Juros longos dos EUA disparam ao maior nível desde 2007

O rendimento do Treasury de 30 anos avançou nesta segunda-feira, 17 de agosto, para o maior nível desde junho de 2007, em meio ao avanço dos preços do petróleo e à crescente preocupação de investidores com a persistência da inflação e com o ritmo de endividamento do governo americano. Na sessão desta segunda-feira, a taxa de 30 anos subia mais de 4 pontos-base, para 5,311%, um patamar que não era visto há 19 anos e que reacendeu o debate sobre a sustentabilidade fiscal dos Estados Unidos e o impacto das taxas longas sobre o custo de financiamento da economia.

A movimentação não ficou restrita à ponta mais longa da curva. O yield do Treasury de 10 anos — referência para hipotecas, financiamentos de veículos e dívida de cartão de crédito — avançava mais de 2 pontos-base, para 4,724%. Já o rendimento do título de 2 anos, mais sensível às decisões de curto prazo do Federal Reserve, era negociado em 4,182%, com alta de mais de 1 ponto-base. Vale lembrar que 1 ponto-base equivale a 0,01%, ou um centésimo de ponto percentual, e que os preços dos títulos se movem na direção oposta aos rendimentos.

Petróleo em alta e o risco geopolítico com o Irã

O catalisador imediato do movimento foi a combinação de tensões no Oriente Médio com a alta das commodities energéticas. O prazo de 60 dias para Estados Unidos e Irã garantirem um acordo de paz expira justamente nesta segunda-feira, e o Irã descartou a possibilidade de prorrogação, segundo a mídia estatal do país. Uma autoridade sênior iraniana afirmou à Reuters que Teerã adotará uma postura ofensiva caso a diplomacia com os americanos fracasse — um cenário que mantém o mercado de energia em estado de alerta máximo.

Os contratos futuros do petróleo West Texas Intermediate subiram 2,6% e fecharam a US$ 84,50 por barril, enquanto o barril do Brent, referência global, avançou 2,7%, para US$ 90,87. A escalada energética, iniciada há meses com a eclosão do conflito no Oriente Médio, voltou a alimentar temores inflacionários, ainda que o último conjunto de indicadores de inflação tenha trazido certo alívio aos investidores.

Déficit, emissão e prêmio de prazo: o que explica a alta das taxas longas

Para os estrategistas do Barclays, o movimento recente das taxas tem menos relação com inflação e mais com o déficit orçamentário dos Estados Unidos, com o elevado volume de emissão de dívida ligada à inteligência artificial competindo com os títulos do Tesouro e com a exigência de prêmios mais altos para manter papéis do governo — o chamado term premium, ou o retorno extra que os investidores passam a demandar para carregar dívida pública de longo prazo.

Anshul Pradhan, chefe de pesquisa de taxas dos EUA no Barclays Capital, disse em nota na segunda-feira que o mais notável não é a existência dessas pressões, mas a força com que elas vêm dominando os indicadores econômicos de curto prazo. Segundo ele, três divulgações independentes sinalizavam neste mês por juros mais baixos, e ainda assim a ponta longa da curva subiu.

Na mesma linha, Anthony Saglimbene, estrategista-chefe de mercado da Ameriprise, avaliou que os investidores estão cada vez mais examinando os títulos do Tesouro pela perspectiva da sustentabilidade fiscal de longo prazo, e menos pela ótica de inflação, política monetária e crescimento — especialmente quando se trata da parte longa da curva.

Dados mistos não impedem avanço dos juros

A pressão sobre os rendimentos já havia se manifestado na última sexta-feira, quando os juros subiram apesar de indicadores mistos. As vendas no varejo caíram 0,6% no mês passado, uma surpresa negativa, enquanto o índice de preços ao produtor de julho ficou estável na comparação mensal. Na prática, o mercado optou por precificar os riscos estruturais da dívida pública em vez de embarcar na leitura de arrefecimento da atividade.

Na semana passada, o Departamento do Tesouro informou que o déficit orçamentário dos Estados Unidos atingiu o maior nível mensal em mais de cinco anos, pressionado pelo aumento dos custos do Medicare e pelas despesas com juros da dívida federal. O resultado acumulado no atual ano fiscal já supera o total registrado no mesmo intervalo do ano anterior, o que reforça a percepção de que a trajetória das contas públicas segue no centro das atenções dos investidores.

Ata do FOMC pode sinalizar os próximos passos do Fed

Em meio a esse cenário, o mercado volta suas atenções para a ata da reunião de julho do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), que será divulgada na quarta-feira, em busca de pistas sobre a condução da política monetária nos próximos meses. O Comitê manteve as taxas de juros estáveis na faixa de 3,5% a 3,75% em 29 de julho, pela quinta reunião consecutiva, com votação de 9 a 3.

Os três integrantes dissidentes — Beth Hammack, de Cleveland, Neel Kashkari, de Minneapolis, e Lorie Logan, de Dallas — defenderam um aumento de 25 pontos-base, sinalizando divergências internas relevantes sobre o rumo dos juros. Para analistas, a ata pode mostrar se o Fed enxerga espaço para manter o aperto monetário ou se a atual fase é mesmo de pausa prolongada, o que será decisivo para definir o comportamento das taxas longas nas próximas semanas.