Uma cadeia alternativa do Bitcoin, formada por apoiadores do BIP-110, minerou apenas dois blocos e parou. O movimento ocorreu no sábado, quando computadores que executam o software do BIP-110 começaram a rejeitar blocos sem sinal de apoio à mudança, e cerca de oito horas depois a rede dissidente seguia estagnada no bloco 961.633, enquanto a cadeia principal do Bitcoin já estava no bloco 961.681, conforme dados do painel público de monitoramento do BIP-110.

A distância de 48 blocos entre as duas cadeias equivale a quase um dia inteiro de atividade na blockchain principal do Bitcoin, considerando que um novo bloco é produzido a cada dez minutos em condições normais. Na cadeia minoritária, a falta de mineradores dispostos a sustentar o fork indica que a proposta não conseguiu gerar adesão suficiente sequer para manter a operação ativa por algumas horas.

O que é o BIP-110 e por que ele divide a comunidade

O BIP-110, sigla de Bitcoin Improvement Proposal-110, é uma proposta que prevê suspender por um ano o armazenamento de imagens, textos e outros dados não financeiros dentro de transações do Bitcoin. A intenção é evitar que materiais sem relação com pagamentos ocupem espaço nos blocos e pressionem os custos de quem realmente envia valores pela rede.

Defensores da medida argumentam que o uso de espaço de bloco para conteúdo arbitrário desvirtua a função original do Bitcoin como sistema de pagamento e encarece o processamento de transferências legítimas. Críticos, por outro lado, sustentam que quem paga a taxa de transação tem o direito de usar o espaço como preferir e que mineradores e operadores de nós não deveriam decidir quais transações são válidas.

O episódio reacende o debate sobre os limites do uso da rede Bitcoin e sobre a linha entre liberdade individual e preservação da eficiência do sistema para pagamentos.

Dificuldade herdada e poder de hash escasso

A cadeia dissidente herdou integralmente a dificuldade de mineração do Bitcoin, mas passou a operar com uma fatia mínima do poder de hash total da rede. Com apenas 2,53% do apoio recente de mineração, os blocos do fork ficaram espaçados por horas, em vez dos dez minutos habituais da blockchain principal.

Essa combinação torna praticamente inviável a manutenção de uma cadência regular de blocos e afasta qualquer possibilidade realista de a cadeia alcançar o prazo de sinalização exigido pela proposta. Sem mineração capaz de sustentar a rede, o fork não consegue confirmar transações nem atrair participantes para o novo ecossistema.

Riscos de replay rondam quem mexer com a cadeia paralela

A paralisação do fork também expõe usuários a riscos de replay, um fenômeno comum em divisões de blockchain quando as duas cadeias continuam aceitando as mesmas transações. Quem tentar vender moedas do fork enquanto gasta Bitcoin na cadeia principal pode, sem saber, transmitir a mesma transação na rede paralela.

Esse tipo de vulnerabilidade tende a desaparecer quando há mecanismos de proteção contra replay, mas a ausência de medidas explícitas e a baixíssima atividade da cadeia minoritária aumentam o risco para qualquer pessoa que decida interagir com o fork sem os devidos cuidados técnicos. O impasse, portanto, não se limita ao destino do BIP-110, mas também à segurança dos usuários que tentam se beneficiar da divisão.