Peter Thiel compra 1% da Vista Energy, a “PRIO” argentina

O fundador do PayPal e da Palantir, Peter Thiel, acaba de cruzar a fronteira do portfólio tecnológico para apostar no setor de petróleo e gás da Argentina. Por meio do Thiel Macro, veículo de investimentos do bilionário, foram compradas cerca de 1% das ações da Vista Energy, petrolífera listada em Nova York e no México e dona de ativos na formação não convencional de Vaca Muerta. A operação movimentou US$ 76 milhões e consumiu 18% do patrimônio do fundo.

A escolha de uma companhia argentina de óleo e gás não surpreende apenas pelo perfil do investidor: a ação da Vista acumula ganho de 390% em dólares desde o início de 2023, avanço sustentado pela combinação entre a agenda liberal do presidente Javier Milei e o aumento da produção local. A área de Vaca Muerta, localizada na Bacia de Neuquén, no norte da Patagônia, é tratada por analistas como uma das novas fronteiras de oferta de óleo e gás do mundo, com potencial para posicionar a Argentina entre os países que mais elevarão a produção nos próximos anos.

A aposta de US$ 76 milhões de Peter Thiel na Argentina

O ingresso de Thiel acontece em momento de apetite renovado pelo país. O governo Milei criou em 2024 o RIGI, regime de incentivos para grandes investimentos, voltado a projetos acima de US$ 200 milhões. Para Claudio Andrade, fundador da Polo Capital, o ambiente regulatório mais previsível foi essencial para destravar os investimentos em escoamento que eram apontados como principal gargalo do desenvolvimento de Vaca Muerta.

Andrade ressaltou que a bacia atravessa um ciclo virtuoso em que o ganho de escala reduz custos unitários e aumenta a rentabilidade dos ativos. A chegada de um investidor estrangeiro de peso, com histórico de empresas como PayPal e Palantir, reforça a percepção de que a Argentina entrou em nova fase para o capital privado, mesmo com o risco político que historicamente acompanha o país.

Vista Energy, a “PRIO da Argentina”, segundo o mercado

A comparação com o mercado brasileiro tem sido usada por investidores e banqueiros que acompanham o setor. A Vista Energy costuma ser tratada, no jargão do mercado, como uma espécie de “PRIO da Argentina”, por ser uma companhia privada, focada exclusivamente na exploração de shale e com alta liquidez nas bolsas. A estatal YPF concentra as maiores áreas de Vaca Muerta, mas sua estrutura inclui refino e distribuição, o que dilui a exposição direta ao desenvolvimento da bacia.

Segundo um banker que acompanha o mercado argentino, PRIO e Vista são os dois grandes vencedores do setor na região no que diz respeito ao mercado de capitais. As duas companhias possuem ações líquidas e negociam com prêmio diante dos pares. Para investidores que querem exposição ao petróleo brasileiro, a PRIO seria o equivalente daquilo que a Vista representa hoje para a Argentina.

Trajetória da Vista Energy e os próximos capítulos de crescimento

A alta de 390% em dólares desde o início de 2023 levou a Vista a um patamar de destaque entre as petrolíferas da região. A companhia foi criada em 2017 como um veículo listado no México e iniciou sua estratégia de consolidação em 2018, com a compra de ativos em Vaca Muerta. No comando está Miguel Galuccio, ex-presidente da YPF entre 2012 e 2016, que conduziu a empresa em um processo de crescimento orgânico e aquisições.

Ao longo desse período, a Vista absorveu áreas que pertenciam a gigantes estrangeiras, como Equinor e Petronas, enquanto a própria YPF e a Pluspetrol compraram ativos da Exxon. A empresa já investiu mais de US$ 6,5 bilhões, soma reservas provadas de 588 milhões de barris, sendo 89% de petróleo, e produz cerca de 156 mil barris de óleo equivalente ao dia. Para efeito de comparação, a PRIO possui 757 milhões de barris em reservas 1P e produção próxima de 200 mil barris diários.

O movimento de Thiel ocorre poucos meses depois de a Continental Resources, do bilionário Harold Hamm, pioneiro do shale americano, ter adquirido ativos na Argentina e sinalizado interesse em ampliar a presença no país em leilão previsto para este ano. Para um banqueiro que acompanha a companhia, a chegada de Hamm representa uma mudança de ciclo, já que a história de Vaca Muerta até então era marcada por empresas estrangeiras vendendo áreas e grupos locais comprando. Na visão do mercado, a Vista lidera o ranking das companhias privadas do setor no país, aparece como a principal exportadora argentina de petróleo e ainda deve protagonizar novos movimentos de fusões e aquisições, além de seguir crescendo organicamente.