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Os eventos de 2020 que representam o zeitgeist - Parte 1

Em retrospectiva, autor comenta os principais destaques políticos e econômicos do ano passado e os relaciona ao “espírito” do nosso tempo

18 janeiro 2021 - 14h00
Os eventos de 2020 que representam o zeitgeist - Parte 1

Zeitgeist /ˈtsītˌɡīst,ˈzītˌɡīst/. Palavra alemã que significa "o espírito ou humor particular de um determinado período da história, demonstrado pelas ideias e crenças daquele tempo".

Ao longo de 2020, reuni diversos artigos que me chamaram a atenção. Passei as últimas semanas revendo o que tinha acontecido, e compilei num texto, junto aos meus comentários, os temas que mais me chamaram a atenção. 

A pandemia

O fechamento de Wuhan e de diversas metrópoles chinesas ao longo da virada de 2019-2020 suscitou alguma preocupação, mas a opinião geral era de que essa epidemia seria mais um surto local e controlável, como o SARS em 2003, a Ebola em 2013 e a gripe suína em 2009. No ocidente, se comentava de como as quarentenas China afora pareciam uma medida excessivamente exagerada.

No fim de janeiro, os dois primeiros casos foram identificados na Itália. Com o mundo ainda conhecendo pouco a respeito dos protocolos de tratamento para o vírus, o que acabou acontecendo foi o colapso completo dos sistemas de saúde no país. O drama foi pincelado por relatos de horror dos médicos italianos, dizendo que dada a insuficiência de respiradores, tinham que escolher quem iria sobreviver.

Em fevereiro, o Planalto decidiu resgatar os brasileiros que estavam em Wuhan, como estavam fazendo muitos outros países. Repatriou em um avião da FAB 34 nacionais, que ficaram em quarentena por 18 dias em Anápolis (GO).

"Só de estar longe da situação de risco já sinto um alívio muito grande". (Adrielly Eger, uma das brasileiras resgatadas pela operação)

O alívio de Adrielly acabou durando pouco. No fim de fevereiro, um homem de 61 anos foi o primeiro caso confirmado no Brasil. Recém-chegado da Itália, havia reunido sua família de 30 pessoas para um almoço no dia anterior. Não tardou que fosse confirmado o segundo caso. A evolução, a partir de então, foi exponencial.

Na primeira quinzena de março, o número de novos casos diários ultrapassou uma centena. Na segunda quinzena, foi constatada a primeira morte pela covid-19. No início de abril, os novos casos diários chegaram a um mil. Em maio, já eram quase 100 mil casos no total. No dia 19 de junho o Brasil atingiu a marca de um milhão de casos e, dois dias depois, o número de óbitos acumulados ultrapassou a marca de 50 mil.

Algumas cidades chegaram a apresentar colapso no sistema de saúde. A falta de respiradores em algumas capitais, como Manaus, fez explodir o índice de fatalidade da doença. Os serviços funerários municipais se viram diante de uma crise sem precedentes. A instalação de câmaras frigoríficas se fez necessária em alguns cemitérios, para preservar os corpos por mais tempo diante da incapacidade de se enterrar um volume tão grande de corpos em tão pouco tempo. No fim, a solução encontrada foi recorrer ao enterro em valas comuns.

"Querem enterrar vários corpos. Um em cima do outro. Não há respeito algum. Disseram que não tem espaço e a única saída é enterrar os corpos empilhados. Me sinto humilhado, desprezado pelo Poder público". (Leonardo Garcia, que aguardava no cemitério para enterrar seu pai)

Os meses se passaram e o número de novos casos arrefeceu ao longo do segundo semestre, para voltar a acelerar no fim de 2020. O anúncio da eficácia de diversos modelos diferentes de vacina permitiu algum horizonte de retomada da normalidade ao longo de 2021.

O legado da pandemia, no entanto, não irá passar. O sofrimento, em termos de vidas, foi incalculável. As mudanças de paradigma trazidas também pela nossa resposta, como sociedade, certamente irão marcar nossa trajetória por muitos anos à frente.

