Provisões dos bancões para calotes no setor bancário
Grandes bancos elevam provisões para calotes no segundo trimestre de 2026

As provisões para calotes (PDD) dos grandes bancos brasileiros saltaram de R$ 40 bilhões para R$ 47 bilhões em apenas um trimestre, sinal concreto de que a piora do ambiente de crédito deixou de ser apenas um alerta do mercado. O movimento ocorre na contramão dos lucros: entre abril e junho, Bradesco (BBDC4), Itaú (ITUB4), Santander (SANB11), Banco do Brasil (BBAS3) e BTG (BPAC11) lucraram R$ 30 bilhões, alta de 11,1% na comparação com o mesmo período de 2025, segundo levantamento da Elos Ayta.

O dado reforça a leitura de que a rentabilidade das instituições ainda resiste, mas o colchão contra inadimplência está sendo turbinado. O Bank of America aponta que as provisões cresceram acima das carteiras de empréstimos nos últimos trimestres, o que resultou em custo do risco sequencialmente maior. Para o banco, o movimento sugere uma maior probabilidade de inadimplência à frente.

Provisões maiores em um trimestre de lucros em alta

O cenário que pressiona os balanços tem raízes na renda das famílias e no caixa das empresas. O sócio fundador da Convexas, Rafael Dadoorian, lembra que o endividamento das famílias atingiu nível recorde em julho, ao chegar a 82%. Ao mesmo tempo, o número de companhias em recuperação judicial saltou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período deste ano, com alta de 20,4% no varejo em 12 meses.

No último fim de semana, Casas Bahia (BHIA3) e Marabraz recorreram à Justiça para pedir recuperação judicial, com dívidas que ultrapassam R$ 18 bilhões. A inadimplência das empresas, que era de 1,5% em 2020, está hoje em 4%. Para Dadoorian, os grandes bancos seguem sólidos, rentáveis e bem geridos, mas a preocupação está no cenário de crédito: juros altos, endividamento recorde das famílias e aumento das recuperações judiciais no varejo e no agronegócio devem manter o ambiente adverso nos próximos trimestres.

Custo do risco: quem sente mais a deterioração

O Bank of America também não vê espaço para leituras otimistas. A qualidade do crédito ao consumidor piorou no segundo trimestre, com os juros como principal vilão. Os NPLs, ou empréstimos inadimplentes, avançaram 20 pontos-base sobre o trimestre anterior e 50 pontos-base no acumulado do ano, mesmo com o programa Desenrola. Na avaliação do BofA, as teleconferências de resultados de bancos e varejistas apontam na mesma direção. Bancos com carteiras mais diversificadas registraram aumento de cerca de 10 pontos-base; os mais concentrados, mediana de 60 pontos-base.

Instituições com maior exposição a clientes de baixa renda ou carteiras mais concentradas, como Santander, Porto (PSSA3) e operações de varejistas, tiveram os maiores aumentos no custo do risco. O Porto Bank, por exemplo, viu o lucro líquido cair 32,5%, para R$ 137,8 milhões, enquanto as perdas com crédito somaram R$ 868 milhões, alta de 67%. Já Itaú e Bradesco mantiveram o custo do risco relativamente estável, apoiados em carteiras mais diversificadas. Nubank (NU) e Mercado Livre aparecem como exceções, com custo do risco melhorando apesar da deterioração da qualidade dos ativos.

Itaú: previsibilidade como principal tese

O Itaú lucrou R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, alta de 7,8% na comparação anual e a 11ª alta consecutiva. A carteira de crédito cresceu cerca de 10%, com destaque para linhas de menor risco, como consignado e financiamento imobiliário. A XP mantém o banco como top pick do setor, com preço-alvo de R$ 50, potencial de valorização de cerca de 20% e dividend yield estimado em 8%.

A cautela, porém, aumentou. O banco reduziu quase pela metade a previsão de crescimento das receitas com tarifas e seguros em 2026, de 5% a 9% para 2% a 5%. O CEO Milton Maluhy afirmou que juros elevados por mais tempo podem pressionar a atividade econômica e elevar o endividamento de empresas e famílias. O Itaú também cortou a projeção de crescimento do PIB de 2026, de 2,1% para 1,9%.

Mesmo assim, o banco sustenta inadimplência próxima de metade da média da indústria e crescimento da carteira. BTG e JPMorgan notaram a desaceleração do lucro por ação e alguns sinais de piora na qualidade dos ativos, mas mantiveram visão favorável. Para o mercado, a tese do Itaú passou a ser menos dependente de grandes surpresas e mais apoiada na previsibilidade de lucros recorrentes, rentabilidade elevada, geração de capital e distribuição de proventos.

Bradesco: recuperação sem abrir mão da cautela

O Bradesco registrou lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% na comparação anual e o décimo trimestre consecutivo de crescimento. O resultado veio pouco acima das expectativas e reforça a percepção de que o banco avança na recuperação da rentabilidade após um período de desempenho fraco.

A estratégia segue baseada em expansão disciplinada. O CEO Marcelo Noronha reconheceu que o cenário econômico piorou, principalmente pelo comprometimento da renda das famílias, mas argumentou que a carteira atual tem perfil mais protegido, o que justifica a postura seletiva na concessão de crédito. O executivo também aposta que o mercado passará a reconhecer a melhora do banco à medida que os resultados avançam, já que as ações seguem descontadas em relação aos concorrentes.

Analistas veem oportunidade, mas sem ignorar os riscos. A deterioração dos indicadores de crédito pode limitar parte dos ganhos de rentabilidade, ainda que o banco esteja distante do quadro de forte pressão observado em anos anteriores.

Banco do Brasil: lucro acima do esperado, crédito no vermelho

O Banco do Brasil reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no 2T26, alta de 3,3% em 12 meses e de 13,9% sobre o trimestre anterior. O número superou as expectativas, mas o Bank of America avalia que o resultado como um todo ficou abaixo do esperado, apesar do lucro acima do consenso, com destaque para a inadimplência do cartão de crédito, que saltou de 7% para 15% em apenas um trimestre.

O balanço também mostra deterioração além do agronegócio. A inadimplência acima de 90 dias chegou a 5,61%. Entre pessoas físicas, o indicador subiu 159 pontos-base, para 8,41%, e entre micro, pequenas e médias empresas alcançou 9,7%. No agronegócio, principal foco de pressão, a inadimplência da carteira rural atingiu 6,27%, após uma sequência de trimestres negativos.

Para quem acompanha o setor, a mensagem dos balanços é clara: os bancos ainda lucram, mas o custo do risco tende a seguir no centro das atenções. A combinação de juros altos, famílias mais endividadas e empresas recorrendo à recuperação judicial deve manter o ambiente de crédito desafiador, e a qualidade das carteiras será o principal termômetro para as ações do setor.