
Nesta quarta-feira, 2 de setembro, a Azzas 2154 (AZZA3) comunicou ao mercado a formalização da cisão societária que dará origem a duas companhias independentes de moda: Arezzo&Co e SOMA. A decisão desfaz, em menos de dois anos, a união criada pela fusão entre o grupo de calçados e a holding de vestuário em 2024, além de abrir caminho para que cada nova empresa tenha governança própria e acesso direto ao mercado de capitais.
Arquitetura da cisão e estrutura independente de capital
Pelo desenho informado ao mercado, a Arezzo&Co e a SOMA passarão a atuar com estruturas administrativas autônomas e governança independente, com perspectivas de ingressar no Novo Mercado da B3. Os acionistas Alexandre Birman e Roberto Jatahy defenderam, em comunicado oficial, que a reorganização vai permitir a cada uma das companhias um gerenciamento mais próximo dos modelos de negócio e das oportunidades de expansão, sem os ruídos provocados pela gestão conjunta.
A solução para a Farm reforça a complexidade do acordo: a marca e suas extensões ficarão concentradas em uma sociedade específica, da qual a Arezzo&Co terá 57,4% de participação e a SOMA os 42,6% restantes. Essa divisão assegura que nenhum dos grupos fique de fora dessa operação estratégica e cria uma dinâmica própria de controle para uma das grifes mais relevantes do ecossistema.
Governança instável e mudanças na alta administração
Menos de um ano após a conclusão da fusão, a Azzas começou a exibir sinais de desgaste institucional. Em maio de 2025, Guilherme Benchimol, fundador da XP e integrante do conselho de administração, renunciou ao cargo, oficialmente por agendas conflitantes. A saída, porém, passou a ser vista por investidores como um prenúncio das tensões que viriam a público.
Em junho do mesmo ano, o colegiado foi reformulado: Nicola Calicchio Neto assumiu a presidência e Marcel Sapir a vice-presidência, substituindo Pedro Parente e Anna Chaia. A rotatividade prosseguiu com o desligamento de Rony Meisler, fundador da Reserva, e culminou na saída do próprio Calicchio Neto quase um ano após ter sido empossado. A instabilidade na governança criou um ambiente pouco propício para a continuidade do projeto unificado.
Lucro em queda e a urgência de uma nova estratégia
Os números trimestrais ajudam a entender os motivos econômicos da cisão. No segundo trimestre de 2026, o lucro líquido recorrente da Azzas foi de R$ 106,5 milhões, uma redução de 62,5% em relação ao mesmo período de 2025. Ainda assim, o resultado representou uma recuperação frente aos R$ 63,9 milhões registrados entre janeiro e março.
Essa melhora sequencial aconteceu apesar do encolhimento da receita líquida, sustentada essencialmente pelo avanço da margem bruta e por um resultado financeiro mais favorável. Na comparação anual, o primeiro trimestre já mostrava uma queda de 45,7% no lucro recorrente, que passou de R$ 117,7 milhões para R$ 63,9 milhões. A combinação de receita enfraquecida e lucro comprimido reforçou a tese de que a união produziu menos sinergias do que o esperado.
Divisão das marcas e a criação de novos portfólios
O plano de partilha de ativos prevê uma segmentação clara entre os dois polos. A Arezzo&Co comandará Arezzo, Schutz, Anacapri, Vans, Alexandre Birman, Carol Bassi, Hering e suas extensões. Já a SOMA, liderada por Roberto Jatahy, receberá Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva e extensões e Oficina Foxton.
A Farm, por sua vez, passa a pertencer a um veículo societário próprio, com 57,4% do capital sob controle da Arezzo&Co e 42,6% nas mãos da SOMA. A solução mantém a marca equidistante dos dois polos e preserva espaço para uma gestão dedicada, algo que ficaria comprometido em uma estrutura única de comando.
Judicialização e o desfecho da crise entre sócios
O distanciamento entre os grupos acionistas chegou ao extremo em maio de 2026, quando Roberto Jatahy acionou a Justiça contra Alexandre Birman para tentar suspender mudanças internas. A liminar que o beneficou determinou a manutenção da estrutura então vigente, preservando sua responsabilidade sobre as áreas de vestuário feminino e masculino.
A decisão congelou, na prática, a capacidade de Birman de reorganizar a administração a seu favor, ampliando o impasse estratégico. A cisão surge, portanto, como um mecanismo para resolver o conflito pelo menos no plano corporativo, ainda que exija aprovações formais. Para o investidor, a divisão representa também a chance de separar riscos e oportunidades de dois modelos de negócio que passaram a exigir caminhos diferentes no varejo de moda.
O cronograma ainda dependerá de chancela regulatória e de assembleias de acionistas, mas o anúncio recoloca em cena duas apostas independentes para a bolsa brasileira. Você pode acompanhar as cotações e os highlights do mercado de investimentos em tempo real aqui na SpaceMoney.