Wirecard e investigadoras de fraudes

Em 1999, empreendedores alemães fundaram a Wirecard, uma empresa que oferecia serviços de pagamentos para negócios virtuais. Após o estouro da bolha "dot-com", quase faliram. Foram salvos (?) ao serem recapitalizados pelo investidor austríaco Markus Braun, que se tornou CEO.

Em 2005, a Wirecard acabou listada na DAX, a bolsa alemã, por meio de uma listagem inversa. Basicamente, a companhia comprou a Infogenie, que já era listada, e se tornou pública dessa maneira. Apesar de listagens inversas serem relativamente comuns, são comumente criticadas por contornar o moroso e burocrático processo de transparência exigido de empresas que se tornam pública por meio de um IPO normal.

A empresa cresceu atendendo clientes que eram indesejados pelas grandes instituições financeiras, como estúdios e serviços de pornografia e sites de apostas. Mas, gradativamente, diversas companhias de reputação ilibada se associaram a Wirecard.

Capitalização de mercado da Wirecard, até o 3º trimestre de 2018 (escala log) 

(Imagem: KoyFin)

O crescimento rápido atraiu escrutínio, e a partir de então uma série de questionamentos saiu na imprensa, especialmente no Financial Times. Em 2015, o jornal questionou um suposto rombo de 250 milhões. A empresa respondeu com cartas de um escritório britânico de advogados, e na sequência anunciou a maior compra de sua história, de negócios de pagamentos indianos, no valor de 340 milhões.

Uma série de alegações estranhas continuou a envolver o nome da empresa ao longo dos anos seguintes, todos envolvendo, de alguma forma, acusações de lavagem de dinheiro. A companhia continuava a reportar crescimento. Em 2018, afirmou que tinha 5000 empregados, com clientes renomados como os grupos varejistas alemães Aldi e Lidl, além de cerca de 100 companhias aéreas. O valor de mercado da Wirecard atingiu 24 bilhões, e a empresa substituiu o Commerzbank no prestigiado índice DAX 30, tornando-se investida por parte de fundos de pensão mundo afora.



Foto: Wikimedia Commons

O que se sucedeu depois irá entrar para os anais da história dos mercados. Em 2019, a polícia de Singapura faz uma operação de busca e apreensão nos escritórios locais da Wirecard, sua sede de operações asiáticas. A empresa processou as autoridades do país, e ainda conseguiu uma injeção de 900 milhões por parte do SoftBank, o que soou como um enorme voto de confiança. Mas os problemas não se encerraram aí. As alegações continuaram ao longo dos próximos dois anos, e no começo de 2020, o regulador alemão baniu o short selling as vendas a descoberto empreendidas com ações da companhia.

Em junho de 2020, a Wirecard deveria publicar seus resultados auditados para 2019. Ao invés disso, anunciou que 1,9 bilhões aparentemente tinham sumido. Dias depois, o CEO Markus Braun foi preso e a empresa entrou com pedido de falência.

Capitalização de mercado da Wirecard, até o fim de 2020: de 24 para 0,038 bilhões (-99,84%)

(Imagem: KoyFin)

Mas a dramática implosão da Wirecard não deixou em seu rastro apenas miséria, como o que ocorreu com Masayoshi Son e os demais investidores do SoftBank. Desde 2015, havia short sellers ativistas e vocais.

"Bons short sellers precisam ser capazes de aguentar muita dor, e olhar para onde ninguém mais está olhando. É necessário um ceticismo natural" (Fahmi Quadir, investidora)

Uma das grandes estrelas e vencedoras na história da destruição da Wirecard foi a jovem gestora de fundos Fahmi Quadir. Com apenas 28 anos, e filha de bengalis, nunca se imaginou trabalhando em Wall Street, dadas suas posições políticas e ideologias pessoais.

Formada em matemática e biologia, começou a trabalhar em uma consultoria especializada em inteligência para grandes empresas farmacêuticas e de biotecnologia. Foi ali que ela começou a suspeitar que a Valeant, a gigante farmacêutica, estava se engajando em práticas antiéticas e possivelmente até fraudulentas. Apresentou suas suspeitas a um gestor de fundos que, a partir de então, montou uma grande posição vendida nas ações da empresa. O preço dos papeis despencou em cerca de 90%. Quadir se tornou uma mini-celebridade, estreando inclusive em uma série documental da Netflix, Dirty Money.

