Os juros elevados nos Estados Unidos estão inviabilizando o crédito para reformas residenciais e empurrando os proprietários para uma escolha incômoda: adiar projetos e gastar apenas com manutenção. Segundo a CNBC, as taxas altas de financiamento imobiliário mantêm os americanos presos em casas antigas, sem condições de comprar outra e com acesso cada vez mais caro a empréstimos lastreados no valor do imóvel.
O home equity loan e a linha de crédito garantida pelo imóvel, a HELOC, eram historicamente a primeira opção para bancar uma obra. A reportagem da CNBC aponta que esses instrumentos ficaram caros demais. Mesmo assim, as originações de segundas hipotecas e HELOCs cresceram quase 20% no segundo trimestre deste ano na comparação com o primeiro — dinheiro que, segundo especialistas ouvidos pela CNBC, tem sido usado para manter as contas em dia, e não para reformar.
Crédito caro desacelera o consumo
Tom Graff, diretor de investimentos da gestora Facet, afirmou à CNBC que, conforme os juros sobem, acessar o valor acumulado no imóvel fica cada vez mais caro, o que tende a segurar o consumo das famílias e atinge com força justamente os itens de maior valor, como as reformas. O executivo lembra que a alta promovida pelo Federal Reserve para conter a inflação tem entre seus objetivos pressionar o gasto do consumidor — e que esse freio é parte desenhada da política.
O ponto fraco, segundo ele, é que a economia americana depende desse consumo, que já vem ficando para trás como motor do PIB. Graff citou à CNBC um mercado de trabalho fraco, crescimento salarial em queda, preços altos da gasolina e do diesel e imigração líquida negativa como fatores que reduzem a margem de segurança da atividade. Hoje, disse ele, o principal motor do PIB são os data centers, e uma desaceleração mesmo modesta desse investimento poderia levar a economia à recessão.
Manutenção em vez de reforma
Angie Hicks, cofundadora e diretora de clientes da Angi, plataforma que conecta proprietários a prestadores de serviços, disse à CNBC que os donos de imóveis estão segurando os projetos maiores. Segundo ela, quem tem uma hipoteca de 2% a 3% ao ano pretende mantê-la o máximo possível, e a faixa de 6% a 7% passou a ser considerada o novo patamar normal. Com isso, famílias estão ficando cerca de cinco anos mais tempo do que planejavam em suas casas.
A prioridade passa a ser o que não pode falhar: uma revisão da caldeira, por exemplo, em vez de uma cozinha nova. Dados da Angi mostram que 60% dos consumidores estão adiando projetos e migrando para a manutenção. Cozinhas e banheiros seguem como as obras preferidas, mas Hicks afirma que os proprietários trocam apenas puxadores ou pintam os armários — e não substituem todo o mobiliário, o item mais caro.
Os números do varejo confirmam a mudança de padrão. Philip Odelfelt, presidente-executivo da Datavations, empresa de análise de dados de pontos de venda, afirmou à CNBC que, entre setembro do ano passado e agosto deste ano, as categorias de reforma de maior valor caíram entre 10% e 28% na Home Depot e na Lowe’s, na comparação anual. As vendas de boxes, kits e cabines de chuveiro recuaram 21%, com as unidades vendidas caindo 28%. Banheiras tiveram queda de 10% em receita e 12% em volume. Torneiras de cozinha retráteis, com preço médio de US$ 147, caíram cerca de 3%.
O executivo destacou que a retração se acentua conforme o valor do produto aumenta: os chuveiros têm preço médio de cerca de US$ 700, enquanto as banheiras ficam em torno de US$ 309. Produtos de manutenção de menor valor sustentam as vendas totais, mas a produtividade por loja enfraquece mesmo nas categorias em que o faturamento parece estável.
Mark Ratchford, professor de comportamento do consumidor da Tulane University, disse à CNBC que muita gente faz a conta e desiste quando o custo do empréstimo é alto. Ele próprio afirma que precisa reformar a cozinha, mas não consegue bancar o projeto nas taxas atuais. “Vou apenas esperar, é o mercado inteiro agora”, afirmou. Segundo ele, o consumidor pula melhorias estéticas e faz só o necessário. O mercado de imóveis para reformar também sentiu o golpe, e o crédito obtido por meio do home equity, quando existe, tem ido para quitar dívidas de cartão de crédito.





