Em um movimento que reforça a estratégia de Pequim para sustentar o crescimento sem recorrer a estímulos agressivos, o Ministério das Finanças da China liderou uma injeção de 360 bilhões de yuans, cerca de US$ 53,6 bilhões, em três grandes bancos estatais e cinco seguradoras do país. O anúncio, feito neste domingo, veio acompanhado de uma reação negativa nos mercados: as ações listadas em Hong Kong das instituições beneficiadas fecharam em queda na segunda-feira, em um sinal de que investidores consideraram o pacote abaixo das expectativas. O Hang Seng recuou menos de 1%, mas papéis como os do Agricultural Bank of China caíram 2,7%, enquanto o Industrial and Commercial Bank of China recuou 2,3%. No setor de seguros, a China Taiping Insurance despencou quase 4%, e China Life Insurance e People’s Insurance Company of China recuaram mais de 2% cada.
Esta é a primeira vez que Pequim estende o mecanismo de recapitalização às seguradoras, um reflexo direto do aumento da pressão sobre a solvência dessas instituições em meio a um ambiente de juros persistentemente baixos. Segundo analistas, o reforço de capital também funciona como uma preparação das instituições financeiras para financiar o próximo ciclo de investimentos estratégicos da China, especialmente os volumosos projetos ligados a inteligência artificial e tecnologia avançada. O movimento ocorre depois de uma injeção de 500 bilhões de yuans em quatro grandes bancos estatais no ano passado e da promessa de emissão de 300 bilhões de yuans em títulos especiais do tesouro neste ano para recompor o capital dos maiores credores do país.
Detalhes do pacote e impacto no setor bancário
O Agricultural Bank of China e o ICBC, dois dos maiores bancos estatais do país, planejam captar até 160 bilhões de yuans e 100 bilhões de yuans, respectivamente, por meio de colocação privada de ações A para um grupo de instituições que inclui o Ministério das Finanças e a China National Tobacco Corp, além de suas subsidiárias. Os recursos, de acordo com comunicados divulgados no domingo, serão integralmente usados para recomposição de capital. Já o Export-Import Bank of China receberá uma injeção direta de 30 bilhões de yuans do Ministério das Finanças, com o objetivo declarado de fortalecer sua capacidade de “fornecer fundos à economia real e suportar riscos potenciais”.
O pacote, no entanto, veio em escala menor do que o mercado antecipava, conforme avaliação do Citibank. Para analistas do banco, o tamanho reduzido evidencia que as seguradoras chinesas estão em posição de capital mais saudável do que se imaginava, indicando baixa urgência para uma recomposição mais agressiva. Apesar disso, a capitalização dá aos bancos espaço para acelerar a alienação e a baixa contábil de empréstimos inadimplentes, o que pode compensar “potencial pressão sobre a qualidade dos ativos no futuro”, nas palavras de July Zhang, analista do Citibank.
Queda das margens e a pressão sobre os bancos
O setor bancário chinês enfrenta um aperto prolongado das margens, resultado direto da política de Pequim de manter o crédito barato para tomadores em dificuldade. As margens líquidas de juros — a diferença entre o que os bancos ganham em empréstimos e o que pagam em depósitos — caíram para mínimas históricas neste ano. A queda das taxas de mercado limitou a capacidade de recomposição de capital por meio de lucros retidos, tornando as injeções externas um instrumento essencial, explicou Bruce Pang, membro do Fórum de Chief Economists na China. Para ele, o movimento estatal reforça a capacidade de empréstimo dos grandes bancos estatais, permitindo um suporte financeiro de “maior qualidade” para a economia e setores prioritários.
Os bancos também devem se beneficiar de uma eventual redução da pressão por crescimento acelerado da carteira de crédito. Com a demanda por empréstimos ainda fraca, a prioridade de Pequim é o crescimento de qualidade, o que tende a aliviar a necessidade de expansão agressiva do balanço. A avaliação é de que a pressão de capital sobre os grandes bancos chineses pode começar a diminuir, segundo Zhang.
Seguradoras e a deterioração da solvência
A China Life, maior seguradora de vida do país, receberá 35 bilhões de yuans, enquanto a China Taiping Insurance terá acesso a 7 bilhões de yuans. A People’s Insurance planeja captar até 15 bilhões de yuans por meio de uma colocação privada de ações A para o Ministério das Finanças. A pasta também injetará 10 bilhões de yuans na Sinosure, seguradora estatal de crédito à exportação, enquanto a China Reinsurance Group levantará 3 bilhões de yuans.
As seguradoras chinesas têm visto seus índices de solvência se deteriorarem em ritmo acelerado, pressionadas por taxas de juros persistentemente baixas que reduzem a rentabilidade das carteiras. O índice de solvência do setor caiu para 180,6% ao final do segundo trimestre, ante 204,5% no ano anterior, embora ainda permaneça acima do mínimo regulatório de 100%. A inclusão das seguradoras no pacote de recapitalização sinaliza que Pequim enxerga riscos sistêmicos também fora do sistema bancário tradicional.
Impacto limitado na economia real
Apesar da magnitude do pacote, economistas alertam que o efeito de curto prazo sobre a atividade econômica deve ser bastante limitado. Larry Hu, economista-chefe para a China no Macquarie, argumenta que a restrição que impede uma expansão mais robusta do crédito não é a falta de capital nos bancos, mas a fraca demanda por empréstimos. O crescimento da segunda maior economia do mundo perdeu fôlego ao longo do terceiro trimestre deste ano, e o tom oficial de Pequim mudou para reconhecer as “dificuldades e desafios” da economia, uma inflexão em relação à linguagem anterior de que o desempenho estava “melhor do que o esperado”.
O suporte fiscal foi ampliado nos últimos meses, com aceleração das emissões de títulos do governo e maior aposta em projetos de infraestrutura. Ainda assim, Hu não projeta um grande pacote de estímulos. A expectativa é que as autoridades façam o suficiente para cumprir a meta de crescimento deste ano, com um estímulo incremental adequado, sem exageros. Para Gary Ng, economista sênior do Natixis, o colchão extra de capital pode vir acompanhado de uma pressão para que as instituições financeiras mobilizem recursos nos mercados de capitais, incluindo compras de títulos e ações.