Quadir descobriu, com a queda da Valeant, um talento natural para identificar fraudes. E se fosse possível expor grandes falcatruas corporativas, ajudando a trazer justiça e extirpar o comportamento antiético de empresários traiçoeiros, ganhando (muito) dinheiro ao fazê-lo?

Sua maneira de enxergar Wall Street mudou completamente, e a jovem matemática estruturou seu próprio fundo de investimento, focado em vendas a descoberto. Batizou a empresa como Safkhet a deusa egípcia da sabedoria. Colocou sua venda a descoberto de Wirecard no começo de 2018, e em 2020, certamente essa posição foi uma das maiores contribuições de retorno do fundo.

"Existem maneiras muito mais fáceis de se fazer dinheiro do que vendendo a descoberto especialmente com o tamanho das posições que a Safkhet monta. Mas eu acabo tendo uma satisfação moral de fazer assim" (Fahmi Quadir)

Renascença cripto

O ano de 2020 começou enfadonho para os investidores em criptoativos. Já fazia alguns anos desde a febre que acometeu os mercados em 2017, quando o Bitcoin disparou de cerca de US$ 1000 para pouco menos do que US$ 20000.

Desde que a febre passou (violentamente, diga-se de passagem), com o Bitcoin lentamente se acomodando abaixo de US$ 4000, muita coisa aconteceu no ecossistema. Novos projetos gradativamente se formaram, a volatilidade de diversos criptoativos diminuiu, a regulação avançou e o sistema finalmente permitiu que os investidores institucionais se sentissem seguros para acomodar criptoativos em suas carteiras de investimento.

2020 nasceu com uma grande expectativa: o 'halving' da Bitcoin. O halving é um evento que ocorre a mais ou menos cada quatro anos, quando a emissão de novas Bitcoins cai pela metade, rumo a uma emissão cada vez menor até que se atinja o número máximo de Bitcoins possíveis de existir pelo protocolo atual, que é de 21 milhões de moedas.

"Para 2020 o principal ponto é a expectativa do efeito que o ajuste de recompensa dos mineradores, conhecido como 'halving' e previsto para março, terá sobre as cotações. A expectativa é que a diminuição na oferta de novos bitcoins tenha impacto no preço" (Safiri Felix, diretor da Associação Brasileira de Criptoeconomia)

O que aconteceu, em vez disso, foi a pandemia. Junto com todos os demais ativos, o Bitcoin veio rapidamente de cerca de $ 10000, no final de fevereiro, para a mínima, abaixo de $ 4000, em meados de março. No entanto, ao longo dos meses seguintes recuperou os patamares anteriores. O 'halving' passou, em meados de maio, e o Bitcoin mal se mexeu.

O Bitcoin no começo de 2020

(Imagem: TradingView)

Mas a pandemia continuou a avançar. Governos mundo afora decretaram lockdowns, e anunciaram estímulos monetários e fiscais absolutamente extraordinários, fora da proporção de qualquer padrão histórico. O governo dos Estados Unidos gerou o maior déficit em sua história, como proporção do PIB, desde a 2ª guerra mundial. A dívida pública americana atingiu mais de 100% do PIB pela primeira vez.

Déficit fiscal projetado em USD - $3.8 trilhões representa 19% do PIB de 2020

(Imagem: CRFB)

Nesse contexto, alguns investidores começaram a se preocupar com a viabilidade do Dólar Americano (e de outras moedas nacionais) como reserva de valor. Se o governo se tornou leniente com o valor de sua moeda, acumulando uma dívida "irresponsável", não havia alternativa aos poupadores senão fugir para ativos reais. No cardápio: bens imóveis, ações, ouro e... Bitcoin?

Em 11 de Agosto, a MicroStrategy, uma empresa listada na Nasdaq, anunciou que havia comprado 21,454 Bitcoins por US$ 250 milhões, como uma alternativa para proteger sua grande posição de caixa de uma eventual depreciação da moeda.

