
O Ibovespa fechou a sessão desta sexta-feira, 5 de junho, em queda de 0,77%, aos 169.019 pontos — abaixo dos 170 mil pela primeira vez em meses. Na semana, o recuo acumulado chegou a 2,7%, consolidando oito semanas consecutivas no vermelho. É a maior sequência de perdas semanais do principal índice da bolsa brasileira desde os tempos da pandemia de covid-19, em 2020.
Payroll americano acima do esperado detona venda global
O gatilho imediato desta sexta foi o relatório de empregos dos Estados Unidos de maio, o payroll. Os dados vieram bem acima das estimativas do mercado e reacenderam o temor de que o Federal Reserve manterá os juros elevados por mais tempo. A reação foi imediata e brutal: o Nasdaq despencou 4,18% e o S&P 500 recuou 2,65%, configurando a pior sessão do ano para as bolsas americanas. O Brasil reabriu após o feriado de Corpus Christi direto nesse ambiente adverso e não teve chance de escapar do tombo.
De 200 mil a 169 mil: a derrocada em dois meses
O contraste com o início do ano é marcante. Em meados de abril, o Ibovespa tangenciou os 200 mil pontos, impulsionado por um fluxo recorde de capital estrangeiro. Desde aquela máxima histórica, o índice já acumula queda superior a 15%. Somente em maio, o recuo foi de 7,06%, o pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, aponta o redirecionamento dos fluxos globais como fator estrutural. «Além de ter diminuído, as rotas foram mais direcionadas para aqueles que se beneficiam da infraestrutura de IA — Coreia, Taiwan, China — enquanto mercados como o brasileiro, mais focados em commodities tradicionais, não foram muito bem», afirmou o especialista.
Selic e inflação: o quadro doméstico se deteriora
No cenário interno, o ambiente também piorou. O Bank of America revisou nesta sexta suas projeções para a taxa Selic, passando a esperar apenas mais um corte em 2026. O ciclo encerraria o ano em 14,25%, ante a estimativa anterior de 13,25%. O Boletim Focus projeta o IPCA em 5,09% para o ano — acima do teto da meta de inflação. Confira análises detalhadas sobre juros e política monetária em nossa seção de economia.
Risco eleitoral entra no radar dos investidores
Castro Alves também destaca o risco político como vetor crescente de pressão. «A incerteza e o risco político aumentam a cada semana que passa, à medida que você chega mais perto da eleição. Você teve a questão do risco fiscal — cada vez mais medidas de cunho fiscal para tentar gerar algum benefício eleitoral. Isso aumenta a percepção de risco fiscal, que é um detrator para a moeda local», avaliou o estrategista.
Dólar sobe e real fica entre os piores emergentes
O dólar fechou esta sexta a R$ 5,15, o maior nível em dois meses, com valorização semanal de 2,26%. O real foi um dos piores desempenhos entre as moedas de países emergentes no pregão. O quadro combina pressão externa, via payroll forte e Fed hawkish, com deterioração fiscal e eleitoral no front doméstico — uma equação que o mercado está cobrando caro do Ibovespa semana após semana.





