
Uma em cada três pessoas no Brasil pode estar com o fígado em risco sem saber. Pesquisa Datafolha em parceria com a Novo Nordisk mostra que 62% da população teme o diagnóstico de gordura no fígado, mas 60% não sabe qual exame identifica a condição. O dado ganha ainda mais relevância porque a esteatose hepática, nome técnico da doença, avança de forma silenciosa e não atinge apenas quem está acima do peso. Apenas 20% dos brasileiros conhecem o termo, segundo o levantamento.
O alerta é respaldado por uma nova análise científica publicada na revista Nutrition Reviews, conduzida por pesquisadores da Southeast University e da Universidade de Informação Científica e Tecnológica de Nanjing, na China. O estudo, que avaliou dados de 600 mil pessoas, mostra que a alimentação exerce papel central na saúde do fígado e que padrões alimentares saudáveis podem reduzir o risco de doenças hepáticas crônicas em até 39%.
O que a dieta tem a ver com o fígado
Os pesquisadores não analisaram um alimento isolado, mas dois modelos de dieta reconhecidos pela ciência: o Índice Alternativo de Alimentação Saudável, de Harvard, e o Índice de Alimentação Saudável, do governo americano. Ambos pontuam escolhas alimentares positivas, como frutas, vegetais, grãos integrais, peixes, frutos do mar, leguminosas, nozes, castanhas, tofu e gorduras boas, como azeite e abacate.
Pelo índice de Harvard, pessoas com pontuação mais alta tiveram risco entre 20% e 38% menor de desenvolver alguma forma de doença hepática crônica. Pelo índice do governo americano, a redução ficou entre 23% e 39%. O benefício foi mais consistente contra a forma metabólica da doença hepática gordurosa e contra o câncer de fígado, com efeitos particularmente marcantes na Ásia e na América do Norte.
Alimentos que prejudicam o fígado
O consumo elevado de grãos refinados, como pão branco, massas comuns e arroz branco, açúcar adicionado — presente em doces, refrigerantes e ultraprocessados — e sódio em excesso, típico de embutidos e industrializados, pesa contra a saúde hepática. A médica nutróloga Dra. Mariana Wogel ressalta que dietas ricas em açúcar, ultraprocessados, bebidas adoçadas e gordura em excesso favorecem o acúmulo de gordura no fígado e pioram a resistência à insulina, um dos mecanismos mais associados à doença.
Na prática, a recomendação é reduzir refrigerantes, sucos industrializados, doces, biscoitos recheados, frituras, embutidos, carnes muito gordurosas, queijos amarelos e álcool. A especialista reforça que, em pacientes com esteatose, o consumo de bebidas alcoólicas costuma ser reduzido ao máximo ou suspenso, a depender da avaliação clínica.
Gordura no fígado tem reversão?
A esteatose hepática pode ser revertida, mas não existe fórmula mágica. Segundo a Dra. Mariana Wogel, o tratamento começa pela rotina alimentar. “Não existe fórmula isolada capaz de reverter a gordura no fígado se a pessoa continua comendo de forma desorganizada e mantendo sobrecarga metabólica”, afirma.
A base da alimentação deve ser formada por alimentos in natura ou minimamente processados. Verduras, legumes, frutas, feijões e grãos integrais ajudam no controle da glicemia, aumentam a saciedade e fornecem fibras, vitaminas, minerais e antioxidantes. Proteínas como ovos, peixes, frango e cortes magros de carne também são importantes para preservar massa muscular durante o emagrecimento e fornecem nutrientes envolvidos no metabolismo das gorduras, como colina e metionina.
O excesso de gordura saturada deve ser evitado, mas isso não significa cortar toda gordura da alimentação. Azeite de oliva extravirgem, abacate, amêndoas, sardinha e salmão podem fazer parte da dieta em quantidades adequadas, por reunirem gorduras de melhor qualidade e perfil mais favorável ao metabolismo.
Magros também precisam investigar
A hepatologista Dra. Patrícia Almeida, da Sociedade Brasileira de Hepatologia e doutora pela USP, desmistifica a ideia de que a gordura no fígado é problema exclusivo de quem está acima do peso. “O peso é apenas um dos fatores envolvidos. O que realmente importa é a saúde metabólica. Uma pessoa pode ter um IMC normal e, ainda assim, apresentar aumento de gordura visceral, resistência à insulina, predisposição genética, alterações da microbiota intestinal ou hábitos de vida que favorecem o acúmulo de gordura no fígado”, destaca.
Mesmo sem excesso de peso, rotinas baseadas em alimentação rica em ultraprocessados, bebidas açucaradas e excesso de frutose, além de sedentarismo, baixa massa muscular, sono insuficiente, estresse crônico e consumo frequente de álcool em quantidades consideradas “sociais”, abrem portas para o problema. No caso dos magros, o tratamento não foca na perda de peso, mas na melhoria metabólica global, com dieta rica em alimentos in natura, redução de açúcares, exercícios físicos regulares com foco em ganho de massa muscular, higiene do sono, controle do estresse e moderação com o álcool.
Exames que detectam gordura no fígado
O diagnóstico inicial pode ser feito por avaliação clínica e exames laboratoriais, complementados por ultrassom ou métodos modernos como a elastografia hepática (FibroScan), que avalia o grau de gordura e fibrose sem necessidade de biópsia. A recomendação é investigar o fígado mesmo sem sintomas, especialmente quem tem diabetes, pré-diabetes, colesterol ou triglicerídeos alterados, hipertensão, histórico familiar de doença hepática, enzimas hepáticas elevadas ou achados incidentais em exames de imagem.
A prática regular de atividade física também faz parte da estratégia para reverter o quadro. Exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida e bicicleta, ajudam o organismo a usar melhor a gordura como energia. Quando combinados com treino de força, contribuem para preservar músculos e melhorar o metabolismo. A perda de peso gradual, quando indicada, pode trazer melhora significativa mesmo com reduções moderadas.
Os pesquisadores do estudo publicado na Nutrition Reviews reforçam que se trata de uma meta-análise de estudos observacionais, não de um experimento controlado. Os resultados mostram associação, não prova direta de causa e efeito. Fatores como nível socioeconômico, atividade física e predisposição genética também podem influenciar tanto a dieta quanto a saúde do fígado. A conclusão é direta: o fígado reage ao que chega no prato todos os dias, não só ao que sai da garrafa. Não é sobre um alimento milagroso, mas sobre o acúmulo de frutas, grãos integrais e peixe no lugar de refinados, açúcar e sal em excesso — uma conta que se paga ou se evita refeição após refeição.





