
A Suprema Corte das Ilhas Cayman determinou, na última sexta-feira, 7, a dissolução judicial da Titan Capital, veículo societário controlado por Daniel Vorcaro. A sentença atinge o núcleo patrimonial que orbitava o Banco Master e nomeou três liquidantes vinculados à Grant Thornton Specialist Services: John Royle, Margot MacInnis e Kevin Hellard. O processo corre em segredo de justiça, mas os desdobramentos já provocam impacto no mercado financeiro brasileiro e no cenário offshore.
Decisão da Suprema Corte e nomeação de liquidantes
De acordo com a decisão, a Titan Capital foi utilizada como instrumento para esvaziar o patrimônio do Banco Master e movimentar recursos de origem ilícita. Entre janeiro e julho de 2025, aproximadamente R$ 700 milhões em cotas de fundos de investimento do banco foram transferidos para a holding. O montante circulou por contas no exterior, sem registro adequado nas autoridades brasileiras, o que reforçou as suspeitas de lavagem de dinheiro.
A escolha da Grant Thornton Specialist Services para comandar a liquidação evidencia a complexidade do caso. Os liquidantes terão a missão de rastrear ativos, cobrar créditos e pagar credores em um emaranhado societário que envolve empresas nas Ilhas Cayman, no Reino Unido e no Brasil. A holding, que chegou a ocupar dois andares inteiros do chamado “prédio da baleia”, na Faria Lima, já não exibe a mesma estrutura de quando foi criada.
Esvaziamento patrimonial e o papel do Banco Master
Investigações conduzidas pelo Banco Central e pelo sistema judicial apontam que a Titan Capital funcionava como braço patrimonial do Banco Master. As transferências de cotas de fundos para a holding ocorreram de forma escalonada, entre janeiro e julho de 2025, sem que houvesse contrapartida clara. A operação levantou alertas nos órgãos reguladores, que começaram a monitorar os ativos de Vorcaro ainda no ano passado.
O movimento de esvaziamento não se limitou a fundos de investimento. A holding também acumulava participações em empresas de diversos setores, mas uma parcela relevante dos negócios estava diretamente ligada ao próprio Master. No período da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, o site da Titan listava 29 negócios, dos quais sete tinham relação direta com o banco. Essa interconexão levantou questionamentos sobre a real independência das operações.
Bloqueio no Brasil e recriação no Reino Unido
Em março de 2026, o Banco Central brasileiro determinou o bloqueio de bens da Titan Capital no país. A medida veio depois de uma série de indícios de movimentações atípicas. Contudo, apenas um mês após o bloqueio, uma nova empresa foi registrada sob a mesma razão social no Reino Unido. A recriação da holding fora do Brasil levantou suspeitas de que os controladores buscavam esquivar-se do alcance da Justiça nacional.
A nova Titan Capital no exterior não escapou, entretanto, da rede de credores. A Tether, empresa responsável pela emissão do dólar digital, entrou em maio com pedido de liquidação na Justiça das Ilhas Cayman. A empresa é credora da holding em aproximadamente US$ 300 milhões, o equivalente a R$ 1,5 bilhão. A movimentação da Tether demonstra que mesmo ativos digitais estão sendo usados para rastrear operações suspeitas.
Tether, Grupo Fictor e operações frustradas
A Tether figura como uma das maiores credoras da Titan Capital. O empréstimo de US$ 300 milhões foi concedido em condições ainda não totalmente esclarecidas, mas já era conhecido no mercado. A holding, que mantinha uma relação estreita com o grupo empresarial de Vorcaro, usou os recursos para financiar parte de suas operações. A falta de pagamento teria levado a empresa a acionar o tribunal de Cayman.
Além da Tether, o Grupo Fictor também aparece na trama. A empresa transferiu R$ 30 milhões à Titan menos de um mês antes de um acordo que acabou não se concretizando: a aquisição do Banco Master. O negócio, anunciado publicamente, foi vetado pelo Banco Central. Outra operação envolvendo o BRB, que demonstrou interesse na compra do Master, também foi barrada pelo regulador. Esses episódios ajudam a montar o cenário de instabilidade em torno da holding.
Desmonte do portfólio e negócios liquidados
Antes que a liquidação fosse determinada, parte do portfólio da Titan Capital já havia sido desmontada. Foram vendidos a operação do Fasano Itaim, a mineradora Itaminas e a participação na Light, negociada com o BTG. A Emae também foi vendida à Sabesp. No total, os ativos negociados com o BTG somaram R$ 1,5 bilhão, mostrando que a holding ainda tinha poder de fogo para gerar caixa, mas não conseguiu evitar o colapso.
Outros negócios, porém, não tiveram o mesmo destino. Alliança Saúde e Oncoclínicas entraram em recuperação extrajudicial, e a Ligga Telecom precisou vender ativos para recompor o caixa. A Titan Capital, que um dia foi símbolo de opulência na Faria Lima, agora enfrenta a dissolução definitiva. Você pode acompanhar os principais desdobramentos e as notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.





