segunda, 17 de junho de 2024
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Negócios com Propósito

Daniela Zuccolotto

Comunicadora social e publicitária, com extensão em Marketing e Pesquisa pela Universidade de Berkeley, Califórnia, e pós-graduação em Ciências Humanas pela PUC RS. Consultora de Branding & Business e de Gestão do Conhecimento. Founder e CEO da Middle-us – consultoria em Gestão da Longevidade e Diversidade Geracional para empresas.

Tem boi na linha

Um desalinhamento de expectativas se instaurou no ambiente de trabalho

31 maio 2024 - 13h08
Tem boi na linha

Empresas querem modelo presencial; profissionais querem flexibilidade e autonomia. Empresas precisam equacionar custos; profissionais esperam salários maiores. Trabalho e vida pessoal precisam de equilíbrio, mas nem todas as empresas entenderam ainda.

Esses e outros insights apareceram na pesquisa realizada pela Michael Page com mais de 10.000 profissionais na América Latina, chamada “TALENT TRENDS BRASIL 2024”.

Como o relatório bem resume, por um lado, os profissionais têm uma lista crescente de expectativas, que passam por salários competitivos e flexibilidade, e vão além. Por outro, as empresas enfrentam pressões significativas em um ambiente corporativo altamente dinâmico, maior demanda por controle de custos e pelo retorno ao modelo presencial. Vamos entender os dois lados:

 

1. Salários e Benefícios

52% dos brasileiros estão insatisfeitos com seus salários. Por outro lado, essa expectativa está desalinhada com os desafios econômicos enfrentados por muitos empregadores.

Visão dos profissionais: enquanto os salários diminuem, o custo de vida aumenta

Os funcionários esperam aumentos salariais que acompanhem o custo de vida e demonstrem reconhecimento a seu desempenho e dedicação. Procuram pacotes de benefícios mais robustos que incluam saúde mental, desenvolvimento profissional e, frequentemente, suporte para trabalho remoto (como ajuda de custo para internet e equipamentos).

 

Visão das empresas: precisam buscar maneiras de otimizar despesas sem comprometer a operação

As empresas reconhecem que o salário continua sendo o fator mais influente para atrair candidatos, mas enfrentam pressões para controlar custos, especialmente em um ambiente econômico incerto. Isso, por vezes, se reflete na extinção de cargos seniores e “juniorização” dos times, congelamentos salariais, benefícios reduzidos ou incrementos salariais modestos.

 

2. Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal

Quase 8 a cada 10 brasileiros consideram o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal como o fator mais importante em relação ao trabalho.

Visão dos profissionais: há vida fora do trabalho

O equilíbrio entre vida pessoal e profissional não é mais um benefício desejável, mas uma necessidade que afeta significativamente a satisfação no trabalho. Crescer profissionalmente às custas da piora da saúde mental não é mais um preço que a maioria se dispõe a pagar. Na pesquisa, 56% afirmaram que recusariam uma promoção a fim de preservarem seu bem-estar.

 

Visão das empresas: a saúde mental está diretamente relacionada à produtividade.

Cada vez mais empresas entendem a importância de construir uma agenda de ações que promovam a saúde mental e o bem-estar físico de seus colaboradores, porque um ambiente de trabalho saudável e equilibrado traz ganhos para todos. Mas nem todas.

Ainda existem muitas organizações apontadas como ambientes tóxicos, com exigências excessivas e falta de reconhecimento, comunicação ineficaz e falta de transparência, cultura de competição desleal e conflito, intimidação e assédio.

 

3. Autonomia e flexibilidade

72% dos profissionais que estão retornando ao escritório, devido à política da empresa, estão insatisfeitos.

Visão dos profissionais: essas mudanças impostas representam perda de qualidade de vida e de autonomia

Enquanto as empresas aumentam gradativamente os dias de trabalho presencial; a insatisfação dos profissionais cresce. Depois de experimentarem a flexibilidade do trabalho remoto, passaram a preferir modelos híbridos ou totalmente remotos, que permitem um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal, a redução de tempo e custos com deslocamento e maior autonomia para gerenciar seus próprios padrões de trabalho em certa medida.

 

Visão das empresas: a cultura organizacional e o engajamento ganham com o trabalho presencial

A pressão pelo retorno ao modelo presencial geralmente vem com os argumentos de que a colaboração e a cultura organizacional são mais bem fomentadas quando todos estão fisicamente presentes. Que o trabalho presencial melhora a comunicação e a inovação e pode facilitar a supervisão e a gestão de equipes, o acesso a recursos e segurança de dados e a integração entre os times.

Pontos de vista diferentes que precisam ser ouvidos e debatidos para que novas soluções surjam desse entendimento. Equacionar tensões e alinhar novamente as expectativas é vital para as empresas e para os profissionais, que têm (todos) um grande trabalho pela frente.

 

A opinião e as informações contidas neste artigo são responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a visão da SpaceMoney.