T4F deixa a Bolsa após 15 anos com perdas de 96%

A Time For Fun (T4F), uma das maiores plataformas de entretenimento ao vivo do país e organizadora de eventos como o Lollapalooza Brasil, encerrou oficialmente sua trajetória como companhia aberta. A saída da B3 foi confirmada após a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aprovar o cancelamento do registro de emissora categoria A, o que também implicou a desfiliação da empresa do Novo Mercado, segmento de governança mais rígido da bolsa brasileira. O movimento põe fim a um ciclo de aproximadamente 15 anos sob o regime de capital pulverizado, marcado por uma desvalorização acumulada de cerca de 96% das ações desde o IPO realizado em 2011.

O desfecho já era esperado desde março, quando o fundador e acionista controlador, Fernando Luiz Alterio, anunciou uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) com o objetivo declarado de promover o fechamento do capital. A proposta inicial estabelecia pagamento de R$ 5,59 por ação, valor que representava ágio de aproximadamente 26% sobre os R$ 4,44 registrados no fechamento do pregão anterior ao anúncio. A operação foi desenhada para extinguir o registro de companhia aberta junto à CVM e retirar a T4F do Novo Mercado, seguindo um roteiro cada vez mais comum entre empresas de menor liquidez na bolsa brasileira.

Os números da operação de fechamento de capital

A oferta pública avançou em julho, quando o leilão na B3 atingiu o quórum necessário para a conclusão do processo. No leilão, Alterio adquiriu aproximadamente 1,95 milhão de ações, volume equivalente a 58,1% dos papéis em circulação e a mais de 82% das ações aptas a votar na operação. O valor efetivamente pago aos acionistas foi de R$ 6,02 por ação, montante já corrigido pela taxa Selic sobre o preço-base de R$ 5,59 definido no laudo de avaliação.

Após a liquidação financeira da oferta, o grupo controlador passou a deter cerca de 79,1% do capital social da companhia. Com a aprovação do registro pela CVM, a administração da T4F informou que pretende convocar assembleia geral para deliberar sobre o resgate compulsório das ações que ainda permanecem em circulação. Esse mecanismo, previsto na Lei das Sociedades por Ações, é acionado quando menos de 5% do capital permanece nas mãos de acionistas minoritários, cenário típico em processos de fechamento de capital bem-sucedidos.

O contexto da saída e o futuro da companhia

A decisão da T4F de retornar ao capital fechado não é um caso isolado. Diversas empresas listadas na B3 optaram por caminho semelhante nos últimos anos, pressionadas pelos custos crescentes de manutenção do registro de companhia aberta e pela baixa liquidez de seus papéis, que reduz o apelo do mercado de capitais como fonte de financiamento. No caso específico da T4F, a trajetória pós-IPO foi particularmente desafiadora: o setor de entretenimento ao vivo sofreu choques severos, incluindo a paralisação total das atividades durante a pandemia e a subsequente recomposição gradual da demanda.

Agora como empresa de capital fechado, a T4F ganha maior flexibilidade para tomar decisões estratégicas de longo prazo sem a pressão periódica dos resultados trimestrais públicos e sem a necessidade de manter uma estrutura de relações com investidores proporcional ao porte de sua base acionária. O grupo controlador, que já detinha posição relevante antes da OPA, consolida agora o comando integral do negócio, concentrando esforços na operação de festivais, turnês e eventos corporativos. A expectativa do mercado é que a companhia siga operando normalmente suas marcas e contratos, agora sob gestão privada e com capital 100% concentrado.