O mercado global de veículos elétricos vive uma expansão sem precedentes, com vendas saltando mais de 150% na Austrália em abril de 2026 ante o mesmo mês de 2025 e crescendo 80% na região Ásia-Pacífico no primeiro trimestre, excluída a China, onde o ritmo já se estabilizou. Na América Latina, o avanço foi de aproximadamente 75%, enquanto na Europa o incremento ficou em quase um terço, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE). O diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, afirmou em maio que o recorde de vendas oferece alívio diante do maior choque de oferta de petróleo da história e que a queda nos preços das baterias tende a acelerar ainda mais o setor.
Apesar do boom, as baterias seguem como o componente mais caro e um dos principais pontos de vulnerabilidade dos elétricos, alvo de críticas recorrentes sobre riscos de incêndio e danos à infraestrutura viária.
Vendas globais de elétricos disparam em meio à crise energética
Os números da AIE mostram que a adoção de veículos elétricos ganhou força especialmente em regiões dependentes de petróleo importado. O avanço de 150% na Austrália reflete a busca por alternativas após os choques de preços provocados pela guerra no Irã. Na Ásia-Pacífico, excluindo a China, o crescimento de 80% indica que o movimento está se espalhando para economias emergentes. Birol destacou que as baterias mais baratas devem ampliar a competitividade dos elétricos, reduzindo a diferença de custo inicial para modelos a combustão.
Esse cenário positivo contrasta com as desconfianças que cercam a tecnologia das baterias, especialmente em relação à segurança e ao impacto socioambiental da extração de minerais.
Incêndios e desgaste de estradas: o que dizem os especialistas
Críticos apontam que baterias de íons de lítio podem pegar fogo e que incêndios em elétricos são mais difíceis de extinguir. No entanto, essa alegação ignora que veículos a gasolina têm propensão muito maior a incêndios, de acordo com análises técnicas. Outra crítica frequente é o peso elevado das baterias, que supostamente danificariam o asfalto. Especialistas contestam essa tese, afirmando que os caminhões de grande porte são os verdadeiros responsáveis pelo desgaste das rodovias.
A discussão sobre incêndios ganhou destaque na mídia, mas dados comparativos mostram que os riscos são gerenciáveis e que a indústria investe em sistemas de segurança para mitigar eventuais falhas térmicas.
Mineração de cobalto e os dilemas éticos
O cobalto, presente em muitas baterias, sempre gerou preocupações devido às condições de trabalho nas minas da República Democrática do Congo. Reportagens mostraram milhares de pessoas, incluindo crianças, trabalhando em ambientes poluídos e precários. Contudo, a composição química das baterias automotivas modernas migrou amplamente para o fosfato de ferro-lítio (LFP), que dispensa o cobalto. David McElrea, do Smart Energy Council, observa que celulares e laptops também contêm cobalto, e que a indústria de elétricos reagiu rapidamente às críticas, eliminando o mineral da maioria dos modelos atuais.
O professor de química Neeraj Sharma, da Universidade de Nova Gales do Sul, acrescenta que composições mais baratas, como as baterias de íons de sódio, estão chegando ao mercado, reduzindo ainda mais a dependência de materiais problemáticos. Os fabricantes se afastam do cobalto por ser caro, tóxico e envolver dilemas éticos.
Narrativas opostas sobre minerais críticos
Especialistas apontam uma guerra de narrativas em torno dos minerais críticos. O Fraser Institute, instituto canadense de orientação conservadora e favorável aos combustíveis fósseis, estimou em 2023 que seriam necessárias cerca de 400 novas minas para atender à demanda futura por veículos elétricos. O autor do estudo, Kenneth P. Green, defensor de combustíveis fósseis baratos, alertou que a produção mineral pode não acompanhar a demanda projetada.
Em contraponto, o relatório Global EV Outlook 2026 da AIE afirma que as reservas geológicas conhecidas são suficientes para a demanda de longo prazo, mesmo com a eliminação gradual dos carros a combustão. A agência ressalva que a forte concentração da produção de baterias na China representa riscos para as cadeias globais e defende a rápida expansão da reciclagem de minerais como forma de aumentar a transparência e a resiliência.
O futuro da transição energética
Para Vlado Vivoda, especialista em minerais críticos da Universidade de Queensland, nem toda crítica é coordenada ou feita de má-fé. Preocupações reais sobre extração, condições de trabalho e impactos ambientais existem e precisam ser endereçadas. Ele argumenta que a transição para uma economia de baixo carbono deve oferecer transparência nas cadeias de suprimento, algo muitas vezes ausente no setor de combustíveis fósseis.
Philip Newell, da coalizão Climate Action Against Disinformation, defende que as comunidades afetadas pela mineração sejam fortalecidas, com participação nos lucros e aplicação rigorosa de leis ambientais e trabalhistas. A resposta adequada, segundo Vivoda, não é romantizar a tecnologia limpa, mas comparar sistemas de forma honesta e administrar as novas cadeias melhor do que as antigas. Você pode acompanhar os desdobramentos e as principais notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.