"Esse investimento reflete nossa crença de que o Bitcoin, como a criptomoeda mais amplamente utilizada do mundo, é uma reserva de valor confiável e um atraente investimento com mais potencial para apreciação, no longo prazo, do que carregar caixa". (Michael Saylor, CEO da MicroStrategy)

Desempenho da MicroStrategy (roxo), Bitcoin (laranja) e Nasdaq (azul) ao longo de 2020

(Imagem: TradingView)

A aposta de Michael Saylor foi certeira. Deixando seus pares para trás, sua companhia encerrou o ano valendo US$ 3,6 bilhões mais do que o dobro de seu valor no início de 2020. O CEO da MicroStrategy foi muito bem acompanhado: a Square também acumulou Bitcoin como "caixa", investidores renomados como Paul Tudor Jones e Stanley Druckenmiller também embarcaram na tese, e grandes gestoras como a Renaissance, a AllianceBernstein e a Guggenheim passaram a investir. Se, em 2017, a "bolha" do mundo cripto foi inflada pelo investidor de varejo, 2020 foi o ano no qual o investidor institucional resolveu embarcar na tese. 

A tese de que o Bitcoin é o "novo ouro" ganhou, em 2020, cada vez mais força. Enquanto o metal dourado tem um registro de 3000 anos como reserva de valor, seu estoque não é exatamente estático. São muitas as mineradoras de ouro no mundo, e estima-se que o estoque global aumente em 1,25% ao ano. Para piorar, o ouro é caro de se armazenar, é de difícil transferência, é facilmente confiscável e dificilmente divisível. O Bitcoin supera o ouro, como reserva de valor, em todos os aspectos mencionados anteriormente. E superou em desempenho em 2020 também.

"Quando a riqueza for passando para as mãos de pessoas mais jovens... moedas digitais irão ganhar preferência, relativa ao anacrônico ouro". (Gestores do SkyBridge Bitcoin Fund, provavelmente um pouco enviesados)

Por outro lado, não é como se o governo não pudesse fazer nada contra os investidores em Bitcoin. Não é do interesse de nenhuma autoridade monetária permitir alguma competição à moeda nacional. Os investidores em Bitcoin (e outros criptoativos) desfrutam de muita liberdade, em termos de transferência de reservas e capacidade de manterem valores ocultos aos olhos dos Fiscos nacionais. Certamente todas essas facilidades não escaparão de maiores tentativas de regulação e controle no futuro. 

Foto:André François McKenzie em Unsplash.

A renascença dos criptoativos de 2020 não se limitou ao Bitcoin. O ano fez florescer outras iniciativas dentro do campo. O DeFi (decentralised finance), um tipo de iniciativa que permite aos participantes do mercado tomarem e emprestarem recursos, com garantia, sem qualquer tipo de intermediário, também viu sua adoção aumentar exponencialmente ao longo do ano. As bolsas, tanto centralizadas quanto descentralizadas, se beneficiaram enormemente da explosão de liquidez que tivemos no ano passado especialmente a Binance, a maior de todas.

"Agora, estamos vendo mais usuários chegando, uma maior adoção acontecendo e maior participação institucional. No geral, eu diria que tudo vai muito bem". (Changpeng Zhao, CEO e fundador da Binance) 

 A discussão sobre a possibilidade de Bitcoin tornar-se um "ouro digital" é, nesse momento, quase secundária. O que parece real é que os criptoativos, como classe de ativo, definitivamente vieram para ficar.

Dave Portnoy, Robinhood e day traders

Em 2018, uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos pontuou que apostas em esportes não seriam ilegais, deixando a competência sobre sua regulação nas mãos dos Estados da União. A empresa de mídia digital focada em esportes e cultura pop, a Barstool Sports, decolou. No começo de 2020, a Penn National Gaming, uma operadora de cassinos, avaliou a Barstool a US$ 450 milhões, adquirindo uma fatia majoritária no capital da empresa e tornando seu fundador, David Portnoy, multimilionário no processo.

