A ideia de que a capital federal fala sem sotaque pode estar equivocada. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) identificou padrões recorrentes na fala de quem nasceu e cresceu no Distrito Federal, o que sugere a formação de uma variedade linguística com traços próprios, segundo reportagem de Amanda Cristina de Souza no Money Times. Em vez de ausência de sotaque, a hipótese dos pesquisadores é que a cidade desenvolveu características particulares a partir do contato entre influências de várias regiões do país.
Para chegar a essa conclusão, a equipe analisou gravações de 30 voluntários de 18 a 40 anos, todos nascidos no DF e filhos de pais que também nasceram lá. Os participantes passaram por entrevistas espontâneas e pela leitura de textos padronizados, entre eles a fábula O Vento Norte e o Sol, comum em estudos de fonética. O material foi processado no software PRAAT, que permite medir propriedades acústicas da fala, como duração dos sons, frequência, nasalidade e abertura vocálica.
Traços que se repetem
Entre os padrões observados nos voluntários, os pesquisadores citam o S no fim das sílabas, pronunciado sem o chiado típico de algumas regiões litorâneas, e o R com articulação mais suave do que em variedades mais marcadas do português. O coordenador do trabalho, Ronaldo Lima Júnior, pesquisador do Laboratório de Fonética do Instituto de Letras da UnB, disse em entrevista ao Correio da Manhã que a fala da capital “não imita nenhum outro, ele emerge do contato entre muitos”.
Próximas etapas
Conforme o Money Times, o trabalho é a primeira fase de um projeto mais amplo sobre a evolução da fala no DF: a equipe pretende reunir mais gravações nos próximos anos, a fim de acompanhar mudanças entre gerações de brasilienses. Os autores reforçam que a intenção não é classificar um modo de falar como melhor ou mais correto, mas descrever a variedade usada na capital. A hipótese central é que a convivência intensa entre pessoas de origens diversas enfraqueceu marcas regionais mais fortes e consolidou padrões comuns, o que ajudaria a explicar a percepção de neutralidade atribuída à fala local.





