Os preços ao consumidor perderam força em julho, mas o Banco Central segue cauteloso com os próximos passos da Selic. Na terça-feira (11), o IPCA subiu 0,07% no mês, veio acima das expectativas do mercado, e o acumulado em 12 meses desacelerou de 4,64% para 4,44%. No mesmo dia, a ata da última reunião do Copom voltou a apontar as expectativas de inflação desancoradas como um obstáculo para acelerar a flexibilização da política monetária.

Os dois eventos ajudam a montar o mesmo cenário: a inflação corrente dá sinais de alívio, mas ainda há elementos que impedem uma leitura totalmente confortável para o Banco Central.

IPCA mostra desinflação, mas serviços seguem no radar

No detalhamento do IPCA, Alimentação e bebidas registrou deflação de 0,67% em julho, enquanto Habitação avançou 0,99%, pressionada pela energia elétrica. Na prática, os dois grupos praticamente se anularam no índice cheio.

Para André Valério, economista sênior do Inter, o resultado levou a inflação de volta para abaixo do teto da meta e teve composição qualitativamente benigna. O índice de difusão caiu de 54% para 50%, menor nível em um ano, sinal de que as pressões estão menos disseminadas entre os itens.

O alívio, porém, não é uniforme. O grupo de serviços acelerou de 0,33% em junho para 0,54% em julho, com parte relevante da alta concentrada em passagens aéreas. Mesmo excluindo esse componente, o ritmo dos serviços seguiu mais forte. Já os bens livres e industriais registraram deflação, indicando reversão das pressões de oferta observadas anteriormente.

Na avaliação do Inter, esse quadro abre espaço para a continuidade do ciclo de cortes da Selic. Com a atividade econômica em moderação e a desinflação ganhando força, a instituição projeta reduções de 0,25 ponto percentual em todas as reuniões restantes do ano e Selic de 13,25% ao final de 2026.

Ata do Copom divide economistas sobre o ritmo dos cortes

A leitura da ata da última reunião do Copom não é consensual. Para Yihao Lin, da Genial Investimentos, o documento foi mais dovish que o comunicado oficial e reforçou a visão de que o Comitê está mais inclinado a seguir reduzindo a Selic do que a interromper o ciclo. Na avaliação dele, a expectativa de arrefecimento da atividade e a ênfase em uma inflação corrente melhor indicam espaço para novo corte de 0,25 ponto percentual em setembro.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, adota leitura mais cautelosa. Para ele, a ata combina o corte da taxa básica com comunicação hawkish, ao reforçar que a política monetária precisa permanecer restritiva e que os próximos movimentos dependerão da evolução dos dados. O documento, na avaliação dele, não oferece indicação sobre magnitude ou calendário dos próximos passos.

Apesar das interpretações diferentes, há convergência em um ponto: a desancoragem das expectativas de inflação segue como uma das principais preocupações do Banco Central. A ata ressalta que esse cenário exige política monetária restritiva por mais tempo, o que funciona como um freio para uma flexibilização mais acelerada.

Para Lin, a ênfase do Copom na inflação corrente, em comparação com a desancoragem adicional das expectativas, especialmente para 2028, permite leitura mais favorável à continuidade dos cortes. Ainda assim, a melhora dos dados de inflação até setembro será importante para sustentar esse cenário. Oliveira, por outro lado, entende que a persistência das expectativas desancoradas reforça a necessidade de cautela e pode tornar o ciclo de flexibilização mais lento do que em episódios anteriores.