Quando a pandemia começou e os esportes foram cancelados, Portnoy ficou entediado. Não tinha mais onde apostar. Mas então olhou para o mercado de ações e depositou US$ 3 milhões em sua conta pessoal, em uma corretora de baixo custo. Era para lá que iria direcionar suas apostas. Passou a fazer o streaming ao vivo de suas operações todos os dias, num programa chamado "Davey Day Trader Global", enquanto durasse a quarentena. E pontificou: "para ser muito claro, eu faço zero ideia do que estou fazendo". Sua conta no Twitter tem hoje quase 2 milhões de seguidores.

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David Portnoy, multimilionário e entediado. Foto: Zach Catanzareti Photo, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

"Tenho certeza de que Warren Buffett é uma ótima pessoa, mas ao se tratar de ações, ele já era. O capitão agora sou eu." (David Portnoy)

Mas não foi apenas Portnoy quem se viu, de repente, sem muito o que fazer durante a quarentena. Jennifer Chang foi outra que começou a investir em 2019, mas durante a pandemia resolveu se arriscar com opções, após ter perdido seu emprego.

"Com opções, você pode fazer dinheiro muito mais rápido. Então eu estava tendo dias nos quais ganhava 1000 dólares por dia, e um dia eu fiz 10000 dólares. Daí eu comecei a ficar bem arrogante, e nem pensava que poderia perder tanto dinheiro. Então, um dia, quando tivemos uma queda bem grande, perdi tudo o que tinha ganhado." (Jennifer Chang) 

Junto a Chang e Portnoy, milhões de investidores, entediados ou atrás de dinheiro fácil, às vezes tirando dinheiro da própria poupança ou com o auxílio do governo, abriram contas em corretoras de baixíssimo custo (ou gratuitas) para ganharem dinheiro operando. Como quem não tem cão caça com gato, quem não tem cassino visita a bolsa de valores.

 Um dos destinos mais comuns desses novos traders é o aplicativo Robinhood. Suas vantagens são muitas, como zero corretagem e sem saldos mínimos para operação. Fundada em 2013, na esteira dos protestos de "Occupy Wall Street", a corretora startup estava perfeitamente posicionada para se beneficiar deste movimento.

Como outras nativas do Vale do Silício, a companhia absorveu algumas táticas de outras gigantes de tecnologia, e "gamificou" a experiência do usuário, com incentivos de comportamento e notificações no celular. A experiência deu certo, e os dados indicam que, na média, os investidores do Robinhood negociam produtos mais arriscados e em maior velocidade que seus pares.

Apesar do nome, por incrível que pareça, a startup não se motiva pelo altruísmo do Robin Hood da lenda original. A Robinhood moderna busca lucros, e vultuosos. Pela estrutura do mercado, ao invés de executar as ordens dos trades a mercado, a companhia as vende para grandes provedores de liquidez, como a Citadel Secuties e a Virtu Financial, que pagam milhões de dólares pelo privilégio de executá-las internamente. Quando há um spread entre a melhor compra e a melhor venda, os compradores das ordens os executam nos melhores preços possíveis para eles e embolsam a diferença.

De qualquer maneira, todos estavam felizes: os novos investidores operavam "de graça" (ou assim pensavam), e a Robinhood e os provedores de liquidez estavam ganhando dinheiro. Isto é, até que algo terrível aconteceu. Com uma forma muito pouco clara de mostrar aos clientes sua real exposição, um jovem americano, dispensado da faculdade, foi levado a entender que suas apostas com derivativos haviam gerado uma dívida de mais de US$ 700 mil com o mercado. Exasperado com a situação e imaginando-se sem saída, com apenas 20 anos, Daniel Kearns optou pelo suicídio.

"O Robin Hood também era um terrorista mas ele tinha algum estilo e um pouco de classe." (Wilbur Smith, em uma definição mais moderna sobre o Robin Hood)

Aqui também, em terras tupiniquins, os brasileiros resolveram colocar os dois pés na bolsa em 2020. Se em 2019 eram 1,6 milhões de CPFs cadastrados na bolsa, esse número subiu para 3,2 milhões no fim do ano passado. O antigo sonho do ex-presidente da Bovespa Edemir Pinto, de 5 milhões de CPFs, se torna cada vez mais próximo.

