O leilão de concessão dos serviços de água e esgoto em Rondônia, marcado para 29 de setembro, surge como um indicador crucial para o mercado de infraestrutura no Brasil. Com um contrato de 35 anos abrangendo 40 municípios, incluindo Porto Velho, e valor estimado em R$ 8,47 bilhões, o certame exigirá bônus de outorga mínimo de R$ 567 milhões. O evento ocorre em um momento de cautela entre os investidores, após uma sequência de licitações com baixa concorrência ou até mesmo desertas em 2024.

O cenário recente inclui a PPP de esgoto do Ceará, em julho, que recebeu apenas uma proposta para cinco lotes; o leilão da Paraíba, em maio, com oferta única da Acciona e deságio de 1%; e a licitação goiana, em março, cancelada por falta de interessados qualificados. Esse histórico reforça a percepção de que as grandes empresas do setor, como a Aegea, estão mais seletivas, priorizando retorno sobre o crescimento de portfólio, conforme análise de consultores ouvidos pelo mercado.

Modelagem da concessão plena como diferencial

A estruturação da licitação de Rondônia difere das recentes PPPs e concessões parciais ao adotar o modelo de concessão plena, no qual o operador assume integralmente os serviços de água e esgoto. Essa característica reduz riscos operacionais e de receita, tornando o projeto mais atrativo para players que buscam estabilidade. A inclusão da capital Porto Velho no pacote também é um fator positivo, contrastando com licitações anteriores que agruparam apenas cidades pequenas, elevando a complexidade logística.

Especialistas projetam a participação de dois a três concorrentes no leilão, um número moderado mas suficiente para gerar competição. Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon para Governo e Infraestrutura, indicou que o mercado não espera uma explosão de propostas, mas acredita que a atratividade do projeto garantirá lances qualificados. O aprendizado dos leilões passados, onde empresas menores entraram com agressividade, agora cede lugar a uma abordagem mais madura e focada em rentabilidade.

Estratégia da Aegea em meio à capitalização

A Aegea, controlada por Itaúsa, Equipav e GIC, é uma das favoritas naturais por já operar em cinco municípios de Rondônia. No entanto, sua participação não é certa: a empresa ficou de fora da segunda rodada da privatização da Copasa em junho e, recentemente, anunciou uma capitalização de R$ 1,5 bilhão a R$ 2,1 bilhões pelos acionistas para reduzir a alavancagem. Fontes próximas afirmam que os recursos não serão destinados a novos leilões, mas sim ao fortalecimento do balanço.

Esse movimento sinaliza que a Aegea prioriza a saúde financeira em detrimento da expansão agressiva, alinhando-se à tendência de seletividade do setor. Mesmo assim, a empresa deve avaliar cuidadosamente o projeto rondoniense, dado seu conhecimento prévio da região e a escala do contrato. A decisão final será um termômetro importante para as próximas licitações, como o Universaliza São Paulo e a PPP do Rio Grande do Norte.

Perspectivas para o setor de saneamento

O resultado do leilão de Rondônia deverá influenciar a modelagem de futuras concessões, especialmente diante da expectativa de que os próximos pacotes envolvam cada vez mais municípios de pequeno porte. A necessidade de ajustes nos contratos para torná-los viáveis financeiramente pode levar a mudanças nas estruturas de garantias e nos critérios de outorga. O mercado já projeta uma eventual relicitação da PPP de Goiás, com alterações para atrair investidores.

A retomada da confiança dependerá da capacidade dos governos estaduais de oferecer projetos com riscos equilibrados e retornos previsíveis. Nesse contexto, Rondônia funciona como um teste decisivo para o apetite do capital privado em infraestrutura básica, setor que demanda investimentos bilionários para cumprir as metas do marco legal do saneamento. macroeconomia