Em um ambiente de escassez de capital e transformação tecnológica acelerada, a alocação de recursos em investimentos ilíquidos deixou de ser uma alternativa secundária e passou a exigir um nível de disciplina que poucas gestoras estão dispostas a adotar. Para o CIO da Tuesday Capital, Dato Netto, o diferencial está em construir teses que não dependem de índices de referência e em atuar diretamente na estrutura das companhias investidas. A estratégia foi detalhada pelo executivo durante participação no podcast Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, que discutiu a dificuldade de identificar pontos de inflexão de preço em um cenário marcado por restrições de liquidez e pelo avanço da tecnologia.

A abordagem da Tuesday Capital rejeita movimentações passivas ou operações que dependam de desfechos judiciais. Segundo Netto, a independência e a sofisticação da base de investidores da gestora permitem esperar a janela ideal para a estruturação dos negócios, sem a pressão típica de alocação imediata. Esse posicionamento é sustentado por um critério objetivo: nenhum investimento é validado se não houver perspectiva de retorno de pelo menos 2,5 vezes o capital investido, o chamado MOIC (múltiplo sobre o capital investido), calculado em moeda forte.

A lógica de retornos fora do radar

A gestora entende que retornos extraordinários dificilmente são encontrados em ativos monitorados de perto pelo mercado institucional. Por isso, a busca se concentra em companhias negligenciadas, com fundamentos operacionais preservados e valor de mercado reduzido em relação aos ativos que controlam. A tese exige não apenas capacidade analítica, mas também ferramentas específicas para execução de transações complexas e atuação operacional junto às empresas.

O caso da companhia israelense Bridger Eyes ilustra a radicalidade dessa abordagem. A aquisição de uma fatia relevante foi feita durante um período de conflito geopolítico, aproveitando uma janela de quatro dias de cessar-fogo. Netto viajou a Tel Aviv e fechou a operação em quatro dias, comprando a posição por aproximadamente 50% do valor da última rodada pública de captação da empresa. O episódio mostra como o risco idiossincrático, quando bem dimensionado, pode se transformar em uma entrada com margem de segurança elevada.

A paciência para aguardar o momento certo é viabilizada, segundo o gestor, pela qualidade dos investidores da casa. Uma base de investidores independente e sofisticada reduz a urgência por liquidez imediata e permite que as teses amadureçam sem distorções no preço pago. A combinação entre capital paciente e critérios rígidos de retorno é o que distingue a alocação ilíquida de uma simples aposta de curto prazo.

O caso WDC e o desconto sobre o valor de liquidação

No Brasil, a Tuesday Capital encontrou na WDC um exemplo de empresa penalizada pelo desinteresse do mercado em papéis de baixa liquidez. Ao analisar o negócio e conversar com Luiz Alves Paes de Barros, sócio-fundador da Alaska Asset Management, Netto identificou que a ação era negociada a aproximadamente um quarto do valor de liquidação da companhia, apesar da qualidade da gestão operacional.

O contexto da listagem ajudou a explicar a distorção. O IPO da WDC foi precificado na mesma semana do lançamento do Banco Modal (MODL3), um período de forte restrição de liquidez que afugentou investidores institucionais. A combinação de ausência de cobertura de analistas e volume reduzido de negociação criou o ponto de entrada que a gestora considerava ideal para a construção de uma posição relevante.

Juros altos, reestruturação e a saída sob medida

O impacto dos juros elevados sobre os passivos corporativos é um componente central da tese no cenário local. A gestora, porém, aposta na capacidade de geração de caixa das empresas e na reestruturação de capital por meio de fusões e aquisições para destravar valor no longo prazo. A lógica, segundo Netto, é inversa à do mercado: se o ativo melhora e o preço cai, a posição deve ser aumentada.

A venda de uma tese ilíquida não acontece por acaso. Ela é construída a partir da atuação na governança e na eficiência operacional, com o objetivo de atrair compradores estratégicos ou consolidadores do setor. A gestora fala em criar eventos de liquidez sob medida, combinando o momento adequado do mercado com a desalavancagem financeira das companhias. É nesse estágio que o trabalho de estruturação, iniciado na entrada, se converte em retorno para os investidores.