
O mercado de terras raras ainda levará entre 10 e 20 anos para desenvolver cadeias de fornecimento alternativas à China, segundo Ricardo Kazan, gestor da BTG Asset. Para ele, o tema é estratégico, mas não deve gerar impacto imediato relevante para investidores e indústrias nos próximos anos.
Dependência estrutural da China
A China domina cerca de 60% da produção global de terras raras e controla mais de 85% da capacidade de processamento desses minerais. Essa concentração cria uma vulnerabilidade estrutural para países e indústrias que dependem desses insumos em setores como defesa, eletrônicos, veículos elétricos e energias renováveis.
Kazan destaca que, apesar do crescente interesse geopolítico pelo tema, especialmente após as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, a realidade operacional é dura: abrir uma nova mina de terras raras, construir infraestrutura de processamento e escalar a produção são processos que demandam décadas, não anos.
Por que o prazo é tão longo
Complexidade do processamento
Diferente de outras commodities, as terras raras exigem processos químicos sofisticados e altamente poluentes para separação e refinamento. Construir essa capacidade fora da China implica enfrentar custos elevados, regulação ambiental rigorosa e escassez de mão de obra especializada.
Falta de projetos maduros
A maioria dos projetos alternativos ao redor do mundo ainda está em fase de exploração ou estudo de viabilidade. Poucos alcançaram o estágio de produção comercial. Iniciativas nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Brasil seguem em desenvolvimento, mas sem escala suficiente para rivalizar com a China no curto prazo.
Interesse político não resolve o problema técnico
Governos ocidentais têm anunciado investimentos e políticas de incentivo para desenvolver cadeias domésticas de minerais críticos. Os Estados Unidos reativaram a mina de Mountain Pass, na Califórnia, e a União Europeia lançou o Critical Raw Materials Act. Mas Kazan pondera que decisão política e capital disponível não eliminam as barreiras técnicas e temporais do setor.
O gestor da BTG Asset reforça que o tema tem relevância estratégica inegável para o longo prazo, mas investidores que buscam exposição ao setor devem calibrar as expectativas. O retorno potencial está associado a um horizonte estendido, com riscos de execução elevados ao longo do caminho.
Brasil no mapa das terras raras
O Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do mundo, estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas, segundo dados do USGS. Apesar do potencial, o país ainda não desenvolveu uma cadeia produtiva relevante. A exploração comercial em escala continua limitada por infraestrutura, regulação e ausência de projetos industriais consolidados.
A janela de oportunidade existe, mas transformá-la em capacidade produtiva real segue sendo o principal desafio — tanto para o Brasil quanto para os demais países que buscam reduzir a dependência da China nesse segmento crítico.




