados aos EUA, como a Argentina, dificultando um acordo bilateral que isente o Brasil. Além disso, há o entendimento de que Trump utiliza essa taxação como ferramenta para recompor sua política tarifária após o revés judicial.
Nas negociações, os representantes brasileiros podem argumentar que o país já estaria submetido à tarifa de 12,5%, eliminando a necessidade de uma nova taxação de 25%. A reunião desta semana será crucial para testar a disposição americana em flexibilizar as propostas. Mauro Vieira já havia conversado com Jamieson Greer à margem da reunião ministerial da OCDE, em Paris, na quarta-feira anterior, sinalizando abertura para o diálogo. ‘Ele disse que estavam tendo ótimas conversas com o Brasil’, relatou Vieira, indicando um canal de negociação ativo.
Impacto potencial para o comércio bilateral
As tarifas propostas representam um risco significativo para setores estratégicos da economia brasileira, como agronegócio, manufatura e tecnologia. Caso aplicadas, poderiam reduzir a competitividade das exportações brasileiras nos EUA, afetando cadeias de suprimento e investimentos. Por outro lado, a disposição demonstrada por Washington em manter o diálogo sugere que há espaço para ajustes. O governo Lula aposta na diplomacia econômica para evitar o agravamento das relações comerciais.
Nas próximas semanas, as conversas no âmbito do grupo de trabalho devem se intensificar, com a expectativa de que novas reuniões presenciais possam ocorrer. A diretriz do Planalto é buscar uma solução negociada que preserve os interesses brasileiros, sem recorrer a retaliações que poderiam escalar a disputa. O desfecho dessas negociações será monitorado de perto por investidores e analistas, dado o peso dos EUA como destino das exportações nacionais.





