O pregão de renda fixa desta terça-feira, 11, iniciou sob dupla influência macroeconômica: a ata da última reunião do Copom, que detalhou o racional por trás do corte de 0,25 ponto percentual na Selic, e o índice de preços ao consumidor de julho. Investidores tentam extrair do conjunto de sinais a trajetória mais provável para a política monetária nos próximos meses, em um ambiente marcado por inflação acima da meta e expectativas ainda desancoradas.
Desinflação em curso sustenta decisão do Copom
Na ata divulgada nesta manhã, o Copom atribuiu a redução da taxa básica para 14% à continuidade do processo de desinflação. Os núcleos de inflação e o IPCA cheio seguem em trajetória descendente, mas o índice amplo ainda se mantém acima do teto da meta, o que justifica a cautela.
O documento também registrou moderação gradual da atividade doméstica, com desaceleração disseminada entre oferta e demanda na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Para o colegiado, esse arrefecimento é visto como passo necessário ao reequilíbrio da economia e à convergência da inflação no horizonte relevante.
Mesmo diante desse quadro, o BC classificou o ajuste como cauteloso. A sinalização é de que o ciclo de calibração será conduzido de forma parcimoniosa, dependendo da evolução dos dados, do comportamento da atividade e da reancoragem das expectativas.
Expectativas desancoradas ampliam prêmio na curva
As projeções de inflação coletadas pelo mercado seguem pressionadas: 5% para 2026 e 4,2% para 2027. O Copom reforçou que expectativas nesse patamar exigem uma política monetária mais restritiva por um período maior do que em cenário sem desancoragem.
O balanço de riscos permanece assimétrico para o lado altista. Entre os vetores de pressão, destacam-se a desancoragem prolongada das expectativas, a resiliência da inflação de serviços, a transmissão cambial de políticas externas e internas e estímulos à demanda acima do potencial produtivo.
No campo oposto, o comitê enxerga riscos de desaceleração doméstica mais intensa que a projetada, retração global mais severa e eventuais quedas nos preços de commodities. Esse conjunto explica por que o mercado mantém prêmios elevados nos vértices mais longos da curva.
IPCA de julho deve confirmar desaceleração na margem
A pesquisa Projeções Broadcast aponta mediana de alta de 0,03% para o IPCA de julho, ante avanço de 0,16% em junho. As estimativas dos analistas variam entre queda de 0,06% e alta de 0,22%, o que evidencia incerteza ainda relevante para a leitura do mês.
No acumulado de 12 meses, a mediana indica desaceleração para 4,40%, contra 4,64% no dado anterior. Se confirmado, o número reforçará a narrativa de desinflação em curso, mas a distância para a meta e o comportamento dos núcleos devem manter o Copom em posição vigilante.
A combinação entre ata e IPCA será decisiva para calibrar a inclinação da curva a termo. Um dado dentro do esperado tende a preservar a aposta em ritmo gradual de cortes, enquanto surpresas altistas poderiam recolocar prêmios nos juros futuros.
Cenário externo adiciona volatilidade ao radar de juros
Do lado internacional, o impasse entre Estados Unidos e Irã segue mantendo o Estreito de Ormuz fechado, o que sustenta a instabilidade no preço do petróleo. Pela manhã, a commodity chegou a subir mais de 1%, mas perdeu força e passou a operar em leve baixa, devolvendo parte do movimento.
Os rendimentos dos Treasuries recuavam nos vencimentos curtos e intermediários, com leve alta nos longos. Esse comportamento misto reflete incerteza sobre inflação global e crescimento e, ao mesmo tempo, alimenta cautela nos mercados emergentes.
Para o ambiente doméstico, o petróleo segue como canal de transmissão relevante para as expectativas inflacionárias, especialmente em combustíveis. A combinação de choque externo com política monetária restritiva tende a manter a inclinação da curva pressionada e o Copom ainda mais dependente dos próximos dados de inflação.
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