Aqui também, o apetite pelo day trade em 2020 ficou cada vez maior. Se em 2013 apenas 9,5% do total de investidores haviam feito pelo menos um day trade no ano, em agosto de 2020 essa cifra era de 19,4% - sobre uma base de investidores 6x maior. Não é surpreendente: com a taxa básica de juros a míseros 2% anuais e mais tempo livre nas mãos, é tentador tentar ganhar algum dinheiro a mais no mercado. 

"O aumento não aconteceu só pela pandemia, mas potencializou. Em um momento difícil as pessoas acabam buscando alguma forma de renda." (Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos)

 

Mas dá dinheiro?

De todos os 98.378 indivíduos que começaram a fazer day trade com ações no Brasil entre 2013 e 2016, e operaram até 2018, 99,4% desistiram antes de completarem 300 dias de operações. Apenas 127 indivíduos foram capazes de apresentar lucro bruto diário médio acima de R$ 100 por mais de 300 pregões.

"O resultado desses investimentos não é muito bom." (eufemismo do ano, proferido por André Passaro, gerente da CVM)
 

Acredita-se que esse apetite todo possa ter levado muitos investidores do varejo a procurar opções de algumas "barganhas" que surgiram ao longo do curto bear market da pandemia. Cogna foi uma favorita: dramaticamente afetada pela quarentena, carregava uma dívida alta e passava pelo processo de oferta de uma de suas controladas, na Nasdaq.

Muitas pessoas físicas viram aí uma oportunidade óbvia, e colocaram quantidades significativas de dinheiro em opções de compra fora do dinheiro, levando a volatilidade implícita de muitos derivativos a níveis estratosféricos. Ao fim, Cogna voltou a cair, e quem acabou fazendo a banca foram os investidores institucionais que estavam na contraparte da operação.

O Ano do Rato

O ano de 2020 foi, segundo o calendário chinês, o Ano do Rato. Ratos são animais de pensamento rápido, repletos de recursos. Na interpretação tradicional chinesa, são espertos e capazes de tomar proveito das oportunidades que surgem.

Para além de abrigar a cidade que originou a pandemia do coronavírus, é evidente que a China se aproveitou extraordinariamente bem das circunstâncias que se apresentaram. Ao fim de 2019, as tentativas de Beijing de impor maior controle sobre Hong Kong haviam gerado protestos numerosos. As ruas estavam repletas de um confete de pássaros de origami coloridos, com os jovens praticando atos de vandalismo e se recusando a obedecer às diretrizes do comando central. Práticas de vandalismo contra a bandeira da China continental eram numerosas.

Mas então veio a pandemia, e as notícias do desastre que se desenvolvia em Wuhan. Em Hong Kong, famosa pelos preços estratosféricos dos alugueis, é comum que várias gerações dividam a mesma residência. Os jovens que participaram dos protestos anteriores decidiram se isolar, temerosos por seus pais e avós. E surgiu, então, uma oportunidade imperdível para Beijing. Conseguiu, finalmente, suprimir os protestos e passar a lei de Segurança Nacional, em junho de 2020.

A nova lei concede poderes inéditos para Beijing. Atos de secessão e subversão foram criminalizados e tornados passíveis de punição com a prisão perpétua. Tornou-se possível a extradição para o julgamento em cortes continentais, e a lei local passa a ser subordinada à lei chinesa. Além disso, Beijing estabeleceu um escritório de segurança nacional em Hong Kong, com seu próprio pessoal, e que atua fora da jurisdição da autoridade local.

O resultado prático disso tudo é uma severa restrição na liberdade de expressão dos habitantes de Hong Kong, e um aumento significativo do controle do Estado sobre a vida dos cidadãos. Os direitos individuais e corporativos também saem enfraquecidos, e as perspectivas são para uma unificação cada vez mais intensa entre Hong Kong e a China continental.

