Alta de juros do Fed pressiona Bitcoin e mercados com petróleo em alta
Federal Reserve enfrenta pressão para elevar juros em meio ao choque do petróleo e à queda do Bitcoin

Uma eventual elevação dos juros americanos na reunião do Federal Reserve de 16 de setembro seria um erro, avalia um grupo influente de estrategistas, mesmo com o mercado já atribuindo 68% de chance a esse desfecho. O alerta ocorre em um dia de recuo generalizado dos ativos de risco, com o Bitcoin caindo a US$ 76.642,36, o ouro em baixa e as bolsas globais pressionadas pelo avanço do petróleo e pelo temor de uma resposta mais dura do banco central dos Estados Unidos.

O pano de fundo imediato é a disparada do WTI, que passou de US$ 70 no início de julho para US$ 90, alimentada por interrupções de oferta relacionadas ao conflito entre Washington e Teerã. O movimento elevou a inflação medida pelos índices cheios no curto prazo e contaminou a leitura de política monetária, derrubando a confiança de que o Fed manteria a taxa inalterada. Ainda assim, parte relevante dos observadores sustenta que apertar as condições financeiras agora seria entrar na contramão do diagnóstico correto sobre a natureza do choque.

Juros mais altos viram aposta majoritária no mercado

A ferramenta FedWatch, da CME, passou a indicar 68% de probabilidade de alta de juros na próxima reunião do Fed, número que subiu de forma acelerada nas últimas semanas. Os contratos futuros do WTI já operam acima de US$ 90 e acumulam ganho de quase 9% na semana, alimentando a leitura de que o banco central americano pode ser obrigado a agir. O Dollar Index voltou a subir e passou a pesar sobre commodities, ativos de emergentes e alocações de risco, enquanto as bolsas da Ásia e da Europa fechavam em queda e os títulos do Tesouro dos Estados Unidos eram vendidos de forma generalizada, com rendimentos em alta.

Esse cenário afeta diretamente o mercado cripto. O Bitcoin, que chegou a demonstrar resiliência relativa ao petróleo em US$ 90 e aos rendimentos crescentes, voltou a operar sob pressão e acumula queda de aproximadamente 1% nas últimas 24 horas. O ouro, tradicional porto seguro, também amargava perdas, e o movimento de aversão a risco se espalhou para ações de ambos os lados do Atlântico. A leitura dos participantes é a de que, até a decisão do Fed, qualquer nova perna de alta do óleo pode manter o ambiente hostil para ativos digitais e demais alocações consideradas mais arriscadas.

Para os estrategistas que se opõem ao aperto, o ponto central é que a inflação observada não decorre de demanda aquecida nem de política monetária expansionista, mas de um choque de oferta. James E. Thorne, estrategista-chefe da Wellington-Altus, classificou o momento como um choque de crescimento disfarçado de inflação e disse que responder a ele com alta de juros seria um erro de política disfarçado de prudência. Na visão dele, a política monetária não deveria reagir de forma mecânica a um salto do índice de preços ao consumidor.

Alta de juros em choque de oferta é erro de política monetária

A mesma linha de raciocínio foi defendida por Mark Zandi, economista-chefe da consultoria Moodys Analytics, que usa como referência o manual clássico de política monetária: quando há um choque de oferta, a orientação é não responder. Em entrevista à CNN em 28 de julho, Zandi afirmou que seguir esse roteiro tem funcionado bem e que, no limite, o Fed não deveria elevar a taxa básica no atual estágio do ciclo.

A argumentação ganha força porque o avanço dos preços do petróleo também representa um imposto sobre famílias e empresas, reduzindo o poder de compra e a margem de investimento do setor produtivo. Uma elevação de juros, nesse contexto, não abriria rotas de navegação nem adicionaria barris ao mercado, mas poderia restringir ainda mais o crédito e aprofundar a desaceleração da atividade econômica. É por isso que os críticos enxergam um exagero na reação das curvas de juros e das bolsas aos dados recentes de inflação.

A discussão ocorre em um momento em que a macroeconomia global já convive com os efeitos do conflito no Oriente Médio. Ataques renovados entre Estados Unidos e Irã provocaram a maior troca de golpes desde julho, aprofundando o temor de interrupção no fornecimento de energia. A avaliação predominante, entre os que pedem cautela ao Fed, é de que o choque geopolítico tende a ser transitório e exatamente por isso não deveria pautar uma mudança estrutural de política monetária.

Correção atinge criptomoedas de forma desigual

O movimento de aversão a risco não poupou o mercado de criptoativos, mas atingiu os principais tokens com intensidades distintas. Solana e Tron recuaram mais de 3% nas últimas 24 horas, enquanto o XRP caiu quase 2% e o Bitcoin devolveu aproximadamente 1%. O Ethereum também apareceu entre as maiores quedas, acompanhando a deterioração do apetite por risco nos mercados globais.

Em meio à correção, os ETFs de XRP à vista nos Estados Unidos seguem uma trajetória oposta, com entradas de recursos pelo 11º dia consecutivo. Na terça-feira, os fundos captaram US$ 14,38 milhões adicionais, elevando o fluxo acumulado para cerca de US$ 1,68 bilhão, com o Goldman Sachs aparecendo como o maior detentor institucional. O dado sugere que, mesmo com o sentimento negativo no curto prazo, continua havendo demanda direcionada para exposição regulada a ativos digitais.

O contraste entre a queda das cotações e a manutenção dos fluxos institucionais reforça a tese de que parte relevante do capital alocado no setor opera com horizontes mais longos. Ainda assim, os participantes acompanham de perto o comportamento do dólar, que segue firme e pode limitar uma recuperação mais consistente do Bitcoin e das demais criptomoedas até a definição do Fed.

Sinal técnico do Bitcoin acende alerta no mercado cripto

No gráfico horário do Bitcoin, a análise técnica mostra um cruzamento abaixo da nuvem de Ichimoku, movimento que não era observado desde 17 de agosto, período anterior à forte alta que levou o ativo a buscar a região de US$ 80.000. Cruzamentos abaixo da nuvem são interpretados por parte dos operadores como sinal de reversão de tendência de curto prazo, o que abre espaço para novas quedas caso o cenário de petróleo e juros não arrefeça.

O indicador, criado pelo jornalista japonês Goichi Hosoda, combina médias móveis para mapear momentum, suporte e resistência em um único painel. A leitura atual sugere que a pressão vendedora ainda não se esgotou e que a sustentação do ativo dependerá da capacidade de o mercado absorver os próximos dados de inflação e as notícias vindas do Oriente Médio.

Até a reunião de 16 de setembro, o petróleo segue como o principal árbitro do humor dos mercados. Se os preços da commodity voltarem a subir, a probabilidade de alta de juros pode continuar avançando, mantendo o Bitcoin, o ouro e as bolsas sob estresse. Por outro lado, uma acomodação do conflito e dos preços de energia tende a reforçar o argumento dos que enxergam o atual aperto das condições financeiras como um erro a ser evitado.