A Polícia Civil de São Paulo formalizou nesta segunda-feira, 10 de agosto, o indiciamento de dois profissionais ligados ao Goldman Sachs no inquérito que investiga a reorganização societária da Oncoclínicas (ONCO3). O despacho da autoridade policial, divulgado durante o dia, aponta que os representantes do banco teriam tido uma “participação consciente” em um mecanismo usado para induzir a companhia, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a B3 e o mercado a erro.

A investigação, instaurada em 2025 na capital paulista, atende à cobrança de acionistas minoritários que exigem a realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA). No despacho, os envolvidos foram enquadrados nos artigos do Código Penal que preveem estelionato e fraude, em meio à suspeita de que a estrutura societária da empresa teria sido reconstruída de forma artificial para evitar a oferta.

O que diz a investigação

Segundo o documento, a versão apresentada pelos representantes do Goldman Sachs só teria ganhado força quando a reorganização societária da Oncoclínicas se aproximou do ponto em que poderia desencadear a obrigação de realizar a OPA. A polícia considera que essa narrativa seria incompatível com as informações que o próprio banco havia prestado ao mercado em momentos anteriores.

O expediente teria servido para convencer a Oncoclínicas, a CVM, a B3 e os acionistas de que a oferta pública não era devida. Com isso, a investigação sustenta, teria sido possível manter uma participação acima do limite estatutário sem o correspondente desembolso financeiro, em prejuízo direto dos acionistas minoritários.

A autoridade policial também descreve a tentativa de dar uma aparência de legitimidade àquilo que seria uma falsa reconstrução da estrutura societária da companhia. O termo usado no despacho reforça a tese de que as informações repassadas ao mercado teriam sido moldadas para atender a um objetivo específico no momento em que a OPA passou a ser reivindicada.

O papel do Goldman Sachs na reorganização societária

A atuação do Goldman Sachs é tratada como ponto central do inquérito. Os dois representantes indiciados teriam atuado de forma consciente para dar sustentação à tese de que a OPA não precisava ser executada, mesmo diante de indícios de que a reestruturação acionária poderia gerar essa obrigação.

No mercado de investimentos, a OPA é um instrumento de proteção aos minoritários em situações como mudanças de controle ou reestruturações que alterem a posição dos acionistas. A manutenção de uma fatia acionária acima do teto estatutário, sem o pagamento devido, é justamente o tipo de desequilíbrio que esse mecanismo busca corrigir.

Outro ponto destacado pelos investigadores é a contradição temporal entre o que o Goldman Sachs comunicou ao mercado e a versão posteriormente apresentada. Essa divergência é citada como um dos principais elementos para sustentar o indiciamento dos dois profissionais.

Repercussão e desdobramentos

Procurados, Goldman Sachs e Oncoclínicas não se manifestaram imediatamente sobre o indiciamento. A Latache, maior acionista da companhia, também não comentou o caso até a publicação desta reportagem.

O caso segue em análise pela Polícia Civil de São Paulo, que agora avalia os próximos passos do procedimento. O indiciamento representa mais um capítulo de uma disputa que opõe a administração da Oncoclínicas e seus acionistas minoritários em torno da realização da oferta pública.