
O setor de data centers surge como o principal catalisador do próximo ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil, com projeções de capex anual de R$ 100 bilhões caso os incentivos fiscais do Redata sejam aprovados. A expectativa é que a capacidade instalada salte dos atuais 750 MW para 3 GW até 2032, um movimento que pode redesenhar o mercado financeiro e a matriz de investimentos no País. Dados do Santander apontam que 23% dos executivos do setor veem os data centers como líderes dos aportes, superando rodovias e saneamento, ambos com 20%.
Segundo Luciano Fialho, vice-presidente da Scala Data Centers, a infraestrutura digital tende a ultrapassar todos os outros segmentos. ‘A infraestrutura digital vai ser maior que todas as outras. A tendência é ela começar a ultrapassar todos outros setores da infra’, afirmou. O executivo destacou que, embora os EUA permaneçam como principal destino de investimentos, limitações na oferta de energia abrem espaço para outras geografias, incluindo o Brasil, que possui sobra de energia renovável.
Demanda global por infraestrutura digital alimenta expectativas
O estudo da Apollo Global Management revela que os data centers voltados para hyperscalers receberam US$ 930 bilhões nos últimos seis anos, montante que supera os US$ 170 bilhões do Plano Marshall em quatro anos e os US$ 257 bilhões do Projeto Manhattan em 14 anos. Esse fluxo maciço de capital sinaliza uma mudança estrutural na alocação de recursos globais, com a digitalização e a inteligência artificial como vetores centrais. No Brasil, a perspectiva é que a demanda por processamento de dados, especialmente para treinamento de modelos de AI e redes sociais, possa ser atendida com a energia renovável disponível, desde que os custos se tornem competitivos.
Fialho estima que, sem desonerações, o custo de um data center nos EUA é cerca de 35% menor que no Brasil, em dólares. Essa diferença é um entrave significativo para atrair investidores internacionais, que buscam eficiência fiscal e operacional. O Redata surge como o instrumento para equalizar essa disparidade, isentando impostos sobre a importação de componentes-chave para o setor.
Redata: o gatilho para a competitividade brasileira
O Regime Especial de Tributação para Data Centers (Redata) foi proposto inicialmente por Medida Provisória, mas expirou em fevereiro sem aprovação. O texto foi reenviado ao Congresso como projeto de lei, já aprovado na Câmara e agora aguarda votação no Senado. Para Luciano Fialho, o Redata é ‘o mínimo’ necessário para o País ganhar competitividade. Sem ele, o avanço do setor no Brasil fica comprometido, relegando o país a um papel secundário no boom global de data centers.
Com a aprovação do regime, a capacidade instalada pode crescer de 750 MW para 3 GW em seis anos, representando um capex anual de R$ 100 bilhões, considerando o custo de US$ 50 milhões por MW. O executivo ressalta que, com incentivos adicionais, os valores podem ser ‘astronômicos’, transformando não apenas o mercado de infraestrutura, mas todo o mercado financeiro. ‘Se o Brasil fizer a lição de casa e se mostrar competitivo, aí os valores são astronômicos. Muda o mercado, inclusive o mercado financeiro como um todo’, afirmou.
Projeções de capacidade e impacto econômico
A pesquisa do Santander realizada durante evento de project finance revelou que o setor de data centers desponta como o principal segmento do próximo ciclo de investimentos, à frente de rodovias e saneamento. Esse diagnóstico reflete a percepção de que a infraestrutura digital será o motor do crescimento nos próximos anos, puxando investimentos em energia, construção civil e serviços associados. O potencial de R$ 100 bilhões anuais em capex representa um salto significativo na formação bruta de capital fixo do país, gerando empregos e renda em cadeias produtivas de alta tecnologia.
Além disso, a expansão dos data centers pode impulsionar a demanda por energia renovável, aproveitando a vantagem comparativa do Brasil em fontes como hidrelétrica, eólica e solar. A sobra de energia, combinada com a baixa latência necessária para aplicações de AI, posiciona o país como um hub potencial para hyperscalers, desde que a carga tributária seja reduzida.
Contexto global: investimentos bilionários em hyperscalers
O montante de US$ 930 bilhões investidos nos últimos seis anos em data centers para hyperscalers evidencia a magnitude do movimento global. Para efeito de comparação, o Plano Marshall destinou US$ 170 bilhões em quatro anos, e o Projeto Manhattan, US$ 257 bilhões em 14 anos. Esses números mostram que a infraestrutura digital já supera, em escala, os maiores projetos de reconstrução e desenvolvimento da história. O Brasil, no entanto, ainda precisa superar barreiras fiscais e regulatórias para capturar uma fatia desse fluxo.
A expectativa do mercado é que a aprovação do Redata no Senado ocorra ainda em 2026, desbloqueando um pipeline de projetos que pode transformar a paisagem econômica do país. Enquanto isso, executivos e investidores monitoram de perto as discussões no Congresso, cientes de que cada mês de espera representa uma oportunidade perdida no competitivo mercado global de data centers.





