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Qualitativo de uma tese de investimento não muda ao sabor do vento

03 junho 2020 - 07h31
Qualitativo de uma tese de investimento não muda ao sabor do vento
Escrevi sobre este tema em 2017, mas ele segue sendo tão ou mais atual do que nunca. Eu havia feito uma viagem para Portugal, onde visitei o novíssimo MATT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa, em cujo salão principal a artista brasileira Marilá Dardot apresentou a videoinstalação “Diário”. Nesse trabalho, durante quase um mês, a artista escrevia com água, sobre um grande muro de concreto, as manchetes mais impactantes que lia nos jornais mexicanos. Mesmo antes de acabar de escrever toda a notícia, as palavras iam se apagando, materializando a sua brevidade e efemeridade. Essa obra me fez refletir como estamos sempre conectados a notícias, cotações, tweets etc. Até mesmo em momentos de descontração e férias estamos conectados, mas via de regra, passadas algumas semanas, não temos a mais vaga lembrança das informações consumidas, ficando apenas a certeza da sua irrelevância. Se o desafio antigamente era ter acesso às informações com rapidez, atualmente nos parece que é saber filtrá-las. Bombardeados por feeds que caducam a todo instante e opiniões supostamente relevantes sobre tudo, passamos o dia ocupando e desocupando nossas mentes. Um efeito colateral comum é a dificuldade de nos dedicarmos exclusivamente a uma ação, o que nos leva a não completar tarefas ou a fazê-las com uma certa superficialidade. Como analistas de investimentos que somos, dedicamos a maior parte do nosso tempo a estudar e aprender mais sobre as empresas e indústrias que acompanhamos. Com raríssimas exceções, o qualitativo de uma tese de investimento não muda ao sabor do vento, de um tweet para o outro. A velocidade do mundo real não acompanha a do virtual e, por mais difícil que seja internalizarmos isso no dia a dia, a vida real e dos negócios continuam acontecendo num ritmo mais “lento” – certamente muito mais rápido do que há algumas décadas, mas ainda sim “normal”. É difícil, senão impossível, produzir um trabalho intelectualmente original se não conseguirmos separar um espaço na agenda para a divagação, para o exercício do “ócio criativo”. Ter a disciplina para essa atividade é um grande desafio, principalmente no momento atual de pandemia. O tempo todo estamos sendo empurrados para extremos, ora vestimos chapéu de epidemiologistas, ora de estatísticos, analistas de investimentos e assim por diante. Importante revisitarmos diariamente nossas raízes de investidores de ações (empresas) de longo prazo que, no final do dia, se dedicam principalmente a entender pessoas, negócios, dinâmicas competitivas e um pouco de economia.
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