"A vida em Hong Kong transcende fronteiras culturais e culinárias, de uma forma que nada é verdadeiramente estrangeiro, e nada deixa de pertencer." (Peter Jon Lindberg, jornalista relatando a Hong Kong de 2013)

A gradual "sinificação" de Hong Kong tem consequências reais. Pergunte a Jack Ma: dias antes do IPO de sua Ant Financial, que teria sido a maior oferta pública de ações da história (US$ 34,5 bilhões), estava em uma conferência em Xangai. Lá, disse que o sistema chinês estava prejudicando a inovação, e necessitava de reformas para provocar mais crescimento. 

De repente, o aparato regulador decidiu que uma série de informações adicionais seria necessária, e a oferta foi abortada. Semanas depois, Jack Ma desapareceu. Ainda não foi encontrado. Alguns jornais apontaram que a decisão de frustrar o IPO foi tomada pessoalmente por Xi Jinping.

"[Xi] se importa é com o que você faz depois de se tornar rico, e se você está alinhado os seus interesses com os do Estado." (Um oficial Chinês de alto-escalão, de acordo com o The New York Times) 

Sem escapatória diante da situação, a saída para Hong Kong tem sido o aeroporto. O Reino Unido anunciou um programa para concessão de cidadania britânica aos ex-colonos, que tornou 2,9 milhões de pessoas elegíveis (cerca de 39% da população) a tornarem-se súditos da rainha. Uma pesquisa feita no fim de 2019 pelo Hong Kong Institute of Asia-Pacific Studies indicou que 42,3% dos entrevistados imigrariam se tivessem oportunidade.

Foto: Macau Photo Agency via Unsplash.

O êxodo de Hong Kong não deve se resumir apenas às pessoas. Pela primeira vez em onze anos, o número de empresas estrangeiras com escritórios na ilha caiu.

Não é surpreendente. A posição geográfica privilegiada, os baixos impostos, a força de trabalho fluente em Inglês e o sistema judicial do common law britânico tornavam a região uma base óbvia para as operações asiáticas de multinacionais. Tudo isso foi colocado em xeque com os avanços de Beijing.

"Estamos em um dilema. Se seguirmos a lei em Hong Kong, poderemos violar as regulamentações de outros países. Nos preocupamos que as pessoas não irão nos confiar, algum dia, se dissermos que somos uma companhia baseada em Hong Kong". (Ben Cheng, co-fundador da Oursky) 

Felizmente, existe uma outra ex-colônia britânica localizada no Sudeste Asiático, (um pouco) mais democrática, adepta do common law, com baixos impostos e fluente em inglês. A rivalidade entre Singapura e Hong Kong data desde os tempos de sujeição à coroa, mas as circunstâncias políticas estão postas para tornar a Cidade-Nação uma espécie de Suíça Oriental. 

"Não estamos vendo apenas pedidos externos, mas também alguns pedidos internos, perguntando a respeito de oportunidades de realocação de Hong Kong para Singapura. [Não fosse pela situação atual], isso seria bastante atípico, dado que os habitantes de Hong Kong historicamente se gabavam de como sua cidade e estilo de vida eram superiores. Muitos diziam que jamais se mudariam para a Singapura". (fonte de um banco europeu)

Mas os expatriados que hoje trabalham em Hong Kong, se relocados para a Singapura, terão que se adaptar a uma realidade local muito distinta. O sentimento de lei e ordem dos estreitos é dos mais rigorosos existentes, com o país sendo considerado um dos mais limpos do mundo. Pudera: quem deixa de dar a descarga após usar o vaso sanitário pode ser multado em cerca de US$ 115. A multa para o crime de cuspir no chão chega a US$ 750, e quem joga lixo em lugar inadequado enfrenta multas de até US$ 1500!

Para além das peculiaridades do sistema legal, Singapura é uma região mais limitada. A escassez de terra torna a região uma das mais caras para se habitar no mundo, e a capitalização do mercado da cidade-estado não chega a 20% da grandeza de Hong Kong.

Outras alternativas seriam Seul ou Tóquio. Mas ambas não desfrutam das mesmas vantagens judiciárias, linguísticas e tributárias das ex-colônias britânicas, além de nunca terem desenvolvido sua reputação para ser uma meca financeira. E o futuro cada vez mais incerto de Taiwan torna Taipei uma alternativa difícil.

A opinião e as informações contidas neste artigo são responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a visão da SpaceMoney.

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