Mercadante fala sobre dividendos sem capitalização em evento do BTG Pactual
Aloizio Mercadante durante painel do Macro Day 26 do BTG Pactual

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que a distribuição de dividendos sem a devida capitalização está entre os fatores que contribuíram para as dificuldades financeiras de grandes empresas brasileiras. A declaração foi feita na segunda-feira, 31 de agosto, durante o painel “Investimento e Crescimento: Papel do Financiamento Público e Privado” do Macro Day 26, promovido pelo BTG Pactual.

Para Mercadante, as recuperações judiciais e extrajudiciais recentes não têm explicação única. Enquanto parte das companhias enfrentou problemas de gestão, outra foi atingida por mudanças estruturais em seus mercados ou pelo custo elevado do crédito. “Muitas empresas se apropriaram de dividendos e não se capitalizaram”, afirmou.

Comércio digital e juros elevados no centro das crises

Entre as mudanças estruturais citadas pelo presidente do BNDES está a transformação do varejo provocada pelo avanço do comércio eletrônico. “Há empresas que não perceberam a mudança do varejo, a entrada do comércio digital e as novas formas de competição”, disse.

Mercadante também argumentou que os juros elevados agravaram a situação de companhias que realizaram investimentos com base em um cenário econômico mais favorável. “Muitas empresas fizeram investimentos acreditando em uma trajetória e foram surpreendidas por uma taxa de juros muito elevada. Isso está pesando muito. Os juros estão fazendo estrago em muitas empresas. Precisamos de uma taxa de juros no padrão internacional. Esse precisa ser nosso compromisso como nação, para além da disputa eleitoral”, declarou.

BNDES age antes da recuperação judicial

Mercadante afirmou que o banco de desenvolvimento atua de forma discreta para encontrar soluções para empresas em dificuldade antes de uma eventual recuperação judicial. Ele citou a Braskem (BRKM5) e a Raízen (RAIZ4) como exemplos desse trabalho, sem revelar detalhes das negociações.

“Estamos trabalhando silenciosamente para encontrar soluções antes de a empresa entrar em recuperação judicial. Fizemos isso com a Braskem e com a Raízen para não chegarmos à RJ”, declarou.

A Braskem atravessa recuperação extrajudicial em meio a esforços para reorganizar dívida bilionária e reforçar a estrutura de capital. A Raízen enfrenta quadro de elevada alavancagem e busca reduzir seu endividamento.

Risco de contágio no sistema bancário

Para o presidente do BNDES, o aumento dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial demonstra que os juros elevados já pressionam os balanços das empresas. Ele ressaltou a solidez do sistema bancário, mas avaliou que a permanência das taxas atuais pode afetar também as instituições financeiras.

“O sistema bancário é extremamente sólido, mas, se os juros permanecerem nesse patamar, isso também vai chegar ao balanço dos bancos. E não há por que isso acontecer. Temos um sistema extremamente sólido”, afirmou.

Ajuste fiscal e compromisso nacional por juros menores

Mercadante afirmou que 93% do Orçamento federal é composto por despesas obrigatórias, o que limita a margem de atuação do Executivo. Na avaliação dele, mudanças estruturais nas contas públicas dependem de maioria no Congresso e de um pacto envolvendo Executivo, Legislativo, Judiciário, estados e municípios.

“Precisamos debater a questão fiscal além do óbvio”, disse. O presidente do BNDES citou a Previdência, as emendas parlamentares e o avanço dos precatórios como pontos que precisam entrar nessa discussão. Ele evitou indicar uma despesa específica a ser cortada e defendeu a construção de uma “consciência coletiva” em torno da necessidade de reduzir os juros.

Mercadante concluiu que uma taxa mais próxima dos padrões internacionais beneficiaria empresas, famílias e o próprio sistema financeiro. “Baixar os juros tem que ser um compromisso nacional. Isso é bom para a indústria, para os bancos e para as famílias”, concluiu.