A mecanização da agropecuária brasileira ainda não incorporou os biocombustíveis nacionais como fonte energética, apesar da vasta experiência do país com etanol, biodiesel e biometano. A constatação surgiu durante o 41º Simpósio da Agroindústria da Cana de Açúcar de Alagoas, promovido pela STAB, maior evento do setor sucroenergético do Norte/Nordeste. A pergunta central que ecoou no encontro foi direta: por que tratores, colheitadeiras e implementos autopropelidos continuam dependentes de combustíveis fósseis, enquanto o Brasil domina a produção de alternativas renováveis?

A resposta, segundo especialistas presentes, está na falta de motores adaptados e de uma política industrial voltada para esse nicho. Iniciativas pontuais já existem, como o motor a etanol desenvolvido pela MWM, hoje controlada pelo grupo Tupy, que pode ser instalado em tratores novos ou adaptado em máquinas usadas. No entanto, a escala ainda é insuficiente para atender a demanda do campo, que movimenta milhões de hectares e uma frota de máquinas envelhecida.

Oportunidade estratégica para a cadeia produtiva

A adoção em massa de biocombustíveis na mecanização agrícola representaria um impulso significativo para investimentos, geração de empregos e renda no país, além de abrir novas frentes de exportação. A cana-de-açúcar, o milho, a soja e as madeiras seriam diretamente beneficiados, criando um mercado cativo para a produção de etanol, biodiesel e biometano. Esse movimento também daria suporte aos planos de transformação de áreas degradadas em agricultura moderna e regenerativa, alinhando o setor às exigências globais de sustentabilidade.

O fator crítico, porém, vai além do aspecto econômico. Em poucos anos, a sustentabilidade na produção de alimentos, fibras e energia será medida não apenas pelos tratos culturais, mas pela eliminação de energia fóssil dentro das porteiras. Sem a substituição dos combustíveis fósseis nos tratores, pulverizadores e plantadeiras, será inviável declarar que o agro brasileiro caminha para o carbono zero. A logística pré e pós-porteira também entra na equação: insumos chegam e grãos, cana, café, algodão, frutas e carnes saem das fazendas movidos a diesel, tornando toda a cadeia dependente de fontes não renováveis.

Iniciativas em curso e desafios de escala

Um sinal de esperança veio da usina Caeté, em Alagoas, que iniciou a criação de uma rede de postos exclusivos de etanol. A iniciativa, embora localizada, demonstra que a mobilidade movida a biocombustíveis é factível. No entanto, para que a mecanização agrícola acompanhe essa transição, é necessário um planejamento coordenado entre governo, indústria e produtores. A fabricante MWM já deu o primeiro passo com seu motor a etanol, mas a oferta de tratores e colheitadeiras com essa tecnologia ainda é incipiente.

O desafio logístico é igualmente relevante. A dependência de energia fóssil na chegada de insumos e no escoamento da produção precisa ser atacada com soluções integradas, que vão desde a produção de biocombustíveis nas próprias fazendas até a adaptação da frota de caminhões. O biometano, gerado a partir de biogás, surge como alternativa para veículos pesados, enquanto o biodiesel já tem presença obrigatória na matriz, mas ainda não é utilizado em larga escala na maquinaria agrícola.

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Urgência de um plano nacional

A pergunta que ficou no ar durante o simpósio é se o Brasil conseguirá aproveitar essa janela de oportunidade antes que as pressões externas por descarbonização tornem a mudança obrigatória. O país já possui a matéria-prima, a tecnologia e a experiência com o Proálcool, que nasceu nos anos 1970 como resposta à crise do petróleo. Agora, falta apenas a vontade política e o investimento para adaptar a frota e criar um mercado robusto de máquinas movidas a biocombustíveis.

O setor sucroenergético, que já responde por uma parcela significativa da matriz energética nacional, pode se tornar o motor dessa transformação. A integração entre cana-de-açúcar, milho e soja para produção de combustíveis renováveis, aliada à mecanização limpa, colocaria o agro brasileiro na vanguarda da sustentabilidade global. O tempo, no entanto, é curto: a cada safra que passa sem essa transição, o país perde competitividade e reforça a dependência de combustíveis fósseis.