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Nova Zelândia testa nova revolução monetária para conter preços dos imóveis

Uma das consequências negativas de políticas monetárias frouxas são os preços dos ativos. Nunca foi tão barato financiar uma casa no mundo desenvolvido, e isso tem seu lado ruim

16 março 2021 - 12h09
Nova Zelândia testa nova revolução monetária para conter preços dos imóveis

Os kiwis – o apelido dado aos neozelandeses – são famosos pelas ovelhas, o rugby, o povo maori e... por serem um tanto quanto revolucionários em termos de política monetária. Foi na Nova Zelândia que nasceu o conceito, amplamente utilizado em tempos modernos, de metas de inflação.

Nelson é uma pequena cidade, bastante ensolarada, ao norte da Ilha Sul. Lá vivia um fazendeiro que tinha um pomar de maçãs. Ao decidir se aposentar, vendeu seu pomar e aplicou todo o dinheiro em um investimento de baixo risco – títulos de dívida de 18 anos do governo local, que pagavam juros de 5,4%. A inflação da época, muito alta, corroeu 90% de suas economias, e tornou o ex-fazendeiro um miserável. Anos depois, seu sobrinho Donald Brash acabou se tornando o presidente do Banco Central da Nova Zelândia.

Brash foi moldado pela experiência do tio, ferrenho adversário da inflação. Ao assumir o banco central, teve uma ideia pouco ortodoxa para os padrões da época: estabelecer metas de inflação. Desvios altistas dos índices de preços seriam prontamente combatidos com taxas de juros mais altas. Empresários e sindicalistas pediram sua cabeça à imprensa, alegando que uma política tão radical iria destruir a economia. Os altos juros necessários para debelar a inflação iriam inviabilizar qualquer atividade econômica.

Mas o tempo é o senhor da razão. Em dois anos, a inflação caiu de 8 para 2%. A revolução monetária da Nova Zelândia foi prontamente exportada ao redor do mundo e hoje é adotada na maior parte dos países, inclusive no Brasil.

Problema diferente

Anos depois, os índices de inflação mundo afora não botam medo em mais nenhum banqueiro central. Pelo menos por enquanto é o medo de uma deflação, impensável nos tempos de Donald Brash, que povoa os pesadelos dos Bancos Centrais. Com índices de inflação baixos e controlados e taxas de juros extraordinariamente baixas – e até negativas – os problemas agora são outros.

Uma das consequências negativas de políticas monetárias frouxas são os preços dos ativos. Nunca foi tão barato financiar uma casa no mundo desenvolvido, com financiamentos imobiliários, em alguns casos, a taxas fixas de zero (que só fazem sentido quando a taxa de referência local é negativa).

Desde março de 2020, quando começaram a sentir os efeitos da pandemia, os neozelandeses colocaram a taxa de juros local no patamar mais baixo de sua história, a 0,25%. A inflação nos 12 meses encerrados no ano passado foi de míseros 1,4%. Mas o preço médio das casas subiu impressionantes 19% nos 12 meses findos em janeiro, com uma casa típica em Auckland custando mais de 720.000 dólares neozelandeses (equivalente a mais de 2,8 milhões de reais). Mesmo grandes saltos de preço não são representativos nos índices de inflação e acabam trazendo pouco impacto para as decisões dos bancos centrais.

Jacinda Ardern ficou decepcionada. A popular primeira-ministra foi eleita com uma plataforma de tornar a compra do primeiro imóvel acessível para a população. Pediu, então, que seu banco central tenha um olhar mais abrangente. Para além de ter metas de inflação e emprego, o Banco Central da Nova Zelândia deverá passar a olhar o mercado imobiliário. Afinal de contas, é a política monetária frouxa quem deve ser culpada pelos preços dos imóveis.

É mais uma pequena revolução monetária empreendida pelos kiwis. Tem seus críticos – colocar metas demais para a política monetária pode tornar cada vez mais complicado cumprir todos esses objetivos. Mas é um primeiro reconhecimento, a nível global, de que políticas monetárias frouxas demais podem ter consequências nefastas para a vida dos cidadãos.

Um estudo publicado pela Numbeo compara a renda média das famílias com o preço médio de uma habitação. Em mais de 90% das cidades mundo afora, os preços da habitação superam três anos de renda familiar. Esse número tem aumentado a cada ano, e o drama da moradia tem se tornado um problema cada vez mais sério para os jovens.

Vale observar o resultado do experimento neozelandês. Caso dê frutos, podemos ver mais uma revolução kiwi sendo exportada mundo afora, com consequências importantes para as taxas de juros globais.

A opinião e as informações contidas neste artigo são responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a visão da SpaceMoney.

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