
A dois meses da disputa presidencial e com a possibilidade de continuação do atual governo ganhando força nas pesquisas, o câmbio brasileiro passou a embutir um componente de risco eleitoral que até então estava subestimado pelos investidores. O movimento ganhou tração depois que duas referências importantes para o mercado, o banco americano JP Morgan e a provedora de índices MSCI, sinalizaram cautela com ativos brasileiros — uma piora na recomendação para o país no primeiro caso e a exclusão de um papel relevante da carteira Brasil no segundo.
Durante boa parte do ano, as posições compradas em real permaneceram elevadas, sustentadas por um cenário de juros altos e busca por carrego. Agora, porém, o quadro começa a mudar: relatórios recentes de bancos domésticos e estrangeiros indicam que as mesas estão reduzindo essas posições, combinando a percepção de risco político com a preocupação crescente com a trajetória fiscal de 2027. O efeito prático já aparece na cotação, com o dólar superando a média móvel de 200 dias, em torno de R$ 5,20, e acionando ordens automáticas de compra.
O movimento técnico por trás da pressão cambial
A leitura dos analistas é que o mercado entrou na campanha eleitoral ainda muito comprado em real, o que deixa a moeda vulnerável a ajustes bruscos. Dados da International Money Market (IMM) mostravam essas posições no percentil 99 dos últimos dez anos, enquanto levantamento do JP Morgan indicava o real no percentil 81 e como a segunda moeda mais comprada entre emergentes.
Com o início da campanha oficial e a consolidação da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas, os investidores começaram a desmontar essas apostas. O movimento é descrito como uma mudança de sentimento: fundos sistemáticos, gestores de recursos reais e fundos de hedge passaram a comprar dólar, enquanto as empresas seguem vendendo moeda americana — mas os fluxos de saída superam a oferta corporativa, intensificando a desvalorização do real.
Bancos estrangeiros e a recomposição de carteiras
O gatilho mais recente para a reprecificação veio das casas que são referência mundial na alocação de recursos. O JP Morgan piorou sua recomendação para o Brasil, e a MSCI anunciou a exclusão dos papéis da Stone da sua carteira relativa ao país, o índice MSCI Brazil. Para grande parte dos investidores institucionais, movimentos desse tipo funcionam como sinalizadores de risco e tendem a acelerar decisões de redução de exposição.
Além disso, o Tesouro Nacional vem enfrentando maior dificuldade para negociar papéis ligados à inflação, as NTN-B, e títulos prefixados, as NTN-F. Esse tipo de tendência normalmente começa na curva de juros e migra depois para o câmbio. A avaliação predominante é que o investidor está perdendo o apetite por comprar o futuro do país, o que explica a busca maior por LFTs, títulos indexados à Selic, em detrimento dos papéis de prazo mais longo.
O que diz o governo sobre o financiamento da dívida
Em resposta às dúvidas do mercado, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que o governo não tem dificuldade para financiar sua dívida pública. Ele argumentou que o Tesouro se prepara para formar um colchão de liquidez antes do ciclo eleitoral e classificou como natural a maior demanda por LFTs em períodos de incerteza política, como o atual.
A declaração, porém, não dissipou a desconfiança dos agentes financeiros. Na prática, a maior procura por títulos indexados à taxa básica de juros indica que os investidores esperam que o Banco Central precise agir caso a inflação volte a pressionar. Esse cenário ganha relevância em um momento em que a Selic está em 14% ao ano e o Copom deixou as portas abertas para interromper ou dar continuidade ao atual ciclo de afrouxamento monetário.
Pesquisas e volatilidade: o que esperar até outubro
Relatórios obtidos pela reportagem indicam que o real acumulou queda em torno de 2% na semana, com desempenho pior que o de outras moedas emergentes. A avaliação generalizada é que, se a vantagem do presidente Lula persistir ou aumentar nas próximas semanas, a volatilidade dos ativos locais tende a crescer ainda mais — especialmente porque o mercado já começou a cobrar o chamado “prêmio eleitoral” que antes considerava insuficientemente refletido no câmbio.
A questão fiscal permanece no centro das preocupações. Os analistas querem saber se um eventual governo reeleito conseguirá promover o ajuste necessário em 2027 ou se será preciso que os preços dos ativos sofram pressão para forçar a correção. Interlocutores da campanha à reeleição sinalizaram que a estratégia é evitar anúncios antecipados de projetos concretos de ajuste, mas não descartam enviar propostas estruturantes ao Congresso ainda em 2026, caso a vitória se confirme.
Com a campanha eleitoral oficialmente iniciada e as pesquisas sendo monitoradas de perto, o mercado se prepara para um período de maior oscilação. A combinação de posições ainda elevadas em real, fluxos de saída superiores à oferta corporativa de dólares e dúvidas sobre a política fiscal pós-2026 forma um cenário em que a moeda brasileira tende a seguir sensível aos movimentos políticos até a definição das urnas.





