A demanda mundial por petróleo está a caminho de registrar sua primeira contração anual desde 2020, segundo o mais recente relatório mensal da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgado nesta sexta-feira. A projeção aponta para um recuo de 1 milhão de barris por dia (b/d) na comparação com 2025, reflexo direto dos impactos do conflito no Oriente Médio, que interrompeu o fluxo de exportações via Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global de hidrocarbonetos. A agência ressalta que a retomada gradual da oferta já está em curso, mas alerta que a escalada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã pode reverter esse movimento e aprofundar as incertezas sobre o equilíbrio do mercado.

A contração projetada para 2026 é descrita pela AIE como altamente assimétrica em termos regionais e por tipo de produto, uma vez que o fechamento do Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial — paralisou as exportações do Golfo Pérsico. Embora a agência trabalhe com a hipótese de um cessar-fogo e a reabertura gradual da passagem, o cenário se tornou mais nebuloso após novos ataques a navios na região, que reduziram o tráfego a um fio de água. A volatilidade geopolítica, portanto, continua sendo o principal fator de risco para as projeções de oferta e demanda.

Impacto do conflito no estreito de Ormuz

O fechamento do Estreito de Ormuz, desencadeado pela escalada militar entre EUA e Irã, provocou uma disrupção sem precedentes nas cadeias de suprimento de petróleo do Oriente Médio. De acordo com a AIE, a recuperação da produção e das exportações já começou, mas o ritmo é incerto e depende diretamente da evolução do cessar-fogo. A agência destaca que, mesmo com a retomada parcial, o mercado global de petróleo deve oscilar entre déficit e superávit ao longo do segundo semestre, com a balança pendendo para o excesso de oferta apenas se a trégua se consolidar e o fluxo pelo estreito for normalizado.

Analistas de mercado monitoram de perto os desdobramentos, uma vez que a interrupção das exportações iranianas e de outros países do Golfo elevou os prêmios de risco nos contratos futuros de petróleo. Apesar da perspectiva de superávit no curto prazo, a incerteza geopolítica mantém os investidores cautelosos, especialmente diante da possibilidade de novos ataques a embarcações, que já reduziram o tráfego no estreito a níveis mínimos. A AIE reforça que suas projeções são condicionais e podem ser revisadas caso o conflito se intensifique.

Cenário macroeconômico e perspectivas para o mercado

A contração da demanda global de petróleo em 2026 representa um choque para um mercado que vinha se recuperando gradualmente desde a pandemia. A AIE observa que a queda de 1 milhão de b/d é altamente concentrada em produtos e regiões específicas, com destaque para a redução no consumo de combustíveis para transporte e aviação no Oriente Médio e em economias asiáticas dependentes das importações da região. A agência também aponta que a desaceleração econômica global, agravada pelos custos elevados de energia, contribui para o enfraquecimento da demanda.

Para os investidores, o cenário impõe uma reavaliação das teses de alocação em commodities e ativos ligados ao setor de energia. A volatilidade nos preços do petróleo deve persistir enquanto não houver clareza sobre a reabertura do Estreito de Ormuz e a trajetória do conflito. A AIE, por sua vez, manterá seu monitoramento ativo, ajustando as projeções conforme os desdobramentos geopolíticos e econômicos. O mercado global de petróleo, portanto, segue em compasso de espera, com a oferta e a demanda equilibrando-se em uma corda bamba geopolítica.