
A estratégia de crescimento que ajudou a XP a conquistar capilaridade no mercado financeiro agora serve de referência para uma rede de academias. Caio Peres, executivo que passou 17 anos estruturando a expansão da corretora por meio de escritórios de agentes autônomos, assumiu o comando da SkyFit depois de liderar o consórcio que comprou a empresa em abril. O objetivo é transformar os franqueados da rede em empreendedores apoiados por uma plataforma central de tecnologia, treinamento, dados e poder de negociação.
Aquisição avaliada em R$ 400 milhões mobiliza capital da Faria Lima
A transação que levou o ex-sócio da XP ao controle da SkyFit foi fechada por aproximadamente R$ 400 milhões, valor que representa um múltiplo de 5,5 vezes o Ebitda projetado pela rede para este ano. O montante não foi revelado oficialmente pela companhia, mas foi confirmado por pessoas próximas ao negócio. O consórcio comprador reúne a NVA Capital, de Marcelo Maisonnave, Eduardo Glitz e Pedro Englert, e a Bird Capital, do ex-sócio do Patria Gustavo Moraes, além de cerca de 30 investidores com atuação predominante nos mercados financeiro e de tecnologia. O Itaú BBA concedeu o crédito para viabilizar a operação.
A troca de controle ocorre quatro anos depois da fundação da SkyFit, criada em 2020 por Bruno Berardo e Everton Carvalho na cidade de Americana, no interior paulista. A rede começou com cinco unidades próprias até migrar definitivamente para o modelo de franquias. Na data da venda, a companhia somava 320 academias; quatro meses depois, esse número já alcança 370 unidades distribuídas por 22 estados, com 1 milhão de alunos matriculados. A expansão, por ora, não depende de lojas próprias. Peres afirma que a intenção é manter a operação 100% franqueada.
O modelo de expansão e a escalada de franquias
O plano de Caio Peres tem semelhança estrutural com a operação da XP. Na corretora, o crescimento era impulsionado pelo recrutamento de empreendedores locais em diferentes regiões, que recebiam tecnologia, treinamento e compartilhamento de dados para competir com bancos maiores. Na SkyFit, o franqueado exerce papel equivalente ao do assessor: é o empreendedor local que conhece o mercado onde atua e que ganha capacidade de disputa ao se conectar a uma estrutura central. Em conversas recentes, o CEO disse que um futuro franqueado pode até montar uma academia por conta própria, mas a proposta da empresa é reduzir o atrito e os riscos desse caminho com suporte completo.
A rede opera com uma separação clara de margens no modelo. Cada unidade tem faturamento médio de R$ 200 mil, o que leva a uma receita total projetada de cerca de R$ 800 milhões no fechamento do ano. A margem do franqueado fica próxima de 30%, enquanto a SkyFit recebe 10% da receita das unidades. A companhia já mapeou 1.500 cidades no Brasil onde acredita haver espaço para novas unidades, sempre mirando localidades que hoje são atendidas majoritariamente por academias independentes.
Equipe de ex-XP e programa de sócios na gestão
Para colocar o plano em prática, Peres trouxe para a SkyFit executivos que passaram pela XP. Henrique Meirelles assumiu como CFO; Amanda Coelho acumula as funções de COO e CTO; Guilherme Leite comanda o comercial; e Paulo Siqueira responde pela engenharia. Além das contratações, foi desenhado um programa de partnership que permite aos principais executivos da rede comprarem participação societária no negócio, em uma estrutura inspirada no modelo que a XP usava para reter talentos.
O reforço executivo ocorre em um momento de expansão acelerada. No intervalo entre a transação e os dias atuais, a rede ampliou o número de unidades, mantendo o foco em cidades médias e regiões periféricas dos grandes centros urbanos. O discurso da companhia é evitar áreas de alta renda, como Moema, em São Paulo, ou Leblon, no Rio de Janeiro, onde a disputa seria prioritariamente contra grandes redes como a Smart Fit. O alvo preferencial são municípios de 20 mil a 30 mil habitantes, onde a SkyFit pode operar com receitas mais baixas e competir com academias independentes.
Capex reduzido via leasing de equipamentos
Um dos principais diferenciais de expansão está na estrutura de capital para abrir uma franquia. Enquanto uma unidade da Smart Fit exige investimento inicial de aproximadamente R$ 3,8 milhões, a SkyFit afirma ser possível montar uma loja com R$ 1,5 milhão. A diferença está na forma de contratação dos aparelhos de musculação, que representam o maior item de investimento em uma academia. Em vez de comprar os equipamentos, os franqueados podem assinar contratos de leasing diretamente com fornecedores como Movement e Kikos.
Na prática, um pacote de equipamentos que custaria cerca de R$ 1,3 milhão à vista pode ser contratado por valores mensais entre R$ 35 mil e R$ 40 mil. Como as máquinas se depreciam ao longo do período do leasing, a orientação da rede é devolver os aparelhos ao final do contrato e renovar o parque com equipamentos novos. Esse modelo reduz o desembolso inicial e libera capital de giro para o franqueado, um fator decisivo em cidades de menor poder aquisitivo.
Disputa com gigantes e o tamanho do mercado independente
O segmento de academias no Brasil ainda é dominado por operações pulverizadas. Segundo Caio Peres, existem cerca de 70 mil academias independentes no país, diante de apenas 5 mil a 6 mil unidades ligadas a redes organizadas. Esse desequilíbrio cria uma oportunidade de consolidação e profissionalização do setor. A SkyFit também usa esse dado como argumento para justificar o modelo de franquia: ao entrar em cidades menores, a rede evitaria um confronto frontal com a Smart Fit, que adota estratégia oposta e concentra a expansão em lojas próprias, com apenas 20% de franquias no portfólio.
O CEO define esse nicho como um oceano azul. A leitura é que há espaço para crescer sem repetir o posicionamento das grandes cadeias de alto padrão. Com uma estrutura de custos mais enxuta e uma proposta de preço acessível, a rede quer ocupar o vácuo deixado pelas academias de bairro e ganhar escala em localidades que hoje não despertam interesse dos principais concorrentes. Se o modelo funcionar, a SkyFit pode repetir o fenômeno de capilaridade da XP, mas agora no varejo de saúde e bem-estar.





