O Bank of America revisou para baixo suas estimativas para a economia brasileira e passou a enxergar uma desaceleração da atividade mais intensa do que projetava anteriormente. Em relatório assinado por David Beker, Natacha Perez e Gustavo Mendes, a instituição cortou a previsão do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026 e 2027 e reduziu também o patamar esperado para a taxa Selic nos próximos anos, conforme informação do InfoMoney.
Pela nova estimativa, o PIB brasileiro deve crescer 1,8% neste ano, ante projeção anterior de 2,3%. Para 2027, o banco trabalha com expansão de 0,9%, abaixo dos 1,3% estimados antes. No caso da Selic, a previsão de encerramento de 2026 caiu para 13,25%, contra 13,75% anteriormente, enquanto o número para o fim de 2027 foi reduzido de 12,75% para 11,25%. Para 2028, a estimativa passou de 11,75% para 11,25%.
Cortes de 25 pontos-base em sequência
O cenário-base do BofA agora prevê cortes de 25 pontos-base em sequência, em todos os encontros do Comitê de Política Monetária até dezembro de 2027 — movimento que, na projeção anterior, só começaria no segundo semestre de 2027. A revisão foi concluída em 8 de setembro, depois que o banco já havia ajustado sua previsão de inflação de 5,5% para 5,0% em 2026, na esteira de uma surpresa benigna do IPCA-15 e de um IPCA de agosto com dado deflacionário e núcleos em queda.
A instituição aponta que os dados recentes de atividade e inflação sustentam esse afrouxamento monetário, mas alerta que os riscos seguem inclinados a surpresas inflacionárias positivas. Entre as fontes potenciais de pressão estão choques climáticos ligados ao El Niño, a implementação da reforma tributária, ajustes nos preços domésticos de combustíveis, mudanças metodológicas na cesta do IPCA que podem ampliar o peso de serviços e medidas trabalhistas que elevariam custos em setores específicos.
Estoques sustentam o PIB do 2º trimestre
Na leitura do banco, o PIB do segundo trimestre de 2026 — divulgado no início de setembro — pareceu sólido à primeira vista, mas a composição do indicador revelou uma história distinta. Toda a expansão da atividade no período veio da expansão de estoques, que contribuiu com 0,9 ponto percentual, enquanto a demanda final subtraiu cerca de 0,4 ponto. A demanda doméstica ficou estável e as exportações líquidas tiveram contribuição negativa de 0,4 ponto percentual para o crescimento no confronto trimestral com ajuste sazonal.
O consumo privado, um dos motores recentes da economia ao lado das exportações, recuou 0,4% no confronto trimestral com ajuste sazonal — e isso apesar de uma série de estímulos pré-eleitorais, incluindo alta de 0,4% no consumo do governo e medidas de crédito voltadas a sustentar o ímpeto.
Indicadores de alta frequência já sinalizavam esse esgotamento. A produção industrial caiu 1,8% em junho na base mensal com ajuste sazonal, após recuo de 0,9% em maio; as vendas do comércio ampliado caíram 1,0% e 0,3% nos mesmos meses; e o setor de serviços ficou estável em junho, depois de contração de 0,24% em maio. O IBC-Br recuou 0,6% em junho, após estagnação no mês anterior. Em julho, a produção industrial e o setor de serviços voltaram a mostrar moderação, com variações de 0,2% e 0,0% na comparação mensal.
Crédito perde força e risco fiscal segue no radar
O banco também vê a desaceleração do crédito como sinal de fraqueza da atividade. O crédito corporativo vem perdendo ritmo desde meados de 2025, refletindo a maior sensibilidade das empresas a juros altos em comparação com as famílias. As medidas de estímulo do governo têm sido direcionadas sobretudo às pessoas físicas, com o consignado privado como iniciativa emblemática, mas o endividamento das famílias continua batendo recordes a cada divulgação de dados do Banco Central, o que sugere perda de força do canal do crédito como vetor de crescimento puxado pelo consumo.
Como evidência, o BofA cita a demanda abaixo do esperado pelo programa Move Brasil, que oferece subsídios para financiamento de automóveis. Segundo estimativas do próprio governo, apenas cerca de 20% da capacidade total de empréstimo do programa deve ser efetivamente utilizada, já que muitos tomadores não conseguem atender aos critérios de concessão dos bancos.
O banco ressalta que o ritmo da desinflação dependerá do arcabouço fiscal adotado após a eleição, ponto central para a macroeconomia brasileira nos próximos anos. Sem maior disciplina fiscal e reformas para conter o crescimento dos gastos obrigatórios, a demanda doméstica pode se manter mais resiliente, atrasando a convergência da inflação à meta e limitando o espaço para cortes de juros. Entre os principais riscos para as projeções, os especialistas citam a política econômica do próximo governo e um Real mais fraco caso os bancos centrais de economias desenvolvidas se tornem mais restritivos.
No cenário externo, uma política monetária mais restritiva em economias desenvolvidas tende a apertar as condições financeiras internacionais e limitar a apreciação do Real, retardando a desinflação via preços importados. Um ambiente externo mais favorável, por outro lado, facilitaria a convergência da inflação e reforçaria o caso para o afrouxamento. Ainda assim, o crescimento doméstico, a dinâmica dos preços e a política fiscal seguem como os principais determinantes da função de reação do BCB nos próximos trimestres.





