
O índice que funciona como prévia mensal do Produto Interno Bruto (PIB) nas contas do Banco Central encerrou junho com retração de 0,6% frente a maio, um recuo mais intenso do que a perda de 0,5% projetada pelos economistas. O número reforça a leitura de desaceleração gradual da atividade e amplia a avaliação de que o Banco Central tem margem para seguir reduzindo a Selic, em um ambiente de juros altos, renda comprometida das famílias e inflação mais comportada.
Na comparação trimestral, o avanço do indicador entre abril e junho foi de apenas 0,2% ante os três primeiros meses do ano, uma desaceleração expressiva frente à alta de cerca de 1,3% observada no primeiro trimestre. Em relação a junho de 2025, o IBC-Br subiu 2,4%, o que mostra uma economia crescendo, porém com menos força. O resultado de junho também deixou um carregamento estatístico negativo de aproximadamente 0,4 ponto percentual para o terceiro trimestre, o que tende a limitar o ritmo do PIB entre julho e setembro.
Arrefecimento é disseminado e agro ameniza queda mais forte
A abertura setorial do IBC-Br indica que a moderação atingiu os principais segmentos da atividade. A indústria recuou 1,4% em junho, os serviços cederam 0,5% e os impostos caíram 1%, enquanto a agropecuária avançou 1% no período. Sem o efeito do setor primário, o índice teria contraído 0,9% na margem, evidenciando o papel de amortecedor do agro no cenário atual.
O detalhamento do Banco Central mostra que, na passagem do primeiro para o segundo trimestre, a agropecuária cresceu 0,3%, a indústria subiu 0,5% e os serviços recuaram 0,1%. Já em relação a junho do ano passado, o agro saltou 5,3%, indústria e serviços avançaram 2% cada, os impostos subiram 2,8% e o IBC-Br ex-agropecuária teve alta de 2,1%. No confronto do segundo trimestre com igual período de 2025, o IBC-Br total cresceu 1,5%, com agropecuária em 2,5%, indústria em 1,1%, serviços em 1,6%, impostos em 1,3% e o índice sem agronegócio em 1,4%. No primeiro semestre, a indústria sobe 0,8%, os serviços avançam 2%, o agro registra 1,1%, os impostos somam 1,2% e o IBC-Br ex-agropecuária, 1,6%; em 12 meses, os percentuais são 0,7%, 1,9%, 2,5%, 0,7% e 1,5%.
Para economistas do Goldman Sachs, o recuo de junho concentrou-se na indústria, com os serviços contribuindo de forma menor, enquanto o agro impediu um resultado ainda pior. André Valério, economista sênior do Inter, avalia que a atual fase da economia é mais dependente do setor externo, especialmente do agronegócio e da exploração de petróleo. Antonio Ricciardi, do Daycoval, pondera que, a despeito da revisão para cima da safra de milho, o agro não deve repetir o protagonismo de outros ciclos e tende a funcionar apenas como mais um componente de um ambiente de crescimento moderado em 2026.
Estímulos oficiais perdem força diante do aperto monetário
A leitura dos economistas sobre o segundo trimestre aponta para uma combinação de fatores opostos. No início do ano, a atividade foi impulsionada por medidas como a isenção do Imposto de Renda, o reajuste do salário mínimo e o aumento das transferências fiscais. A partir de abril, contudo, o efeito desses estímulos passou a ser crescentemente compensado pelo aperto monetário, trazendo o ritmo da economia de volta ao patamar observado no fim de 2025.
Para Antonio Ricciardi, a expectativa é que esse movimento continue ao longo dos próximos trimestres, com atividade mais modesta em função dos juros e dos efeitos defasados do conflito no Irã. Ele também avalia que a taxa terminal da Selic neste ano deve ser inferior à projetada anteriormente, justamente por causa do enfraquecimento do ritmo econômico. Alexandre Maluf, economista da XP, destaca que o mercado de trabalho ainda aquecido e as transferências fiscais seguem sustentando a renda real em ritmo sólido, mas os juros altos vêm reduzindo gradualmente o impacto desse suporte.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, afirma que o IBC-Br de junho antecipa parte relevante da composição do PIB do segundo trimestre, que deve ser marcada por forte desaceleração na margem. A leitura, segundo ele, é consistente com o quadro de aperto monetário atuando sobre o crédito e o consumo das famílias.
O impacto do IBC-Br nas projeções de PIB e na Selic
As projeções das instituições financeiras para 2026 seguem indicando crescimento mais contido. A XP mantém estimativa de alta de 2% para o PIB neste ano e de 1% para 2027. Outras casas trabalham com números entre 1,3% e 1,8%, com Goldman Sachs na ponta inferior, PicPay projetando 1,70% e Inter estimando 1,8%.
O arrefecimento da atividade também influencia diretamente a condução da política monetária. A percepção de que o aperto monetário já produz efeitos, combinada com surpresas benignas recentes na inflação, dá ao Copom mais segurança para seguir com cortes na Selic. O mercado já passou a precificar trajetória de afrouxamento: o Inter projeta a taxa básica em 13,25% ao ano no fim de 2026, enquanto o PicPay estima 13,50%.
Antes da divulgação do IBC-Br, o boletim Focus mantinha a mediana para a Selic em 13,75% pela segunda semana consecutiva. Os novos dados de atividade, portanto, ainda não estavam totalmente incorporados às expectativas do mercado e tendem a reforçar a aposta em uma taxa terminal mais baixa até o fim do ano.





